#ReBPlaylist: Outubro 2015

[FOTO] Direitos Reservados

 

O hip hop a dominar a lista de preferências da equipa Rimas e Batidas entre lançamentos no mês de Outubro. Mas há mais abaixo um par de sons que até são mais antigos: um deles é alvo de uma reedição 15 anos depois; o outro… é de finais de Setembro. Ou seja, quem escreveu sobre este último exemplo certamente que se perdeu a ver memes do Drake e não prestou a devida atenção às regras de participação da #ReBPlaylist. Fica a intenção, ainda assim, de partilhar convosco os sons que andaram em loop no último mês nos nossos aparatos de reprodução sonora.

 


 

[VULTO. & SECTA] “Numa Cesta Tu Cates”
(Marcha, Língua Nativa)

VULTO. convidou Secta e, juntos, exploraram os sentidos um do outro. Um egofreak frenético e viciante onde o MC da Marinha Grande cola os seus malabarismos aos ritmos lentos do produtor. O EP dá-nos uma visão clara de que há muito português por onde Secta pode pegar para articular os seus trocadilhos, inovando no flow, descolando-se dos demais praticantes desta modalidade. VULTO. mergulha-nos num espaço sonoro perto do industrial, já mais mecânico que orgânico, futurista, como que uma luta entre máquina versus homem pela sobrevivência da espécie. Uma Marcha que que não cansa, por mais longa que seja.

– Gonçalo Oliveira

 


 

[CORONA] “Pontapé nas Costas”
(Lo-Fi Hipster Trip, Meifumado)

Num disco especialíssimo – pelas músicas, pelo conceito e pela embalagem – este “Pontapé nas Costas” é uma porrada boom bap a baixa velocidade. Os Corona escolhem sons sujos e velhos para construir canções, brincam com as frequências das vozes para criar personagens “gunas” num Porto bairrista de rusgas em becos com roupas nos estendais. Aqui, dB e Logos convidam Frankie Dilúvio para participar neste verdadeiro “ataque à cobarde” tremendamente eficaz.

– Bruno Martins

 


 

 

[INFINITO 2017] “Slap These Boys”

(Solar Powered People, Joe Left Hand Records)

O rap que promete aviar bofetadas acumula já o número suficiente de exemplos para ser considerado um sub-género. Qualquer rapper pode naturalmente tentar a sua sorte nesse jogo, mas é a voz de cada um que distingue os verdadeiros dos tenrinhos. Se não sentirmos a afronta e a dureza nas palavras despejadas no flow, toda a ameaça parece vã e risível. Não é contudo isso que acontece quando, em “Dawg Friendly”(faixa suprema do duo JJ Doom), Jneiro Jarel coloca em sentido os restantes produtores com o verso “Dropping all these beats to slap these cats silly”. A mesma força bruta sente-se na voz de Halloween, assim que “Drunfos” cede espaço à “meiguice” das palavras “Se um dia me vires na rua, diz-me o que é que fazes / Eu dou-te na cara em frente dos teus rapazes”.

Pois bem, o mais recente acrescento ao rap-que-promete-bofetada vem de uma subestimadíssima figura do underground: Marcellous Lovelace, o rapper de Chicago também conhecido por Infinito 2017. Na ponta da lança que é o seu recente sete polegadas Solar Powered People, esta “Slap These Boys” é uma preciosa amostra do majestoso trabalho que Marcellous Lovelace tem desenvolvido em mais de 150 discos (com escasso filler e vários brilharetes). As regras são simples: rapper abre as portas ao discurso da consciência e demonstra skills de qualidade sobre um beat impossível de travar (agradeçam a Blaak the 9th Man). Tudo resulta tão impecavelmente que apetece oferecer os dois ouvidos a todas as bofetadas vindas de Infinito 2017.

– Miguel Arsénio

 


 

[CHANCE THE RAPPER FEAT. SABA] “Angels”

Crime, weed and bitches. Aquilo que durante anos marcou grande parte do teor hip hop está a desvanecer por boas razões. Se havia dúvidas naquilo que distinguia Chance The Rapper dos seus conterrâneos, “Angels” é uma boa explicação para que este esteja um degrau acima dos outros. Lançada há pouco mais de uma semana, esta lufada de ar fresco funciona como uma flor a crescer nos solos áridos e desgastados de Chicago (“Clean up my streets so my daughter can have somewhere to play”). O hip hop habitualmente agressivo e desafiante deste estado é agora, pela voz de Chance, a procura pelo rejuvenescer dos tempos de tensão e conflito ideológico. Em vez do notável bass, temos ritmos havaianos. Em vez do protagonista que se diz protegido pelos bros da crew, há anjos.

– Sidónio Teixeira

 


 

[SHINICHI ATOBE] “Ship-Scope”
(Ship Scope, DDS)

O tema é de 2001, editado na incontornável Chain Reaction/Basic Channel, entidade que no virar do milénio se dedicou a expandir as margens do techno até aos confins do cosmos. A DDS dos Demdike Stare já tinha lançado o duplo LP The Butterfly Effect, recolocando assim o misterioso Shinichi Atobe em rota de colisão com o presente e o futuro. E agora recupera a sua solitária edição de 2001, Ship-Scope, um impressionante EP que há década e meia se encontra fora de circulação e que troca de mãos no Discogs por cerca de 60 euros o exemplar.

O tema título deste EP é um impressionante pedaço de sombra e luz, deriva ambiental pelos cantos mais recônditos do dub, todo sugestão contida, prestes a explodir mas sem nunca lá chegar, monumento esculpido com múltiplas frequências e servido por um drone que sustenta o delicado edifício sonoro à beira do colapso. Para ouvir em loop durante toda uma vida, à beira de um glaciar qualquer.

– Rui Miguel Abreu


 

[TYLER, THE CREATOR] “Fuck It”

O estado de graça de Tyler, The Creator durou pouco. Cherry Bomb era o registo que (supostamente) demonstrava que a raiva que transportou para registos passados estava ultrapassada, mas “FUCK IT” atira-nos à cara que existem assuntos por resolver. Os Odd Future estão com problemas por resolver e Tyler parece visar Earl Sweatshirt neste verso:” I wish I had fucking Xanax problem so y’all talk about how I deep I am”.

Mas não é só de dramas familiares que vive esta faixa. Já não é Bastard e os fãs mais antigos não o entendem. “Tyler losing himself, and that nigga turned to a diva / Nigga preaching and smiling, nigga wilden’ and breathing / Tryna inspire all the little niggas that wanna be him / But fuck that!, We want: Cats cats daddy problems / Kickflip fuck fuck, cupcakes buttrape / Golf Wang, daddy problems fag fag dad dad| Bike lake everything that I hate, plus being sad. A mudança não foi bem vista pelos seguidores mais acérrimos do Tyler depressivo e o próprio está a ter dificuldades em perceber o seu público, mas para já ficamos com um simples “FUCK IT”.

– Alexandre Ribeiro


 

[SPORTING LIFE] “My More Rounds”
(55’5s, R&S Records)

Há qualquer coisa de infanto-dramático em “My More Rounds”. É certamente derivado da persistente manipulação de agudos através de uma fatia sonora de cordas. O drama vem da urgência dessas cordas. Já o infanto reflecte uma espécie de deriva naive e jovial que está por ali embutida. E depois há drums minuciosamente dispostos entre disparos de sopros e teclados de extensão sonora mínima. Que manto de samples este de Sporting Life, produtor associado aos Ratking. É uma espécie de colagem artística, como um quadro, sem dúvida.

É um embalo, especialmente se tiverem ouvidos que se deixam capturar nestas sonoridades e que conduzem a mente a viajar por aí, sem que nos apercebamos do mundo em redor. Eu sou um desses ouvidos. Por isso é que só agora é que reparei que 55’5s foi lançado já na metade final de Setembro. Perdoem-me o precedente. Estas rounds continuam em disparo permanente, a queimar, queimar e queimar o alvo que são os meus ouvidos.

– Ricardo Miguel Vieira

ReB Team

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