#ReBPlaylist: Novembro 2019

[FOTO] Direitos Reservados

Em Novembro, a pista de dança do Rimas e Batidas teve uma banda sonora apropriada para quem gosta de gingar de cara trancada: de “Badman” a “Quem Manda no Mic”, passando por “Deal Wiv It” e “Júlio César”, não há espaço para brincadeiras. Por outras palavras, neste caso as de Regula em “Casanova”, o “papo é recto”.

Mas também temos alternativas para quem procura outros balanços: “p-string”, “In My Room”, “A Palé” e “Regulars” complementam o conjunto heterogéneo. Música para todos os tipos de calçado.


[Aphex Twin] “p-string”

Dentro da caixa WXARXP Sessions, que contém 10 discos, cada um com sessões especiais gravadas ao longo dos anos para rádio por vários artistas da Warp Records — desde Boards of Canada e LFO a Flying Lotus e Oneohtrix Point Never –, podemos encontrar Peel Session 2, uma colectânea de quatro músicas, cada uma delas pertencente a um universo sonoro bastante específico, que constam da sessão que Aphex Twin fizera em 1995 para a editora.

A terceira faixa, “p-string”, explora uma vertente mais techno e menos glitch que aquela à qual o produtor nos habituou, pondo a desconstrução de parte para dar lugar ao kick 4/4 edificado por Detroit nos anos 80. Apesar de termos de voltar 25 anos atrás no tempo para encontrarmos a origem da sua composição, é interessante não sentirmos diferenças temporais entre a faixa e o que é feito actualmente dentro deste espectro musical. As melodias são empurradas a uma velocidade estonteante pelos graves pesados e os pratos acelerados, sem nunca fugir à sonoridade de Richard D James, que se reconhece a milhas nos sintetizadores e no método de composição, remetendo-nos para as estruturas presentes nas músicas de Selected Ambient Works 85-92.

– Francisco Couto


[Pongo] “Quem Manda no Mic”

Erykah Badu, um Cadillac e Pongo Love. “Quem Manda no Mic” é, efectivamente, Pongo, num tema que prolonga a afirmação do imaculado EP Baia. Prova de que o atletismo do kuduro é sempiterno, o single vem tracejar a história da cantora desde que gravou “Kalemba (Wegue Wegue)”. Fá-lo à imagem do último projecto, ao recuperar o flow belicoso de “Baia” e a festividade de “Tambulaya”, mas já sem o coração partido de “Kuzola” nem o agridoce de “Quero Mais”. Um kuduro mutante como pura celebração, a coroar uma rainha por demonstração.

Como possível prévia de um álbum de estreia, falha ao não reproduzir o êxtase sísmico de “Kassussa” e, em especial, “Chora” — faixa que relançou Baia em Maio, mas podia ter sido um trunfo mais bem jogado a esta altura do campeonato. Fora de estratégias, e dado o absurdo controlo de qualidade que assegura, qualquer momento pode ser pivotal para Pongo. França e Inglaterra já a reconhecem como força meteórica; é altura do seu próprio país a abraçar.

– Pedro João Santos


[Plutonio] “Badman”

Há várias cores, texturas e feitios no longo álbum que Plutonio lançou neste mês de Novembro, Sacríficio — Sangue, Lágrimas & Suor. Mas se há alguma que transborda mais preto e vermelho é, sem dúvida, “Badman”, tema que tem muitas nuances e elementos do grime, que popularizaram artistas como Skepta ou Wiley. A energia visceral do instrumental, as rimas rápidas disparadas com pontaria, a estética geral, a força e os estrangeirismos do refrão transportam-nos para esse universo que, sem dúvida, sempre foi preto e vermelho, tal como Plutonio. Num disco diverso como este, de um rapper que alcançou com mérito o estatuto de mainstream, é bom encontrar uma faixa assim pelo meio, mais obscura, pesada, carregada de punchlines, difícil quando comparada com outros temas mais orelhudos. Grime made in BCV é uma óptima ideia e gostávamos de ouvir mais este registo em Portugal.

– Ricardo Farinha


[Allie X] “Regulars”

Vamos ser sinceros, hoje já se torna um pouco complicado definir  meticulosamente o que é um artista pop: existem aqueles que seguem uma escola mais convencional e que regurgitam os seus melodramas pelas tabelas musicais. Existem ainda aqueles camaleónicos que vestem diferentes géneros, encaram diferentes personagens e reinventam-se constantemente. Allie X é um pouco das duas coisas: é conservadora ao ponto de adoptar os ritmos que fizeram cantoras como Lana Del Rey e Lorde as estrelas que são hoje; no entanto, apresenta-se como uma verdadeira outsider. Há muito tempo que estuda a doutrinação da música pop e cada single que lança parece-se como algo descartado do top10 das rádios. “Regulars”, o terceiro de uma trilogia lançada este ano, é precisamente isso: açucarado ao ponto de querermos mais, mas ao mesmo tempo mantém-se dentro no seu próprio universo. Os riffs de guitarra, a ambiguidade das letras e a constante repetição do refrão mostram-nos que ela está pronta para o estrelato – agora é só esperar pelo momento exacto.

– Miguel Alexandre 


[Mura Masa] “Deal Wiv It” feat. slowthai

Se há algo que aprendemos com o hip hop é que as dream teams são bem reais e raramente one hit wonders. Eric B e Rakim. Freddie Gibbs e Madlib. E agora, slowthai e Mura Masa. O rapper britânico alia-se ao produtor seu conterrâneo para mais um tema de grande qualidade. Mas enquanto “Doorman” era um incansável tema de combate, “Deal Wiv It” é pura descontracção e regabofe. Se em “Doorman” a música se apoiava numa linha de baixo temerosa, aqui são as guitarras que fazem a diferença. A letárgica mas nunca atrasada melodia de baixo também se sente mas a energia descontraída é trazida pelo instrumento de seis cordas. O tom de slowthai é praticamente declamado, lembrando por vezes a música pungente de Sleaford Mods, e o jovem rapper nunca deixa de se mostrar jocoso, seja com humor ou com comentários meta à sua prestação lírica. Há uma naturalidade inerente à sua entrega que é espelhada pelo instrumental “sujo” e operário. Vão-se ouvindo teclas esparsas e deslizar de guitarra no decorrer das estrofes, enquanto que o refrão é explosivo, pronto para a moche, com uma parte instrumental viciante e que nos dá a todos vontade de pegar numa guitarra.

Esse incitar ao instrumento e à fuga da apatia está no cerne deste tema: “Deal Wiv It” é um hino contra a indolência. É uma mensagem para aqueles que não aceitam a mudança e que não se conseguem adaptar às vicissitudes da sua existência e da existência das pessoas que os rodeiam. Não conseguem aceitar que “life is hard but it’s quite exciting”, frase conclusiva que não destoaria de um poema de Charles Bukowski. O tema é um resoluto dedo do meio de unha encravada para todos os falsos amigos na nossa vida. E se não gostam dessa apreciação, deal wiv it, bruv.

– Miguel Santos


[Rosalía] “A Palé”

Rosalía estará, certamente, a ser alvo neste momento de múltiplas dissertações académicas e tal não será surpreendente tendo em conta o estatuto de estrela pop de dimensão global que rapidamente alcançou (foi um dos ícones eleitos para figurar numa das três capas que marcam o regresso da revista The Face!). O que poderá surpreender, porém, será a constatação de que essas dissertações estarão a ser entregues em vários departamentos diferentes: nos de musicologia, pois claro, nos de fotografia ou vídeo, mas também nos de moda, de história da arte, dança, sociologia, antropologia, gestão aplicada às indústrias criativas. Que diabo, até nos departamentos de economia se justificaria um estudo em torno dos símbolos de consumo presentes na iconografia desta artista.

Em “A Palé”, o seu extraordinário novo tema, Rosalía surge num parque de contentores, elevando aquele que é um dos maiores símbolos da omnipresença do capitalismo a objecto iconográfico. Para uma artista que parece ter seguido, nesse campo visual, a direcção inversa de Beyoncé que, enquanto parte dos Carters, foi até ao Louvre em busca da consagração definitiva do corpo negro na cultura moderna, os camiões e as motos de alta cilindrada, os aviões que atravessam os ares em voos low cost e os salões de arranjos de unhas, os carros quitados do tuning, mais inúmeros acessórios de moda que parecem elevados directamente das bancas das feiras que despejam imitações baratas das marcas de alta costura nos subúrbios das grandes cidades europeias, surgem como parte de um discurso visual de afirmação identitária que, precisamente, procura sublinhar a sua diferença, a sua vincada marca cultural, tão longínqua da das grandes estrelas pop geradas no fértil chão da América contemporânea.

Musicalmente, Rosalía também não tem facilitado: a sua música é um híbrido em que surgem variadas doses de flamenco (umas vezes mais explícito, outras mais intuído em certas nuances da entrega vocal, como acontece em “A Palé”), trap, electrónica experimental, reggaeton, diferentes extractos da banda sonora clubística moderna, tudo combinado com apelo pop, mas sem descuidos de superficialidade. “A Palé” parece ser outra coisa: um abismo de graves em que Rosalía mergulha sem medos, com flow meio rappado em castelhano urbano e afiado: “Todo lo que me invento me lo trillan/ Chandal, oro, sello (sello, sello) y mantilla/ Restos de caviar en la vajilla / Mi Kawasaki va por Seguiriya (Tiri-tiri)”. Olé? Sim, claro, que sim.

– Rui Miguel Abreu


[Regula] “Júlio César”

Quando se fecharem as contas desta década, não existirão grandes dúvidas: Regula foi uma das grandes figuras do rap português nos últimos 10 anos. E chegou a esse estatuto com dois discos a solo (Gancho e Casca Grossa) e o projecto com Carlão e Fred (5-30) — três anos seguidos a dominar as conversas e a virar palcos do avesso. Por isso mesmo, não admira que cantasse isto em 2017: “Passaram-se anos, eu ainda ‘tou a gastar grana do Gancho“.

Depois de dois anos em silêncio, o maior representante do “safoda style” regressou na semana passada com “Júlio César”, mais um banger que pertence ao alinhamento de Ouro Sobre Azul, o seu próximo álbum. Afiadíssimo do início ao fim, o MC rimou sobre o “hustle” (“às vezes nem a janta como”), os mentirosos da praça (“Rappers hoje em dia dizem tudo menos verdades”) ou a falta de airplay (“Os meus sons não dão para ‘tar na rádio chama-me Amaral”) e redireccionou todas as atenções para si. Que 2020 seja ano de novo longo-duração. Avé, Regula!

– Alexandre Ribeiro 


[Frank Ocean] “In My Room”

O último trimestre de 2019 trouxe consigo novidades de Frank Ocean. Apesar das esporádicas contribuições em projectos como TESTING ou ASTROWORLD e de uma versão de “Moon River”, o artista não lançava nova música desde “Provider”, em 2017. O fim de ano serviu para dar alguma vazão a material em que tem trabalhado, e algumas das canções contêm colaborações com artistas tão variados como Skepta, Arca, Justice e Sango.

“In My Room” é a mais coesa e concisa destas faixas — “DHL”, o outro single que saiu, é mais deambulante e disperso. O braggadoccio que já conhecíamos de temas como “Chanel”, sobre grandes despesas e vidas de luxos, é uma temática que se vai repetindo na era pós-Blonde. Por cima de um beat produzido por si e pelo produtor Michael Uzowuru e com drum programming de Sango (dois colaboradores frequentes de Frank nesta fase), o cantor debita versos com variação de flows e apresenta uma estrutura de canção relativamente irregular — algo comum desde Endless e muito visível desde os singles de 2017. Em vez de criar típicas canções de estrofe-refrão-estrofe-refrão-ponte-refrão, tem três momentos diferentes (normalmente): estrofe, tema A, tema B.

O sample utilizado em “In My Room” representa bem as influências mais clubbing da música que anda a consumir, mas num beat apetecível da época trap-based em que vivemos, Ocean diferencia-se, como sempre, pela qualidade composicional de melodias e de canções, e pela distância que cria dos pares nos pormenores atípicos.

– Vasco Completo

ReB Team

ReB Team

Facebook.com/rimasebatidas
Twitter: @rimasebatidas
Instagram: @rimasebatidas
SoundCloud.com/rimasebatidas
YouTube.com/c/rimasebatidas
Mixcloud.com/rimasebatidas
ReB Team