#ReBPlaylist: Junho 2019

[FOTO] Mike Blanko

Este mês, o ReB divide-se em três “equipas”: rap tuga (Classe Crua, holympo e Harold), rap americano (Benny the Butcher e Freddie Gibbs) e música electrónica das Ilhas Britânicas (Jai Paul, Róisin Murphy e Burial). Que vença a melhor!


[Róisín Murphy] “Incapable”

As melhores músicas de Róisín Murphy têm sido, até agora, aquelas cuja absorção é mais complexa. Não só porque normalmente ultrapassam a marca dos cinco minutos, mas também porque a carga emocional que cada uma carrega é difícil de replicar. “Incapable”, apesar de ser directa no seu título, não deixa de seguir a premissa de temas anteriores. A cantora admite nunca ter tido um coração partido e apresenta tal facto com orgulho através de grooves hipnóticos de deep-house com pitadas de disco e um toque de funk — a cargo de Richard Barratt, colaborador habitual de Murphy (também conhecido como Crooked Man). A melodia acompanha-nos até ser abruptamente quebrada quando conhecemos o outro lado da história: “Am I incapable of love?” — à medida que ganha um novo corpo, o tom da canção salta entre sussurros e grunhidos — entre uma indiferença apaziguadora e uma mágoa pungente.

Como uma boa música house, o foco é fazer com que o ouvinte se perca — aqui o caso é igual, mas primeiro é necessário procurar uma valorização emocional na desilusão de outra pessoa.

– Miguel Alexandre


[Classe Crua] “A Minha Praia”

Agora que já passaram umas semanas desde o lançamento do vigoroso Classe Crua, já fizemos a digestão e podemos ir à água para falar sobre um dos melhores temas do álbum, “A Minha Praia”. “Queres saber o que é uma vibe?”, pergunta Sam The Kid  antes de começar a música. Ele e Beware Jack explicam o que é com uma música impossível de ouvir como deve de ser sem uns óculos de sol e uma piña colada. A praia não é obrigatória nesta equação: a batida simples com um sample de sopros sempre presente de forma suave é adornada de teclados quentes e apontamentos melódicos pelo meio, e tudo isto nos transporta directamente para a riviera.

É o único tema do álbum em que se ouve Sam The Kid disparar umas barras, e inspiradas, mas é o suficiente para deixar uma curiosidade mórbida sobre como seria Classe Crua caso Beware Jack e o produtor dividissem o microfone em todas as canções. O hook é complexo e simultaneamente fácil, com a voz de STK, levemente perfumada por auto-tune, a executar uma melodia absolutamente deliciosa e a cantar palavras de consagração. A música é contra as falsidades e uma ode ao trabalho duro e à apoteose que surge do verdadeiro talento, evidenciado pelas potentes palavras de Sam The Kid (“O meu navio é cultural, insubmisso ao leme cruzo/ Trabalho para ter a perícia, o ofício é bué recluso”) e de Beware Jack (“Camarão que dorme na praia é levado pela onda/ Nem que vire himalaia, sou da laia que fica à tona”).

No entanto, o momento mais fantástico surge no curto outro final cantado por AMAURA. Sem grande aviso ou preparação, a vibe da música muda completamente para o espectro oposto, com uma batida seca e angustiante munida de um baixo autoritário, uma representação sonora das batalhas que Sam The Kid e Beware Jack tiveram de enfrentar para alcançar tudo o que têm e que são actualmente, mostrando que para a chegar à tranquilidade é preciso domar as ondas. É a união perfeita entre a descontracção e serenidade de quem atingiu o sucesso e derrotou o Adamastor, boom bap no sentido lato da palavra e um tema que dificilmente passará despercebido a qualquer amante do hip hop tuga.

– Miguel Santos 


[Harold] “Do fim”

2013. Já passaram seis anos desde que os GROGNation rebentaram dentro do movimento hip hop tuga com a mixtape Dropa Fogo — e depois comprovaram o seu talento quando começaram a editar trabalhos originais. Muita coisa aconteceu desde então. Como na grande maioria dos colectivos, a vontade de fazer projectos a solo acabou por surgir — e Harold foi o primeiro a emancipar-se com o álbum Indiana Jones. Papillon (com grande sucesso) e NastyFactor seguiram-lhe a pista — pelo menos em termos de trabalhos consistentes — e Harold nunca parou de mostrar novidades.

O mais recente single — que ainda não se sabe se fará parte de um futuro disco — é “Do fim”, uma faixa descomprometida e despreocupada, mas ao mesmo tempo apontando para a ambição na mensagem simples que o MC de Mem Martins tenta passar.

Harold aproveita um dos seus maiores talentos — a capacidade de entregar rimas embrulhadas em flows altamente melódicos — para construir este tema com um bounce contagiante. O auto-tune subtil, presente em algumas partes, cola na perfeição a voz do rapper com o beat produzido por Migz, com co-produção de Conductor e alguns acrescentos de Here’s Johnny, que misturou e masterizou a canção. Há ainda baixo e guitarra de Gerson Marta, num autêntico trabalho de grupo.

Tem tudo o que é preciso para prender o ouvinte e para que ele queira escutar o som mais uma e outra vez — e o videoclipe assinado por André Pêga só contribui ainda mais para esse efeito. Queremos ouvir esta da próxima vez que formos sair à noite.

– Ricardo Farinha


[holympo] “1/2” feat. Heartless (prod. Nedved)

Com a edição de #FFFFFF, ProfJam agarrou um lugar de destaque entre a comunidade trap em Portugal, muito graças à ousada inovação na combinação, cada vez mais dominante, de voz e auto-tune. É seguro pensarmos que muitos dos artistas que estão ainda por aparecer vão encontrar nesse disco uma das suas maiores fontes de inspiração, estudando-o e utilizando-o como ponto de partida para algo bem maior do que aquilo que conseguimos presenciar de momento.

holympo foi o primeiro a chegar-se à frente, um talentoso MC, cantor e produtor que tem vindo a dar sinais de forte aptidão musical através do SoundCloud e que, após um largo número de experiências, arriscou na edição de um EP de originais este mês. Focado nos problemas do amor, Arritmia apenas perde para #FFFFFF no número de faixas apresentadas, com holympo a reunir ao seu lado alguns dos newcomers mais entusiasmantes no campo da produção e a demonstrar que não são precisos muitos anos de carreira para se conseguir o toque de genialidade nas melodias passíveis de fabricar com a voz, mesmo que com o recurso a um software de modulação, que aqui actua como se de um instrumento adicional se tratasse. Há patamares que nem o trabalho árduo consegue alcançar, apenas disponíveis para aqueles cujo talento lhes é inato.

Em Arritmia destaca-se “1/2”, que logo à partida nos agarra aos auscultadores com um hábil jogo de 808s servidos a baixas rotações e um conjunto de samples minimal, apenas para criar a atmosfera necessária para que holympo e Heartless, o convidado da faixa, desfilem versos amargurados de histórias de romance joviais, com o primeiro a assinar uma invejável dose de camadas e texturas sobre a pista da voz principal, como quem se gaba de conseguir dominar por completo a ferramenta de manipulação mais popular da industria discográfica neste momento.

– Gonçalo Oliveira


[Burial] “State Forest”

O lado A do último single, “Claustro”, é o registo discográfico que traz de volta à tona o nome Burial. O produtor inglês esteve dois anos sem novos lançamentos e parece agora reencontrar-se com uma estética similar à época de Untrue, o mítico álbum de 2007 que deixou para sempre a pegada de William Bevan na música electrónica.

É, no entanto, em “State Forest”, o lado B, que se deve dar atenção redobrada, talvez pela inexistência de vozes faladas, da falta de samples de melodias de r&b com auto-tune, ou até da falta de componente rítmica —  este é um registo incomum de Burial. “State Forest” encontra-se na linha de outros momentos da sua discografia, sejam “Beachfires”, ” In McDonalds” ou ainda ” UK”, e a profunda exploração atmosférica transmite aqui a mesma premissa que já conhecemos de Untrue. Enquanto “Claustro” é a frenética, crua e avassaladora rave, “State Forest” é o regresso a casa numa cidade cinzenta, industrial e fria. Os crackles de vinil, típicos tanto de um Burial como de um J Dilla, acompanham uma harmonia entre um suposto coro e conjunto de cordas hiper-reverberados.

Sem os típicos diálogos samplados, há lugar em “State Forest” para deixar a faixa existir enquanto ambiente apreciável, não como um novo conceito, apenas como uma música bonita e emocionalmente envolvente. Há coisas que não mudam, afinal de contas.

– Vasco Completo


[Jai Paul] “Do You Love Her Now”

A narrativa do salvador de Rayners Lane, Inglaterra, continua a vir a lume: um senhor que concebeu um estilo absolutamente inaudito e remoto de produção (sem hipérboles), tão assente em samples obscuros desde música indiana até Lara Croft (os meus dias passados a jogar Tomb Raider Legend teriam eventualmente de ter alguma utilidade) como numa sensibilidade entusiasticamente descarrilada.

“BTSTU” e “Jasmine”, os dois singles monumentais que editou em 2010 e 2012, subverteram os moldes da electrónica e do r&b com uma furtividade absolutamente silente — mas que não deixa menos marca por isso. A disponibilização ilegal de várias demos, reunidas num álbum de 2013 que acabou por figurar nas listas dos melhores do ano (e está agora licitamente em todas as plataformas) motivou o afastamento aparentemente inquebrável de Paul. Mas 2019 está a ser um ano diferente — e se Paul não está minimamente perto de anunciar uma digressão de clubes e fazer um blitzkrieg de entrevistas, já esteve (desesperadamente para nós) muito mais longe. O anúncio do seu retorno foi um cataclismo underground — entre gritos viscerais, vinil white label esgotado e vendido no eBay a mais de 500 dólares —, mas para além da parafernália, o regresso de Paul foi uma lenda urbana a ganhar corpo. Como evoluíra após estes anos todos?

A resposta (próxima da produção que assinou nos singles de Fabiana Palladino, para a sua editora Paul Institute) está no “duplo lado B” que editou pela XL, em que “Do You Love Her Now” é a alma-metade estival e aquosa da premente e nocturna “He”. Paul vai inspirando confiança, coadjuvado por uma Fabiana Palladino que surge em jeito de ninfa, ou como musa auxiliar. Paul voltou e, com ele, trouxe o Verão. Não sabemos se ou quando volta, mas, a este ponto, estamos habituados ao racionamento desta ambrósia.

– Pedro João Santos 


[Benny the Butcher] “18 Wheeler” feat. Pusha T

“18 Wheeler” seria uma espécie de passagem de testemunho se não estivéssemos a falar de Pusha T, artista que parece ficar melhor à medida que vai envelhecendo. Porém, não deixa de ser mais um co-sign importantíssimo para o “carniceiro” da Griselda, que se vai posicionando como um dos casos mais sérios na arte de transformar palavras e flows em quadros vívidos do se vive nas ruas mais soturnas.

Neste single de The Plugs I Met, as “barras” ainda são importantes e este duo comprova-o sem grandes dificuldades, respondendo a um beat minimalista de DJ Shay. “Only I can coke rap this glamorous”, atira, entre outras quotables, Terrence Thornton. Só lemos factos…

– Alexandre Ribeiro


[Freddie Gibbs & Madlib] “Half Manne Half Cocaine”

Por cima do que poderia ser um pedaço retirado de uma banda sonora para um clássico giallo qualquer assinada pelos Goblin, Freddie mostra-nos os dois “hemisférios” que o servem em “Half Manne Half Cocaine”. Na primeira parte discorre sobre guito, botes vermelhos com assentos de cabedal e sexo, claro. A toada ditada pelos hi-hats é trap, mas a vida na trap house é o que se descreve na segunda metade do tema, a metade cocaína, em que uma base bem mais sombria ilustra a vida de tráfico nos becos mal iluminados da cidade. Isto não é para meninos. É mesmo para homens de barba rija que entendem que a vida não é fácil e que não existe conquista sem luta.

– Rui Miguel Abreu

ReB Team

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