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#ReBPlaylist: Janeiro 2018

[FOTO] Direitos Reservados

Verão em Novembro no mês de Janeiro? Agradeçam a confusão a SiR, o primeiro membro da TDE a lançar um disco em 2018. A lista deste mês dá para todos os gostos: da boa vibe de Dengaz e Carla Prata à bonança depois da tempestade de Kali Uchis, Tyler, The Creator e Bootsy Collins; das horas assustadoras de Drake ao entorpecimento dos sentidos com Ronny J e Lil Pump ou MakalisterReis do Nada, Jovem Esco e Luccas Carlos. Até existe espaço para marcar diferença com Khruangbin, banda norte-americana com um groove muito próprio.

 


[SiR] “Summer in November”

Em tempos frios, haja música que nos aqueça. Felizmente, é esse o efeito de “Summer in November”, faixa que encerra o último álbum de SiR. November, lançado este mês, coloca-nos algures no espaço, numa viagem com triliões de quilómetros (rumo ao desconhecido ou um regresso a casa?), onde SiR é acompanhado por “K”, a voz feminina que controla a nave e interage com o protagonista. As conversas servem para situar-nos: este é um álbum que fala de amor, do início ao fim.

Na parte final da sua jornada, “K” acciona o “modo sono” (mais alguém lembrou-se das cápsulas de hipersono do Alien?), transportando os ouvintes para o inconsciente do SiR. É aí que surge “Summer in November”, uma história de amor tão memorável que só pode ser resgatada em sonhos. A música avança em modo cruzeiro até o refrão, culminando num falsete onde o californiano não poupa em emoção.

No videoclipe, esta narrativa é explorada de uma forma original, através de um ecrã dividido: de um lado, o casal explora um bosque repleto de neve; do outro, numa cena mais intimista, dividem uma cama.

– Hugo Jorge


[Bruno Mars / Dengaz / Kali Uchis / Mynda’Guevara] “Finesse (Remix)” feat. Cardi B / “Só Uma Vibe” feat. Carla Prata / “After The Storm” feat. Tyler, The Creator, Bootsy Collins / “Nha Mundo”

Mulheres. Mulheres. Mulheres. Ainda estamos no primeiro mês do ano e 2018 já promete em relação ao poderio feminino na música. Será caso para citar Miss Lauryn Hill: “Guys you know you’d better watch out”? Não contei todas as novas faixas de Janeiro com participações femininas incontornáveis, mas destaco quatro. Duas de artistas masculinos que viram o valor da sua música crescer exponencialmente com a participação de duas mulheres: “Finesse” de Bruno Mars com Cardi B e “Só uma Vibe” de Dengaz com Carla Prata. As outras são “Nha Mundo” da portuguesa Mynda Guevara e “After the Storm” de Kali Uchis com Tyler, The Creator e Bootsy Collins ao lado.

Comecemos por “Finesse”, uma das músicas do álbum 24k Magic que deu a Bruno Mars o Grammy de disco do ano. Lançada em Dezembro de 2016 e a arrancar com aquele “oooh” já bem conhecido do artista havaiano, o áudio original e sem videoclipe tem 14 milhões de visualizações no YouTube. A 3 de Janeiro, mais de um ano depois, surgiu Cardi B a dar outro colorido ao vídeo e outro flow ao r&b de Mars. O videoclipe já tem mais de 150 milhões de plays — sim, num mês. Claro que o crescente sucesso de Cardi B contribui em muito para estes números, mas esse não existe sem o skill e a rapper tem vindo a demonstrá-lo. Aliás, ela mesma o diz em “Finesse”: “I changed the game”. As rimas falam do seu crescimento no Bronx, da sua passagem pelo mundo da dança antes de cantar e ainda faz referência aos seus “money moves” de “Bodak Yellow” ao dizer “Bruno sang to me while I do my money dance like ayy”. Um remix em que é impossível não reparar no poder da língua afiada de Belcalis Almanzar.

Em português, a história escreve-se mais ou menos da mesma forma, com a diferença de que não conhecemos “Só uma vibe” sem Carla Prata. Apenas podemos imaginar e a verdade é que começo a gostar primeiro da música pelo bom beat, produzido por Twins. Até que aos 44 segundos, quando entra Carla Prata no refrão e estamos só a ouvir o vídeo numa qualquer outra tab do browser somos obrigados a ir ver: primeiro porque a voz ainda nos (me) é desconhecida e depois porque a voz complemente o instrumental que já me abanava. A voz e a forma de se mesclar com a música faz lembrar Syd, a jovem artista norte-americana que lançou Fin em 2017. A música de Dengaz e Carla fala sobre uma “one night stand” e vai, com certeza, passar repetidamente em muitas rádios: a voz e o nome, Carla Prata, são algo a reter. Ou é só uma vibe?

Em nome próprio, “Nha Mundo” é a música com que Mynda’Guevara inaugura Mudjer na rap, o seu primeiro EP. Com um beat que anuncia uma cadência forte de rimas, Mynda não desilude. A letra fala sobre o bairro onde cresceu, a Cova da Moura, e os desafios que observa à sua volta, no seu mundo. O refrão fica na memória com o trava línguas “tipo surdo, cego e mudo” e relembra-nos de que a voz contralto de Mynda tem extensão e afinação para ainda mais do que dizer rimas. Este primeiro lançamento recorda também a vontade de Carminda Pinho, que escolheu propositadamente Mynda’Guevara como nome de guerra, de mudar o panorama do rap no feminino.

Com apenas 23 anos e há já quatro a lançar trabalhos, Kali Uchis começa a chamar à atenção com a sua voz doce e de toque latino. A colombiana prepara-se para lançar Fool’s Paradise na primavera, o seu primeiro álbum, e entretanto já mostrou dois singles que me deixaram com vontade de ouvir mais: “Tyrant”, com Jorja Smith, e a 12 de Janeiro — com videoclipe desde dia 25 — “After the Storm”. Foquemo-nos nesta última. Com participação de Tyler, The Creator e de Bootsy Collins. É a lenda do funk que abre a música com o seu “funky flavour”, citando o videoclipe, e nos começa por embalar e fazer rir quando diz “Whatever goes around/ Eventually comes back to you/ So you gotta be careful, baby/ And look both ways/ Before you cross my mind”. Tyler traz os graves. “The hottest flower boy that popped up on the scene”, rima ele numa espécie de diálogo com Uchis que canta sobre amor e conquistas.“‘Cause after the storm’s | When the flowers bloom”, diz no refrão que se fica a trautear mentalmente. O beat é uma produção de BADBADNOTGOOD com inspiração no funk dos anos 70, marcante pelas linhas de baixo e uma bateria cadenciada — faz lembrar algumas músicas de Flower Boy, de Tyler, The Creator, ou outros álbuns como o Awaken, My Love! de Childish Gambino. Suave, quente, sexy, sonhadora: é assim “After the Storm”.

– Alexandra Oliveira Matos


[Drake] Scary Hours

Qual a razão deste título, Scary Hours? Haverá alguma coisa no mundo que assuste Drake? Claro que sim, apesar de também ser conhecido como 6God, Aubrey Graham é apenas um homem, um homem que acredita que o Todo Poderoso tem um plano para si. E não é que deve ter mesmo?

Repare-se: Drake é o tipo que conseguiu um enorme sucesso com If You’re Reading This It’s Too Late, trabalho que ele mesmo descartou como uma simples mixtape; o tipo que começou por oferecer um dos maiores hits planetários da década, “Hotline Bling”, como um tema solto no SoundCloud; o tipo que apresentou More Life, que bateu incríveis recordes, como uma playlist que nem sequer disponibilizou como um produto físico atirando dessa forma alguns milhões pela janela da sua penthouse fora…

Agora vem dar as boas vindas a 2018 com Scary Hours, registo de apenas dois temas que soa como uma rajada e cuja data de lançamento – em vésperas dos Grammys — é demasiado relevante para ser casual. Nada do que Drizzy faz é feito por acaso, essa é uma lição que já todos devemos ter aprendido.

Com “God’s Plan”, o primeiro destes dois temas, Drake volta a esmagar recordes e estreia-se, graças a números assombrosos de streaming, no topo da Hot 100 da Billboard. E faz sentido que assim seja: este é um tema de enorme força, em que o rapper canadiano sacode quem lhe quer mal sublinhando a fé que o mantém no caminho certo sobre um beat de 40, Yung Exclusive, Boi-1da e Cardo. Uma dream team equipada com Macbooks artilhados para servir um MC que repesenta a ponta da lança de uma sólida família. Depois ainda há “Diplomatic Immunity”, com beat de Nick Bronkers e Boi-1da que transpira blaxplitation e serve as palavras por vezes paranóicas de um rapper que admite que encontra silêncio no meio do ruído quando rappa que ouve heavy metal para fazer meditação.

Drake é bem capaz de ser o maior rapper à face da Terra neste momento. E não, eu não disse que é o melhor, apenas que é muito provavelmente o que chega mais longe e mais alto. Só não se impressiona quem estiver morto. Ou surdo. O que vai dar ao mesmo…

– Rui Miguel Abreu


[Khruangbin] “Cómo Me Quieres”

Já tentei dizer de uma vez só o nome dos Khruangbin, banda de Houston, nos EUA, mas ainda não consegui. Vou tentar outra vez: “Khru”. “Khru-an-bing”. Bom, desisto, por agora. Apanhei-os numa viagem de carro nocturna pela A17, já depois de Leiria, e começou por soar-me a algo vindo das zonas do império Otomano, principalmente pelas guitarras. O baixo parecia andar escondido dentro de um caixote — como a malta dos 60s e 70s. Quando levantei o volume e os ouvi nos auscultadores percebi que se tratava do formato clássico de guitarra, bateria e baixo a suar dos poros um groove gorduroso e meticuloso. Aos aparentes recortes meio arabescos juntavam-se os sons do Deserto de Sonora e Mojave, com uns binóculos na soul e funk de Nova Orleães.

Os Khruangbin — ainda não foi desta que consegui sem “copy paste” — soam-me a tudo isso. Está tudo isto no disco Con Todo El Mundo, o segundo da discografia do trio. Podiam perfeitamente ser os BADBADNOTGOOD classificados como banda de “world music”. “Cómo Me Quieres” é o tema que abre o disco, termina com um barulho de uma mota que, imagino eu, andava na fronteira a fugir à polícia. O início de uma viagem bem porreira.

– Bruno Martins


[Ronny J] “Trixxx” feat. Lil Pump

Acredito que já estejam a torcer o nariz com o nome de Lil Pump, mas não fujam. Numa faixa que poderia ser um Lado B de Travis Scott, Ronny J, nome incontornável nesta nova geração de produtores que metem os graves e sub-graves na frente da parede sónica, volta a colaborar com Pump — os dois trabalharem em temas como “Flex Like Ouu” ou “Molly” — para criar um banger altamente nocivo: o sample exótico, as entregas contrastantes e o refrão viciante são os elementos da fórmula. Prontos para a anestesia geral?

– Alexandre Ribeiro


[Makalister] “Bobby James” feat. Reis do Nada, Jovem Esco e Luccas Carlos

Nos primeiros dias do ano, o jornal O Globo do Rio de Janeiro lançava uma página dedicada ao crescimento do hip hop nas tendências globais, Brasil incluído, e apontava alguns nomes a ter em consideração para os tempos que estão por vir. Um deles, relativamente fora dos holofotes do circuito em terras de Vera Cruz, é Makalister. Em 2016, a mixtape Laura Muller Mixtape já indiciava que algo estava a acontecer lá para os lados de Florianópolis. Não era a primeira do MC. Porquê o silêncio? Makalister é dono de uma complexidade lírica que encontramos em poucos e de uma visão de mundo bastante cinematográfica, comparável, por ex, com a escola que nos foi apresentada pelo cearense Don L. Em 2017, passeou-se pelos cyphers da Pinneaple Supply com elegante sobriedade. Aqui não há bangers mas antes uma sólida e intelectualizada escuta.

Dez dias depois da página inteira n’O Globo, Makalister lançava Mal dos Trópikos, Construindo a Ponte da Prata Roubada e foi desse tão esperado primeiro álbum que saiu “Bobby James”, a faixa-escolha de Janeiro. Uma balada em que o rap encontra o r&b com participação de Luccas Carlos, Reis do Nada e Jovem Esco, começa com um refrão regado a languidez e auto-tune — para ouvir com um copo de vinho na mão e sapatos jogados para o canto da sala – e que se repete por todos os participantes, antes da suas entradas individuais. Cinéfilo inveterado, as referências ao cinema são constantes e não é diferente em “Bobby James”, em que a ode aos 90s acontece. Esperem notícias de Makalister muito em breve. E já que estão com a mão na massa – ou o ouvido na música – aproveitem para deixar rolar o play em Mal dos Trópikos. Pode ser que encontrem a cura.

– Núria R. Pinto


[Young Fathers] “In My View”

Os escoceses Young Fathers mantêm-nos acondicionados ao seu mundo críptico e simbólico. Uma pop aventureira, com certeza, a que poucos recorrem por estes dias — mas, felizmente, o melhor da pop também percorre Portugal e ouve-se mais a norte no som desafiante e caseiro dos Ermo –, caiu nas graças da cave-estúdio em que o trio tem estruturado desde sempre a sua música. “In My View”, single do álbum Cocoa Sugar a ser editado em Março, explora a manipulação das emoções acompanhado de vídeo com um cuidado fotográfico deslumbrante. Percorre-se a distância entre a perturbadora diferença do que aparentamos ser e o que realmente somos em três minutos de rufos crus e o rombo analógico da electrónica. A simplicidade da fórmula repete-se nas vozes redentoras dum grupo cada vez mais focado e confiante no seu intrínseco valor criativo.

– Rui Correia

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