#ReBPlaylist: Fevereiro 2016

[FOTO] Direitos Reservados

Como é hábito, partilhamos convosco aquilo que de mais recente tem passado pelos ouvidos da nossa equipa. Este mês, andámos a passear entre Kingston e Manchester, com Samrai and Platt; fomos a Fornelo, Vila do Conde, ver como paravam as modas dos Sensible Soccers; arrancámos em direcção a Toronto para tentar decifrar as paranóias de Jazz Cartier; e, não podia faltar, terminar a viagem em Los Angeles, com uma das melhores faixas de The Life of Pablo.

[SAMRAI AND PLATT] “Tease Me” [ft. Kemikal]

Coisas boas acontecem quando dois talentos se encontram para criar algo novo, diferente. Na verdade, Balraj Samrai and Ruben Platt já andam há anos a explorar as potencialidades do legado dourado jamaicano (via dancehall e roots) aplicado às dinâmicas do grime e afiliados. Ao escutar “Tease Me” ressalta desde logo a combinação perfeita destes e de outros elementos em direcção a uma linguagem realmente livre. Ao exercício instrumental esparso e borbulhante juntam-se os assaltos vocais em modo toasting, numa fascinante cadência que cativa a cada segundo. É difícil não entrar imediatamente nesta bolha; mais difícil ainda não a continuar a escutar durante dias.

– Nuno Afonso


 

[SENSIBLE SOCCERS] “Shampom”

Mais uma obra-prima com o carimbo da sala de ensaio de Fornelo. Os Sensible Soccers têm novo disco, Villa Soledade, editado na semana passada, e esta talvez seja a faixa que faz a ponte entre aquilo que são hoje com aquilo que fizeram em 2014, no álbum 8: simplicidade, batidas suaves que crescem em camadas que têm tudo para serem desconexas, mas que vão sendo coladas, unidas e apertadas por um baixo-metrónomo, guitarras dedilhadas de forma delicodoce e sintetizadores e que levam a faixa até ao êxtase controlado. Não é aquela explosão completa de “toda a gente de braços no ar!”, mas antes um sorriso cúmplice, um fechar de olhos feliz, um “passou-bem, meu caro?”antes do retorno à contemplação da electrónica bucólica do trio formado por Filipe Azevedo, Hugo Alfredo Gomes e Manuel Justo.

– Bruno Martins


 

[Jazz Cartier] “Tales”

O canadiano Jazz Cartier lançou um novo álbum no inicio de Fevereiro – Hotel Paranoia; Em “After The Club” ouvimo-lo dizer “I’m still the king of the palace, 2015 was practise”, uma afirmação que vem ao encontro daquilo que podemos encontrar dele neste novo projecto. Mas o tema que mais me cativou foi “Tales”, um dos muitos bangers de qualidade presentes em Hotel Paranoia. É a demonstração perfeita da agressividade presente no rap de Jazz Cartier a combinar uma vez mais com as produções de Michael Lantz. A paranóia é a temática mais recorrente, traduzia para o hook e para os versos com uma letra precisa, como se de um cirurgião se tratasse.

Outro dos pontos fortes é também o beat, com Lantz a disparar kicks alucinantes e a brilhar com o break final para fechar o tema.

Um álbum para ter em conta neste primeiro trimestre.

– Gonçalo Oliveira


 

[Kanye West feat. Rihanna] “Famous”

“Man, I can understand how it might be kinda hard to love a guy like Kanye”, mas, ao mesmo tempo, há que perguntar, “but how can we not?”. Há uns dias tive uma pequena conversa no twitter com o Joseph Stannard da Wire. Escrevia ele que a Rihanna nunca poderá soar igual a Nina Simone. Argumentei que ela em “Famous”, uma das melhores faixas de The Life of Pablo, consegue a proeza de se manter fiel ao fraseado original da grande Nina Simone e, ao mesmo tempo, insuflar naquele verso marcas suficientes da sua própria personalidade para que se perceba que não está simplesmente a duplicar o sample da mulher de “Mississippi Goddam”. Este tema é, aliás, um intrincado labirinto e um símbolo perfeito da grandeza de Pablo: há a “charge” de gosto discutível a Taylor Swift na letra, mas também linhas brilhantes de auto-ironia como “I just copped a jet to fly over personal debt” e… pouco mais, em termos líricos. E, ainda assim, esta canção aparentemente inacabada, graças à escolha de samples, diz muito: Mr West “waking up” e a dizer ao mundo que a fama não é apenas um privilégio, é também um fardo. E depois o instrumental: produção de Kanye e Havoc (aqueles drums!) com colaboração de HudMo e Mike Dean – um orgão que lhe dá um ar solene, aquele segundo verso de Rihanna que arrasa e depois é como se Yeezy dissesse “let the instrumental roll” e entra aquele incrível sample de “Bam Bam” de Sister Nancy.

O original é um dos grandes monumentos que a Jamaica legou ao mundo, claro, mas aqui HudMo ou Mike Dean (quem terá ganho o crédito pela manipulação deste sample?) alteram muito subtilmente a melodia original e transformam isto em qualquer outra coisa de absolutamente maravilhoso. Um banho num imenso oceano de calda de açúcar de que parece impossível sair… E no final, aquele remate: o sample original que Rihanna duplicou, metendo miss Nina Simone como a cereja em cima do bolo, oferecendo um contraste e o brilho correcto à moça de Anti, porque é na comparação com o molde original que a sua brilhante prestação se evidencia. Tanta coisa em tão pouco tempo. É esse o génio de Kanye: a sua aparentemente infinita capacidade de fazer forças contraditórias funcionarem e parecerem que afinal sempre estiveram ali a puxar para o mesmo lado, conseguindo que mesmo temas inacabados como este tenham a sua beleza, um pouco como as estátuas gregas que parecem já ter nascido assim mesmo, decapitadas e sem braços. Play it again…

– Rui Miguel Abreu

ReB Team

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