#ReBPlaylist: Agosto 2015

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Mês de Agosto, altura do ano de carregar (ainda mais) os dispositivos de áudio, sejam MP3s, walkmans ou telemóveis, para aquelas longas viagens de férias. A equipa do Rimas e Batidas encheu-se de sonoridades hip hop, mas também de alguma melosidade R&B para aquelas noites de lua cheia e amores de Verão. A altura do ano em que o Hemisfério Norte se entrega ao ócio já lá vai. Aqui fica o que escutámos nos tempos mortos ou nas festas com a malta numa qualquer vivenda ou tenda algures entre o Minho e o Algarve.

 


 

[JOSEPH SCATURRO] “Take It Slow”
(Trigger, Hit+Run)

Sobre Joseph Scaturro pouco se sabe além do que tem sido revelado com o seu mini-álbum de estreia Trigger: um tipo do Iowa entretanto residente em Los Angeles dedica oito faixas aos amores e desamores, ao mesmo tempo que procura renovar a soul com a franqueza suficiente para aceitar que John Legend e Aloe Blacc já o tentaram antes. O que precede Joseph Scaturro contudo em nada o acanha de fazer música fantástica situada algures na árvore da soul capaz de incendiar lençóis. Trigger, apesar de se sentir confortável nesse papel, atreve-se a alterná-lo com outros, como acontece na faixa “Take it Slow” (John Legend de novo à espreita): durante pouco mais de um minuto e meio, N8NOFACE mete a rolar um beat com qualquer coisa de Geoff Barrow (obcecado por Public Enemy quando fundou os Portishead), e isso chega para que Joseph Scaturro acelere a voz e nos deixe com uma preciosa amostra do rapper que anda por ali escondido algures. É um milagre efémero, mas muito engradece um dos mais entusiasmantes discos deste ano.

 


 

[FIRST DIVISION] “This Iz Tha Time (Prod. DJ Premier)”
(This Iz Tha Time EP, Soulspazm)

Que Premier atingiu já o estatuto de lenda dentro do hip hop não é novidade para ninguém, não só pelo trabalho a meias com Guru nos Gang Starr, mas, sobretudo, pela criação de um verdadeiro hip hop “de autor”, no sentido em que qualquer beat que saia das suas mãos tem sempre um selo único e inconfundível. Se é certo que o boom bap já existia antes de Preemo ter os holofotes concentrados em si, não menos é que foi com ele e com Pete Rock que a ideia de uma “escola” nova-iorquina de produção se consolidou definitivamente. “É um beat do Preemo, de certeza” – quantas vezes já não ouvimos alguém dizer? Por isso é que, sempre que uma nova faixa é anunciada como tendo a impressão digital de Premier, o ouvinte, mesmo que não conheça ou mesmo aprecie o grupo que lha encomendou, vai ouvir sempre, ainda que já saiba, à partida, mais ou menos o que vai encontrar. Mas aí é que entra o génio, pois cada novo trabalho tem sempre um sabor especial, o mesmo de “This Iz Tha Time”, o mesmo que nos faz pensar para nós próprios com um sorriso: “Este Premier, realmente…”.

 


 

[L’ORANGE & KOOL KEITH FEAT. OPEN MIKE EAGLE] “Meanwhile, Back Home”
(Time? Astonishing!, Mello Music Group)

Quinta faixa de Time? Astonishing!, de L’Orange e Kool Keith, trás à tona ritmo, flow e disputas pelo microfone que só encontramos na gene mais pura do hip hop. Excertos da rádio novecentista dão mote e contexto atmosfério para Open Mike Eagle e Kool Keith entrarem em picardias para ver quem acompanha melhor o beat. Ao instrumental, sobram palavras de louvor para o toque que só a L’Orange pertence: uma centrifugadora rítmica de piano e bass tão potente que por vezes nos faz esquecer que alguém está realmente a cantar.

 


 

 

[L-ALI FEAT. MIKE EL NITE] “Banghello (O Gesto) (Prod. Razat)”

Newcomer assume lutar por um lugar no pódio com o single de estreia do álbum O Conto, a ser editado em Setembro pelo Rimas e Batidas. L-ALI continua a explorar os caminhos diferentes que o hip jop tem para nos oferecer com rimas afiadas e um flow sujo que assenta como uma luva no bass disparado por Razat.

 


 

 

[SD] “Step by Step”

Em três anos, o jovem rapper SD passou de fenómeno promissor a um valor seguro no cenário drill. Uma passagem de estatuto em muito reforçada pelo sucesso das mixtapes Life Of A Savage, mas especialmente pelo álbum Truly Blesses. Um dos seus maiores trunfos talvez continue a ser a busca de novas expressões, evitando lugares comuns ou expectativas. Fá-lo de modo natural, sem o peso que essa responsabilidade possa acarretar. Agora surge este novo tema, uma vez mais com os beats de 808 Mafia e a demonstrar porque motivo se tem vindo a destacar. “Step by Step” vale pois enquanto exercício de estética, mas igualmente pela ousadia de uma narrativa meio alucinatória, meio desorientada, como que um frame extraído de uma canção ou de uma história. O ambiente negro e intenso é território fértil para a paranóia de SD e mesmo quando a escuta termina, as palavras e os ritmos parecem alojar-se nos confins da nossa mente num estranho efeito continuado. Algo perigosamente bom, diga-se.

 


 

[NOELLA NIX] “2AM (Confessions of the Lonely Hour)”

Com o SOA do Popjustice, “2AM (Confessions of the Lonely Hour)” é uma promissora canção de estreia desta produtora/cantora australiana. Num estado de insónia, “2AM” é melhor do que “3:16 AM” da Jhéne Aiko, mas perde para “4AM” da Melanie Fiona, flutuando no rasto de vapor inebriante deixado pela clássica “Drunk” da Tweet, revisto à sombra do minimalismo dos bedroom producers pálidos a imaginar o R&B. Mas sem se deixar levar pelo sonambulismo destes como via para uma apatia auto-comiserativa, e com a vantagem de ser alguém que sabe verdadeiramente cantar. Para já, e sem entrar em euforias desmedidas, “2 AM” serve como revelação do potencial de Noella Nix. Principalmente para alguém que começou a produzir há apenas sete meses.

 


 

 

[THE WEEKND] “Tell Your Friends”
(Beauty Beyond Madness, XO/Republic)

Para quem pensava que o projecto do canadiano Abel Tesfaye iria progressivamente cair no esquecimento após o frustrante lançamento de Kiss Land, 2015 está a ser uma surpresa dos diabos. Beauty Behind The Madness não apenas recupera o fulgor da sua trilogia de mixtapes, como inclui as canções mais orelhudas da sua carreira (já há mesmo quem compare, com algum exagero, o disco com os clássicos da fase áurea de Michael Jackson). Em todo o caso, “Tell Your Friends” é uma absoluta delícia: não apenas pela sua sonoridade R&B vintage cuidadosamente polida pela mão mágica de Kanye West, mas sobretudo pela brutal lucidez das suas palavras: “I’m the nigga with the hair singing about popping pills, fucking bitches, living life so trill / Last year, I did all the politicing / This year, I’m gonna focus on the vision […] Don’t believe the rumours, bitch: I’m still a user”. Por falar em rumores: parece que o disco do Frank Ocean, afinal, só sai em 2016…

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