Rapensamentos opostos: mais palavras para a fogueira

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Na última sexta-feira, o antigo colaborador do Rimas e Batidas Francisco Noronha publicou no suplemento Ípsilon do jornal Público um texto com o título Rapalavrar: para resgatar a palavra no hip-hop em 2018. Trata-se de um artigo que procura puxar-nos para dentro de um importante debate sobre o estado presente desta forma de arte, sobre as implicações de algumas transformações estéticas, poéticas, morais até. E se há coisa de que não procuramos desviar-nos é de um bom debate.

O artigo de Francisco Noronha justifica-se pela abordagem a três lançamentos mais ou menos recentes e todos já merecedores de crítica no Rimas e Batidas. A saber: Mona Lisa de Apollo Brown e Joel Ortiz, PRhyme 2 de PRhyme (ou seja Royce da 5’9” e DJ Premier) e A Breukelen Story de Masta Ace & Marco Polo. Mas a ancorar a sua visão crítica desses três álbuns estão várias considerações sobre o mais amplo panorama do hip hop no presente. E é aí que o debate se impõe.

O problema do texto começa logo no título: sugerir que a “palavra” precisa de ser salva num ano que nos deu novos trabalhos de gente como Jean Grae, Westside Gunn, Roc Marciano, Homeboy Sandman, Black Milk, Jay-Z, J. Cole, Pusha T, Earl Sweatshirt, Denzel Curry, Black Thought, Eminem, Curren$y, Freddie Gibbs, Kendrick Lamar ou, sei lá, Gaika parece uma ideia demasiado forçada, como se alguém excessivamente voluntarioso se estivesse a atirar à água para salvar quem vai a nadar despreocupadamente…

O texto contém depois uma série de erros ou imprecisões que atentam contra o tom de superioridade quase sempre adoptado. Quando se aponta o dedo, convém ter o rigor como justificação.

  1. “Word Up” não foi “uma expressão que um dia o hip hop deu ao mundo”: o termo deu título a um tremendo hit dos funksters Cameo em 1985, um bom par de anos antes de ser assumido como nome da revista que Biggie Smalls mencionava em “Juicy”, mas a sua origem é anterior e é pelos eruditos apontada como tendo nascido da expressão “word is bond” usada pelos membros da Five Percent Nation desde os anos 60.
  1. O hip hop surgiu, de facto, “em torno dos bidões ardentes das esquinas de Nova Iorque”, mas não, como refere o autor do texto, da Nova Iorque das “mean streets” retratadas por “Scorsese, Schrader ou Abel Ferrara”, que usaram muito mais a Little Italy da Lower Manhattan como cenário do que exactamente o South Bronx. Talvez uma referência menos “erudita” a The Warriors de Walter Hill fizesse muito mais sentido já que vê a sua acção arrancar no Van Cortland Park ou até ao documentário 80 Blocks From Tiffany’s (1979) de Gary Weis que, precisamente, descreve o hostil ambiente do bairro que viu nascer esta cultura quando ainda era dominado por gangues como os Savage Skulls ou os Savage Nomads.
  1. Os soundsystems usados nas festas que marcaram o arranque desta cultura não eram jamaicanos, mesmo sendo a Jamaica o país de origem de Kool Herc, um dos primeiros heróis de Sedgwick Avenue, o exacto palco do big bang primordial desta cultura. Na Jamaica os soundsystems eram imponentes torres de colunas fabricadas artesanalmente, com suficientes caixas de graves para poderem acomodar os grooves cozinhados no Studio One e para resultarem em amplas festas ao ar livre. Na Nova Iorque do arranque dos anos 70, tal como várias vezes relatado por Afrika Bambaataa, as festas aconteciam nas caves comunais dos “projects” ou, se fosse Verão, nos courts de basquete do Bronx, mas sempre, como tão bem documentado por fotógrafos como Charlie Ahearn ou Martha Cooper, com componentes domésticos de hi-fi, trazidos dos apartamentos vizinhos e ligados directamente à rede pública de electricidade depois de montados em cima de periclitantes “crates” de plástico.
  1. Fila, Puma ou Adidas foram as primeiras marcas celebradas no hip hop. As Nike Air Force One, que deram título a uma faixa de Nelly de 2002, só se tornaram artefacto de culto já os anos 90 iam muito lançados. Ah, e nas ruas eram conhecidas por “Uptowns” e não “downtowns”…
  1. “Bonita Applebum” é uma fantástica canção, de facto, mas descrever como “inocente” e “despudoradamente romântico” um tema cuja letra glorifica uma miúda de “rabinho redondo” que, como confessa Q-Tip, o protagonista não se importaria de beijar, mesmo se a maior parte dos seus “brothers” nunca fossem capaz de o fazer, é capaz de ser um pequeno equívoco.

Mas, de facto, e aí o autor do texto tem toda a razão, a palavra tem ocupado desde sempre uma posição central no hip hop, mesmo no primeiro tema do género lançado em 1979, “Rapper’s Delight”, quando os Sugar Hill Gang, num arremedo poético tremendo, disseram ao mundo:

“I said a hip hop the hippie the hippie
To the hip hip hop and you don’t stop
The rock it to the bang bang boogie
Say up jump the boogie to the rhythm of the boogie, the beat”

Sobre o restante texto de Francisco Noronha, pouco mais há a dizer. Parece insistir nesta noção errada de que as manifestações mais comerciais e poeticamente mais ocas do hip hop são um exclusivo do presente como se no passado não tivesse aparecido no topo das tabelas gente como MC Hammer ou Vanilla Ice, ou, um pouco mais tarde, como Nelly ou Mase ou Puff Daddy, quase fazendo passar a noção de que até, sei lá, 2006, todos os rappers eram graduados “summa cum laude” de Harvard. Não eram. O lixo que hoje abunda no trap já antes poluía, e de que maneira, o boom bap.

Correndo o risco de estar a enfiar um gorro que não foi desenhado para mim (e eu que, sobretudo nesta altura do ano, não consigo passar sem um…), imagino que os “considerandos” de Francisco Noronha sobre a “infantilidade” da oposição do “triunfo do hip hop” à suposta morte do rock me sejam dirigidos. Em boa verdade, nunca declarei a morte do rock: comprei, como boa parte da galáxia, o disco dos Idles, gosto do nosso Tigerman, dos nossos Linda Martini, do nosso Samuel Úria, dos nossos Paus e Dirty Coal Train e vou comprando discos como se não houvesse amanhã, dos Wire aos Beatles. Só odeio polvo e não suporto cogumelos (ninguém é perfeito, eu sei…), mas rock nunca ponho na borda do prato (tirando os Smashing Pumpkins, vá lá…). O óbito que eu, médico legista com 30 anos de experiência, declarei foi o do interesse no rock por parte da geração a que semanalmente dou aulas (não estou a falar em sentido figurado, um gajo tem mesmo que ganhar a vida…). Já o dito cujo, esse continuará vivo por muito tempo, enquanto houver um amplificador para ligar e uma garagem vaga num subúrbio qualquer, não me parece que o género corra riscos de vida. Mesmo que ninguém o ouça.

Adiante: “Sex, Drugs & Rock and Roll”, ao contrário do que se declara no texto em causa do Público, não é um lema “ancestral” do rock, até porque só foi proclamado em 1977 por Ian Dury, quando Elvis já comia sanduíches gigantes do lado de lá do túnel que conduz ao paraíso (ou, caso dependesse de Chuck D, do inferno, o que para o caso vai dar ao mesmo).

E parece-me que é isto. Posso garantir que não sou tipo de sentir saudades, mas a sentir qualquer coisa parecida com isso hão-de, certamente, ser saudades de algo que vivi de facto. Ninguém me há-de apanhar a escrever a frase “ah, nos anos 60 é que era…” Pelo menos sóbrio. O hip hop, tem razão Noronha nesse ponto, nunca foi uma moeda de duas faces, antes um prisma de muitas faces, que reflecte muitas imagens, que reparte a luz em espectros cromáticos diversos. Os dogmas são bons para a Igreja e eu cá sou mais pecador do que santo e até ouvi dizer que é no inferno que acontecem as melhores festas… Foi por isso que as históricas block parties que nos trouxeram até aqui começaram no Bronx e não nas Seychelles…

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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