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Fotografia: maat – Museu de arte, arquitetura e tecnologia

Pela valorização da língua cabo-verdiana.

Rap crioulo em discussão no MAAT. “Que português é este?”

Fotografia: maat – Museu de arte, arquitetura e tecnologia

Tinha acabado de enviar o Renascimento do Landim a um amigo brasileiro, rapper com duas décadas de estrada. Homem negro, periférico. “Que português é este?” Com a língua nas rimas e a herança esclavagista na bagagem, o desconhecimento tem tanto de compreensível como de inquietante. Continua a ter reflexo no presente. O crioulo é uma herança, também, do português. O crioulo é uma herança do colonialismo mas é aquela que ninguém quer herdar. Continuamos a ter que mendigar a nossa existência. À espera que valorizem a nossa cultura”. As palavras de Ghoya encaixam-se que nem uma luva na explicação que tem o racismo e o apagamento histórico e cultural como variáveis insubstituíveis. Não precisamos viajar tão longe, no entanto, embora não deixe de ser paradoxal e um dos motivos pelos quais a falta de representatividade preta e de narrativa histórica continua a ser um dos temas quentes da virada do século. Se a oito mil quilómetros de distância o desconhecimento é uma óbvia realidade para a maioria, um faitdivers cultural, na “nossa casa” não fazemos melhor figura, principalmente se formos intelectualmente honestos e reconhecermos o nosso papel enquanto gatekeepers. Alguém tem que estar a controlar a maçaneta da porta”, ouviu-se. Bem, esse alguém somos nós.  

A crescente popularização do hip hop abriu espaço para que o rap crioulo se sentasse à mesa e pudesse reclamar para si mesmo uma fatia do bolo. No domingo passado, Primero G, Ghoya, Né Jah e Mynda’Guevara sentaram-se à conversa no MAAT, em Lisboa, no mesmo dia em que Cabo Verde comemorou os seus 45 anos enquanto nação independente. Sob o mote “Rap Crioulo e a realidades dos bairros da Grande Lisboa e Margem Sul”, o bairro entrou na casa da alta cultura, arquitectonicamente majestosa e contemporânea, paredes meias com um não menos paradoxal Padrão dos Descobrimentos. A história pede novos símbolos, novas trajectórias e novos protagonistas. É preciso aumentar um pouco mais o volume das vozes. 

“Comecei a cantar em crioulo porque tinha esta necessidade de ser mais genuíno. De me expressar melhor”, confessa Primero G, depois de em 1993 se ter estreado, ainda, adolescente, com uma faixa em português. Para o rapper da Pedreira dos Húngaros não fazia sentido que existisse uma separação entre aquela que era a sua realidade familiar e o mundo “lá fora”. “Não queria essa barreira do bairro (…) Porque é que estamos a cantar em português se no bairro a gente fala crioulo? Parecia que tínhamos que ter outro tipo de comportamento e não achávamos isso correcto”. Na época, a língua portuguesa dominava as produções que começavam a ter relativo sucesso e nomes como Boss AC, Black Company ou Zona Dread faziam uso dessa prerrogativa bafejada pelo privilégio. O conhecimento e a abertura, como sempre, foram fundamentais para a evolução. Se o Kronic não aparecesse nós estávamos satisfeitos com o que tínhamos”. Em 1997, o DJ e produtor natural de Paris, filho de pais portugueses e com incursões pela cena norte-americana, muda-se para Portugal e, na mala, traz para os TWA novas estratégias e a importância de se concretizar um álbum. “Ao início só expressávamos o que sentíamos”. Tal como para Primero G, também para o “vizinho” Ghoya, os primeiros trabalhos eram inicialmente um exercício de catarse e revolta. Comecei a escrever o que sentia e foi um expulsar de tudo o que ia reprimindo, com mais ou menos controlo”. Depois de vários anos no sistema prisional, o rapper do antigo Bairro das Fontainhas chega com um discurso mais politizado. “Já não era só estar chateado. Eu percebi que o meu ‘chateamento’ também podia ser o deles (…) Para a maioria das pessoas aqui na sala será muito mais fácil perceber o crioulo que vou falar do que ir para a escola aprender o inglês. Não que isso não seja legítimo mas é um facto. E o crioulo sempre viveu nessa linha do marginalismo, como se não fizesse qualquer sentido (…) Hoje essa aceitação é algo muito bom, está em voga. É muito bom e prazeroso depois de tanto gritarmos. Mas surge sempre a questão de que não pode ser só uma moda nem algo que veio para substituir nada. O crioulo só existe porque o português existiu (…) Essa falta de percepção magoava-me muito.” 

Se do lado do público se começa a sentir uma maior abertura e, quiçá, compreensão do crioulo enquanto representativo da malha cultural e identitária nacional, do lado das editoras e outros gatekeepers, essa tendência significa números e apostas artísticas agora capitalizáveis. O mercado expande-se e com isso surgem novas e não tão novas questões. “Se eu quiser um bocadinho de protagonismo para mostrar o meu trabalho vou ter que o fazer de uma forma que eu não acho correcta”, conta Né Jah. O rapper reconhece a importância de Primero G e Ghoya como fundamentais para a sua existência e, hoje, emigrado em França com “casa, filhos, mulher e carro para pagar”, confessa que há pouco espaço para se deixar levar pelo imediatismo e frugalidades da indústria. “Eu vim com a essência do boom bap (…) Para passar na rádio tenho que fazer um trap, tenho que me moldar, arranjar um ambiente mais festivo e ser um bocadinho palhaço”, admite. “Eu gosto e ouço trap, ouço drill. Mas já não estamos aqui a brincar porque os que estão a brincar estão fixes. Às vezes nem tempo para sentir o gosto da comida tenho, quanto mais para fazer snaps”, brinca. “Há coisas mais importantes do que estar a descrever como é que chillo”. Nelson Monteiro, português com ascendência cabo-verdiana que cresceu na Margem Sul, mostrou-se tão surpreendido quanto satisfeito por, numa das visitas a Portugal, ter começado a ouvir música angolana nas novelas ou o “Deejay Telio no McDonald’s”. “Senti que eles tiveram muito mais hype, uma emoção, uma cena maior”, resultado do que aponta, também, traduzir um maior poder e dimensão económica do mercado angolano. O rap cantado em crioulo, no entanto, não deixou de se movimentar em silêncio e parte desse trabalho fora dos holofotes é igualmente importante para a expressão que começa a ganhar hoje, das mais velhas à mais novas gerações. “Tirar tudo para fora também não era saudável”, desabafa Primero G. “Comecei a trabalhar mais na área social. Grande parte da minha carreira tem sido a ajudar os outros a concretizar a carreira deles e fico muito grato por isso. Quando eu, Primero G, não estou a lançar nada é porque estou a trabalhar por trás de muitas pessoas.”

Para Ghoya, é um contra-senso que a ideia de PALOPS deixe de lado uma manifestação da identidade portuguesa tão relevante como qualquer outra – “queremos convergir verdade (…) O colonialismo reflecte muita coisa em África tal como reflecte na sociedade portuguesa — ao mesmo tempo que se mostra paciente para perceber quais os verdadeiros resultados deste espaço que o género começa agora a conquistar — Será que só está a ser aceite porque os brancos resolveram cantar em crioulo? Não sei, vamos ver. O tempo vai dizer isso (…) Mas agora os invasores sentem-se invadidos e não faz sentido nenhum para mim. Não nos ponham de lado. Basicamente é o que nós estamos aqui a dizer.”

Única mulher representante do género no painel em discussão no MAAT, para Mynda’Guevara “ser posta de lado” tem duplo, senão triplo, sentido, reflectindo-se na cor, no género e na forma como escolheu expressar-se artisticamente. “O meu objectivo é não só mostrar o meu eu mas revolucionar o rap feminino — se bem que eu não gosto de fazer essa separação: para mim é tudo rap seja homem ou mulher. Não há rap tuga, não há rap crioulo, é rap e ponto final — e influenciar outras raparigas a cantar rap”. Hoje com 24 anos, a rapper da Cova da Moura começou a fazer refrões em dupla até, mais tarde, decidir lançar-se a solo. Confessa que ela própria teve que se permitir usufruir de uma maior liberdade para poder ultrapassar os limites físicos e psicológicos do bairro. “Nós temos que mudar o nosso discurso. Essa ideia de que ‘não posso fazer nada além do que o bairro me permite fazer’ mas o bairro não é o mundo”. No que diz respeito a uma maior representatividade feminina, Mynda é taxativa: “Acho que está tudo igual. Pode ter aparecido uma ou outra mas não mudou muito. Não acho que seja o suficiente para nos afirmarmos (…) Eu posso fazer alguma diferença mas não posso fazer sozinha”, lamentando, ainda, a quantidade de trabalho que acaba por recair e limitar as mulheres num meio altamente masculinizado e já de si discriminado. “Eu faço tudo. Desde as letras até à produção dos espectáculos. É uma pressão que temos e não devíamos ter”. 

Em comum, partilham a ideia de que, apesar da kizomba e do funaná terem conseguido “furar” num momento mais precoce, ocupando algum espaço nas discotecas e na rádio, o valor do crioulo cabo-verdiano demorou a ser assumido, deixando-se “escapar muita coisa” quando se recorda que até a Cesária Évora precisou de se legitimar em França para, só depois, poder ter o merecido reconhecimento em Portugal. “A mudança está na nossa mão”, remata Ghoya. “Pensem todos 10 minutos nesse assunto. Existe um privilégio herdado. Existe. E nós temos que assumir isso. E as coisas só vão melhorar (…) quando as pessoas com quem nós crescemos, os nativos, dito assim, puserem a mão na consciência e abrirem mãos desses privilégios (…) Não podemos estar constantemente a assobiar para o lado e dizer que foi no passado e que não temos nada a ver com isso. (…) Ponham a mão na consciência, esse é o repto que lanço a todos. Pensem nessa herança de privilégio e o quanto estão dispostos a abrir mão dela.”

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