ProfJam no Capitólio: crónica de uma vitória anunciada

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] André Pêga

Algumas semanas antes da actuação que aconteceu ontem, o Rimas e Batidas dava a notícia que #FFFFFF, o mais recente trabalho de ProfJam, estreava-se no primeiro lugar do top nacional de vendas de álbuns, um feito notável se considerarmos os nomes que ocuparam esse lugar desde o início de 2019: Tony Carreira, António Zambujo, Queen, Xutos & Pontapés, a banda sonora de A Star Is Born e Capitão Fausto compõem um retrato bem mais tradicional do que aparenta ser a matéria pop neste país. Por isso, é, de certa forma, refrescante ver um artista fora desse enquadramento a instalar-se directamente no topo.

Quando chegámos ao Capitólio, em Lisboa, o quadro humano era o reflexo dessa popularidade: adolescentes (alguns com os pais) e jovens adultos preenchiam a sala, fazendo-se sentir através de cânticos dedicados ao protagonista da noite e ignorando as músicas que iam sendo disparadas pelo sistema de som. Ao contrário do que se possa pensar, esta “juventude” sabia bem o que queria…

Lá em cima, Mike El Nite, o DJ e hype man de serviço, e Gui, o baterista, entraram em primeiro lugar, aparecendo de seguida Mário Cotrim, que abriu a festa com “À Palavra”, canção que dava o tom para o concerto que durou cerca de uma hora: #FFFFFF foi a base do alinhamento (e os temas estavam praticamente todos na ponta da língua daqueles que marcaram presença), mas no entanto não se descuraram canções como “Xamã”, “Matar o Game”, “Queq Queres”, “Mortalhas” ou “Gwapo” que até foi “abrilhantada” com a presença de um dos seus “alunos”, YUZI.



A parte visual também foi bem-conseguida: imagens no ecrã foram acrescentando (ou reforçando) as palavras que saíam da boca do “prof dos putos da nova gen“.

Importante deixar uma mensagem para o novo público que ainda não entendeu bem como as coisas funcionam: os moshs só devem ser feitos nos momentos em que a música assim o exige, e “Malibu” não era, garantidamente, canção para isso. Se a palavra “cringe” tivesse um vídeo a acompanhar, esta situação específica seria auto-explicativa.

À parte de alguns problemas técnicos e pontuais faltas de fôlego, a máquina estava bem oleada e ProfJam assume-se como um performer de corpo inteiro, expressando-se de forma teatral e rimando e cantando freneticamente, quando assim era exigido. Se existe um nome com potencial para crescer — seja em estúdio ou ao vivo –, esse é Mário Cotrim, que, tal como reforçado pelo próprio, tem “o espectro completo da luz”, ou seja, as suas qualidades e ideias vão permitir que tenha ao seu dispor mais de três ou quatro caminhos diferentes daqui para a frente. Nem toda a gente pode dizer isso…



Um dos momentos mais bonitos da noite foi a interpretação de “À Vontade”, música que irá certamente ficar na memória colectiva durante uns bons anos, nem que seja pela transversalidade de uma mensagem que parte de uma premissa simples mas universal: pôr a “cota” à vontade. Depois da entrada de Fínix MG, que cumpriu o seu papel, a mãe de ProfJam, erguida por um elemento do público, apareceu acima dos restantes e ficou frente-a-frente com o rapper durante alguns segundos. Emocional q.b. para quebrar qualquer durão.

Sem encore e depois de largar as bombas “Tou Bem” — até Lhast apareceu para cantar o refrão… — e “Água de Coco”, ProfJam arrumou a questão com “Se Calhar”, faixa introspectiva que também encerra o disco e em que reflecte sobre se o que está a viver é um sonho. Pelo que vimos ontem, o sono já acabou há muito tempo e o artista de Telheiras tem tudo para continuar a construir uma realidade de olhos bem despertos, algo que não está ao alcance de qualquer um. Se calhar…