Praso no Titanic Sur Mer: 10 anos depois, ainda há artistas com alma e perfil

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Miguel Brito

Quando colocámos Praso na “Caderneta de Génios: 12 mestres das rimas e das batidas que fazem a nossa história“, a escolha não mereceu grande debate interno, mesmo que o seu nome não tivesse o mesmo peso que Sam The Kid, Boss AC, NERVE, Fuse ou Allen Halloween. Afinal de contas, o rapper e produtor de Sines criou uma linha singular (em termos de rimas e beats) e trouxe à boleia os membros dos Alcool Club, abrindo ainda um espaço para uma série de associados que deambulam no mesmo universo.

Esta madrugada, no Titanic Sur Mer, em dia de celebração do 10.º aniversário de Alma & Perfil, houve espaço para a reunião desse colectivo que descodifica a vida através de versos crus e uma vontade enorme de agarrar no microfone e mostrar que as palavras nunca deixaram de ser importantes.

Perante uma plateia que ficou principalmente concentrada à frente do palco — o evento não esgotou, mas a moldura humana chegou para aquecer –, Beware Jack, porta-estandarte dessa escrita menos óbvia e mais minuciosa no rap nacional, subiu a palco para acompanhar Daniel Jones em “Fico como sou”, tema que saiu em 2009 mas que não perdeu pujança, aliás, como grande parte das canções do disco. No entanto, “Tanto Não Chega”, faixa do EP Caçador de Sonhos, foi o primeiro grande momento de simbiose entre MC e público. Os fãs de Praso não enchem estádios, mas são devotos à sua poesia tingida a álcool, amor e aventuras, consumindo cada palavra como se fosse o último trago de uma cerveja fresca depois de um intenso dia de trabalho.

Entre as aparições de outros convidados, pausas para beber e momentos de interacção com a audiência, TOM, Subtil e Uno, três nomes que, cada um à sua maneira, valorizam o hip hop português (sem precisarem de holofotes, mesmo que os mereçam…), foram uma bela companhia para Praso em “Mal Acompanhado”, canção solta que também mereceu reacção efusiva. Não admira: os versos de elevado calibre dos intervenientes e o refrão orelhudo são banda sonora perfeita para todos os “bandidos” solitários.

Em dia de viagem ao passado, o presente e o futuro não ficaram de fora. Sara D Francisco, cantora que assina o refrão de “Até virar pó”, fez a ponte entre Livre e Espontânea Vontade (L.E.V.), que sai no dia 25 de Abril, e a discografia de Alcool Club, recuperando, em acapella, “Equilíbrio”, tema do último disco do colectivo. Mais uma vez, as palavras estiveram na ponta da língua de todos aqueles que se aguentaram até às três da manhã para assistir à apresentação de Praso.

O fim estava próximo e o momento mais esperado da noite chegava: o sample de piano de “Qualquer coisa e um pouco de jazz” emergia das profundezas e deixava os drums embrenharem-se num flirt obsceno. Depois das duas da manhã nada de bom acontece? Só acreditam nisso se não estiveram ontem no Titanic…

 



Antes do main event — e uma hora depois do anunciado –, Fred Mineiro, rapper brasileiro que actuou com Tayob J. nas costas, e Subtil assumiram o palco do club lisboeta. O autor de Aquém-Mar, uma das revelações de 2018, demonstrou, acompanhado apenas pelo DJ, que existe potencial para muito mais: tem dedo para refrões, técnica acima da média e uma entrega imponente que obriga-nos a ouvir com atenção.

“Estrelas”, “Desculpa da idade”, “Antes dos trinta” ou “Eu vou”, que sampla “Tessellate” dos Alt-J, resultam tão bem ao vivo como no estúdio; “A receita”, interpretado na companhia de TOM — irrepreensível cada vez que apareceu em cena — e Mass, virou momento de improviso depois do último se esquecer da sua parte.

Nervos à parte — notou-se que queria mostrar trabalho –, Subtil provou que o talento está lá. Deu para tirar algumas ilações, mas a mais importante foi esta: Praso tem alunos atentos que saíram da sombra do seu professor e exploraram aquilo que os torna autênticos. A lição foi bem dada: 10 anos depois, ainda existem artistas com alma e perfil a saírem do Artesanacto.