Praso: “Muita gente gosta do glitter e do fantástico, mas quem vive a vida real acaba por criar uma maior empatia com este tipo de som”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Teresa Pamplona

Praso celebra a liberdade com a edição de um novo álbum a solo. Livre e Espontânea Vontade conta com 18 temas e é o projecto com mais convidados de sempre do artista de Sines.

Para trás ficam trabalhos como Focus 360°, Estímulo Próprio (a meias com Richard Beats), Caçador de Sonhos ou Alma & Perfil, este último celebrou recentemente a marca dos 10 anos com um concerto especial no Titanic Sur Mer. Além de um vasto catálogo de lançamentos em nome próprio, Daniel Jones é ainda figura de destaque nos Alcool Club e gere o Artesanacto — o rapper Subtil é a mais recente aquisição da editora independente.

Antes da apresentação ao vivo de L.E.V., em Lisboa, o Rimas e Batidas esteve à conversa com Praso, que explicou alguns dos detalhes do processo de criação do álbum, o seu mais ambicioso projecto até à data com participações de BK’, Sain, Tatanka, Prizko, Uno, Subtil, TOM ou Montana.



[Os primeiros contornos de L.E.V.]

“Começou quando fiz a ‘Raiva de Ontem’. Fiz o meu primeiro videoclipe. Fiz tudo: filmei-me a mim próprio, editei… Pensei ‘realmente estou a fazer as coisas porque me apetece, por minha livre e espontânea vontade”‘. As siglas davam L.E.V. [lê-se ‘leve’]. Faz todo o sentido. Vou fazer uma cena leve, à vontade, e como não tenho obrigações desenvolvi o álbum a partir daí. Há faixas que eu fiz que eram para ir para lá e depois saíram. Mas e ‘Raiva de Ontem’ foi o que marcou o início.”

[Os timings]

“Eu na altura anunciei o disco para 2018. Entretanto voltei a focar-me nos concertos de Alcool Club e só depois é que voltei a tocar nisso. Peguei no disco como ele estava. Já tinha alguns temas e comecei a trabalhá-lo mais a sério. Despedi-me do trabalho onde estava mas tive de ficar ligado a eles porque tinha férias para gozar. Durante esse tempo não fiz mais nada. Estive só a esquematizar e acrescentei ao álbum mais uns seis ou sete temas. Eu na altura já tinha umas 11 faixas, mas como algumas delas já estavam cá fora se calhar a edição ia perder algum impacto. Tentei fazer o melhor possível. Até certos erros que tinha nas faixas já gravadas acabaram por ser melhorados.”

[Não viver da música e a “vida real”]

“Espero que nunca tenha de ser obrigatório deixar de trabalhar para fazer música. Ou seja, eu gosto da música que faço, e um dos contextos que a minha música expressa é o facto de eu viver a vida de uma pessoa normal. Quando digo ‘normal’ refiro-me a pessoas que não são músicos, que pagam contas, que enfrentam os problemas do dia a dia, têm problemas com o carro, que se preocupam com o IVA e o IRS… Essas coisas todas fazem-me escrever letras. Se eu conseguir ter uma profissão que me dá 1200 ou 1500 euros por mês, não vale a pena eu ter de me sujeitar a certas merdas da música. ‘Ah, tens de lançar isto desta forma e não sei que mais”. Já me passou pela cabeça fazer cenas bastante diversas daquilo que eu faço actualmente. Não vou fechar portas, mas também não as vou arrombar numa de me estar a vender todo. Ter de usar isso para pagar o meu apartamento? Não. Vou trabalhar.

Eu tenho a minha realidade. O ‘Qualquer Coisa e Um Pouco de Jazz’, por exemplo, retrata uma coisa que pode acontecer comigo ou com qualquer um. Não é fantasia nenhuma. É uma cena com os pés na terra, toca a muitos. Muita gente gosta do glitter e do fantástico, mas quem vive a vida real e saboreia aqueles momentinhos interessantes acaba por criar uma maior empatia com este tipo de som.”

[A produção de L.E.V.]

“Quase todas as músicas têm instrumentos reais. Se calhar umas 12. Foram músicos amigos, tudo feito no Artesanacto, excepto os arranjos do Tatanka — ele gravou a parte dele e enviou-me. A produção passou toda por mim. A mistura foi minha e só a passei a alguém para masterizar.

Os beats que eu produzi foram melhores. Mas a minha linha de beats é simples — eu crio um loop para me entreter, depois começo a escrever, penso num refrão, adiciono um baixo… Quis fazer um álbum com mais produtores e músicos, para tentar que eu seja o foco na vertente do rap e a produção fique a soar o melhor possível. Precisava de beats com mais força, em alguns aspectos. Daí eles terem várias nuances e não soarem àqueles beats clássicos do Praso.”

[Os convidados do disco]

“Tem aquela malta que já conheces — o Subtil, o Montana, a Sara D Francisco — que fazem parte do Artesanacto. O Gabriel de Rose veio fazer uns arranjos para o ‘Raiva de Ontem’ e quando eu fui misturar as guitarras tirei o beat… E ficou aquilo. Uma roupagem nova na faixa de introdução. O Vasco Castanheira faz o refrão do ‘Stand By’. É um gajo lá de Silves que já conheço há muito tempo e com quem costumo estar. Ele canta bem e faz rap. Estava presente quando estávamos a fazer esse som e escreveu o refrão. Ficou feito na hora.

O ‘Livre e Espontânea Vontade’ tem o Tatanka. Isso veio do concerto que demos, como Alcool Club, em Sintra. Era o Tatanka quem estava a organizar o evento. Ele disse-me que curtia bué do meu som, da minha cena jazz, e que gostava de fazer um som comigo ou com os Alcool Club. Nunca acertámos nada disso. Entretanto o pessoal da agência [Primeira Linha] perguntou-me se eu queria a participação de algum dos artistas deles e eu seleccionei aqueles que faziam mais sentido, dentro da música que eu faço. No ‘Livre e Espontânea Vontade’ fiz o som e a letra e imaginei logo o Tatanka. Mandei-lhe a música e ao fim de uma semana ele devolveu-me, já com guitarras, pianos, vozes… Fez um trabalho do caraças.

No ‘Porque É Que Não Dá’ tem a participação do Keni, que é um amigo meu que já me acompanhou em vários concertos e já fez músicas com Alcool Club. Fizemos o ‘Porque É Que Não Dá’ no momento, que até é todo tocado por mim, não tem samples. Fomos fazendo aquilo e para não perder o feeling gravámos logo. Estava lá o Subtil e o Zé Capinha, que faz parte dos Komikalat, e gravámos o som juntos. A ‘Praga’ tem o BK e o Sain e aconteceu mais ou menos da mesma forma que a música com o Tatanka. Eles também trabalham com a agência, fazem rap… Percebem bem a linguagem, o boom bap que eu faço. Achei logo que eles iam conseguir entrar bem na cena. Já tinha a ideia para a faixa, mandei-lhes e ficou um sonzão. Já a actuamos ao vivo e gravámos agora o videoclipe, que sai no dia do lançamento do álbum. Foi uma grande connection.

O ‘Ciclos e Vícios’ tem o Splinter e o Maze, que é uma grande inspiração para mim desde o início. Foi dos gajos que me inspirou logo, por causa das palavras e da forma como as colocava… Fazia um rap um bocado diferente naquela altura. O Splinter conheço-o há anos, desde que passávamos férias em Mil Fontes, no Verão. Ele faz rap e eu também. Há algum tempo ele veio ter comigo para me comprar um disco e perguntou-me se não tínhamos já feito férias juntos [risos]. Eu estava a gravar o L.E.V. e convidei-o a vir passar o fim-de-semana comigo para fazer isso. Com o Maze eu já falava de vez em quando no Instagram. Ele sempre foi muito acessível. Perguntei-lhe o que é que ele achava de fazer um som comigo e ele ‘ya, claro, curto bué do teu trabalho, manda lá isso’. Mandei-lhe o som, ele adorou e entrou lindamente.

No ‘Quasar’ entra o Macaia, uma música de amor. Fui ouvir os sons dele e nunca tinha tido uma voz assim num som meu. Mandei-lhe o som, ele gravou logo e devolveu-me.

No ‘Mal Acompanhado’ quis abrir a porta a outros rappers, uma cena tipo cypher. Dei a dica ao Tom, ao Uno e ao Subtil que tinham de arrancar com ‘mal acompanhado já estou quando estou sozinho’, uma espécie de loop, e dei-lhes liberdade para eles fazerem a cena deles. O ‘Overdose’ tem o Jugador, Prizko, Silva G, Stag One, N.o.B. e o DJ Gijoe. Mandei o som a mais pessoal mas nem toda a gente foi a tempo de entrar — para esse pessoal, há-de haver mais oportunidades, mais tarde ou mais cedo. Basicamente isto foi tudo feito pela Internet, excepto com o Jugador, com malta com quem eu tenho algumas ligações.

O ‘Quando A Música Acaba’ conta com a participação do meu irmão, o Montana, e foi a última música do disco a ser feita. Tem a particularidade do Montana rimar na abertura da faixa, porque normalmente sou sempre eu o primeiro a rimar.”


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira