Plutonio: “Quero que este álbum desperte numa pessoa o mesmo que o Chullage despertou em mim”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS E CAPTAÇÃO DE VÍDEO] Sebastião Santana [EDIÇÃO DE VÍDEO] Manuel Abelho

Um dos maiores desafios nas diferentes expressões artísticas é passar a mensagem da forma mais aproximada ao que se imaginou no momento da criação. Para um artista com ferramentas próprias e a estrutura certa, o desenvolvimento é, obviamente, uma constante e, falando do caso português, existem poucos exemplos como Plutonio. O rapper chega ao terceiro disco, Sacrifício: Sangue, Lágrimas, Suor, com plena consciência das suas próprias capacidades, um daqueles raros casos em que a popularidade se encontra com o pico mais alto da sua curva evolutiva.

No entanto, e para os que já não acreditam no formato longa-duração, o artista deixa o desafio, mesmo que não assumido: um alinhamento de 18 canções, que equivalem a uma hora e dez minutos de duração, é uma montanha russa em que cada subida e descida correspondem às derivações estilísticas do MC e produtor do Bairro da Cruz Vermelha — há r&b, trap, boom bap, afrobeats, grime, “baladas” e até um toque de bossa nova. No final da viagem, é quase garantido que vão querer voltar para repetir.

O disco, que tem um sub-título que homenageia Chullage e o seu Rapresálias… Sangue, Lágrimas, Suor, completa a trilogia que também contempla Histórias da Minha Life (2013) e Preto & Vermelho (2016). De três em três anos, o artista foi-se reinventando sem nunca perder a base (o street rap) de vista, mas chegou a 2019 com um arsenal técnico que, neste momento, lhe permite fazer a canção pop mais gulosa à sua maneira ou um banger trap com a história mais crua e pesada. E depois de “Cafeína” e no meio de uma era em que o rap domina o mainstream, é contra-producente negar-lhe um lugar à mesa com os grandes, onde chegou sem precisar de recorrer às estrelas da sua própria equipa.

Fomos até ao quartel-general da Bridgetown na passada sexta-feira e conversámos com Plutonio sobre o conceito e a criação de Sacrifício, a relação com Deus e a necessidade de encontrar a melhor forma de se expressar melhor nas músicas.



Passaram três anos desde o lançamento do teu último disco. Quando é que começaste a pensar no Sacrifício?

Eu já tinha o conceito deste terceiro álbum antes de lançar o segundo. Até fiz esta tatuagem nas mãos, que diz “Sacrifício”, na altura em que a minha avó faleceu. Ela faleceu e meti 1928-2014. O álbum entretanto saiu em 2016. 

O Sacrifício vem completar a trilogia que também é composta por Histórias da Minha Life e Preto & Vermelho. Resume todo o sacrifício que foi preciso fazer desde o início da minha caminhada na música. De 2016 para aqui, levou este tempo [a ser feito] porque eu queria que o álbum estivesse a soar exactamente como eu o imaginava. E fui imaginando uma coisa ao início, depois comecei a trabalhar e fui deixando aquilo ir para outros caminhos, estás a ver? Mas foi um álbum que eu quis fazer com calma e certeza.

Mas o que é que já tinhas pensado inicialmente do conceito?

O título e o sub-título. 

Que é uma homenagem ao Chullage. Mostraste-lhe o disco?

Mostrei-lhe o “Sacrifício”, o som, antes de sair. Na verdade quem mostrou foi o Sam [The Kid], mas eu estive com o Chullage e falei-lhe deste conceito e que queria fazer esta homenagem. Ele recebeu isso de uma forma positiva.

Mas o Chullage, para além de ter sido uma das maiores inspirações enquanto rapper, foi também a maior inspiração que eu tive no rap interventivo. Foi o primeiro gajo com que me identifiquei com as letras do início ao fim. Tive a oportunidade de abrir a apresentação do terceiro disco dele, o Rapressão, em 2012, a convite do próprio. Também já estive outras vezes com ele em estúdio — ele fez a intro do meu álbum Preto & Vermelho. Também estive numa associação onde ele trabalhava, que era na Arrentela. E é uma pessoa que eu admiro em vários sentidos. 

Suponho que o teu objectivo seja causar o mesmo impacto que o Chullage teve em ti.

Sem dúvida. Quero que este álbum desperte numa pessoa o mesmo que o Chullage despertou em mim.

Como é que funcionou a recolha de beats? Do que é que andaste à procura?

Imagina, eu comecei por cantar e produzir também. Neste álbum também produzi um tema, “Mesmo Sítio”, que é com co-produção do Lhast. No álbum passado produzi o “África Minha” e no primeiro álbum produzi uns quantos. Mas chegou a uma altura em que eu quis dedicar-me mais a escrever e cantar, então deixei a produção de lado, mas co-produzo quase sempre todas as músicas que eu tenho. Há beats que eu peço de uma determinada forma, mas ultimamente tenho pedido aos producers para me mandarem coisas que eles tenham porque assim a minha ideia não fica tão presa àquilo que eu imagino. Às vezes um producer manda-te um beat que para ele não é a tua cena, mas tu apanhas aquilo e dá-te uma inspiração para outra cena que não tinhas pensado. Enquanto que se eu pedir exactamente aquilo que eu quero, acho que fico mais quadrado a nível musical. 

Tive a oportunidade de assistir ao teu concerto na edição deste ano do NOS Alive e pareceu-me daqueles momentos em que o artista percebe que a música está realmente a passar para o outro lado e a atravessar públicos. Foi um momento de viragem? Sentiste isso?

O Alive foi aquele show em Lisboa em que tens a junção de pessoal de bué sítios, de públicos variados, e eu consegui perceber lá que as músicas que eu tenho lançado ultimamente têm conseguido juntar todo esse público. Para mim foi um espanto porque eu não estava à espera daquela recepção. Já estava a contar que fosse bom pelo feedback que recebi na Internet e pelo feedback dos outros shows, mas não estava à espera que fosse assim tão bom. 

Continuando a falar sobre situações que deixam marca: estiveste recentemente na Jamaica. Como é que foi a experiência?

Um dos meus maiores objectivos nesta viagem era ir conhecer o estúdio do Bob Marley. E quando eu entrei ali parecia que já conhecia aquilo de alguma forma. Mas a viagem toda fez-me lembrar que às vezes a gente esquece-se de aproveitar as oportunidades que temos da melhor maneira. A Jamaica é um país que não tem petróleo e um monte de coisas que fazem outros países serem conhecidos ou mais poderosos mas eles têm música. E a música fez a Jamaica ser conhecida em qualquer canto do mundo. E tu percebes que há ali pessoas com condições bem inferiores às que se vive aqui em Portugal e mesmo assim têm vontade para lutar por aquilo em que eles acreditam. E fazem música extraordinária.

Voltando ao disco: não ter participações foi algo pensado?

Foi. Tu tens várias formas de fazer e cada pessoa faz da sua maneira, mas eu acho que durante muito tempo lancei cenas e o pessoal não dava o crédito que eu achava que algumas coisas mereciam. E se um dos cantores for mais conhecido, é sempre “o som bateu por causa de não sei quem” ou “o coiso fez o refrão” ou “não sei quem fez o verso”. Até aqui eu nunca tinha conseguido mostrar às pessoas a totalidade das minhas capacidades enquanto músico. Neste álbum eu quis fazer isto sozinho porque sentia que tinha capacidade para tal, e daí eu ter feito as coisas com calma. 



Não te desviaste do modus operandi do Preto & Vermelho e parece que pegaste no potencial desse álbum e conseguiste concretizá-lo no Sacrifício. Quais é que são as principais diferenças que vês entre os dois discos? O Mishlawi disse na entrevista com o Rimas que tiveste aulas de canto, por exemplo.

Estive durante muito tempo em estrada com o Richie [Campbell], fiz-lhe muitas perguntas e ele ensinou-me muitas das coisas que eu hoje sei a nível de canto. Cheguei a ter duas aulas, mas essas duas foram suficientes para eu perceber que há cenas que já sabia inconscientemente.

E qual é a evolução que vês enquanto rapper, cantor e produtor?

Eu sinto que neste álbum consigo expressar-me melhor. Trabalhei na forma como eu escrevia para as pessoas assimilarem melhor aquilo que eu realmente quero dizer. No outro álbum havia músicas que tinham potencial para [mais], mas ainda não estavam no ponto certo. E isso acontecia nos sons mais comerciais, que têm uma escrita mais leve, mas nos meus sons mais street, mais pesados, não conseguia chegar às pessoas da mesma forma. Acho que hoje em dia já consigo chegar às pessoas em qualquer estilo de instrumental. Consigo transmitir ou comunicar da mesma forma, depois se as pessoas gostarem ou não já são outros quinhentos, mas já consigo dizer exactamente aquilo que eu quero e fazer as pessoas perceberem, mesmo que não sejam dessa realidade.

Essa foi a minha maior batalha na passagem do álbum passado para este: quando eu fazia esses sons mais pesados, o pessoal às vezes ficava naquela, “ya, isto não é bem a minha cena, não sou do bairro, e não me identifico muito com isto”. E hoje em dia se calhar já consegues perceber melhor o que eu estou a tentar explicar. 

Como é que percebeste o que é que estava a falhar?

Eu próprio ouvi as minhas cenas e pensei: “porque é que isto não chega até às pessoas da maneira que eu quero?” E percebi que se calhar não me estava a explicar bem. Tenho que me explicar melhor. Porque se o mundo não te entende, acho que a culpa às vezes é tua. Tu é que não estás a explicar-te bem. 

Também existe uma diferença entre o público de 2016 e o de 2019.

Sem dúvida, mas falando de mim numa forma muito específica, eu sentia que precisava de me explicar melhor. Precisava de ser mais explícito na forma como eu comunicava com as pessoas. Hoje em dia acho que consigo fazer isso mais facilmente. Não complico tanto. Quando quero dizer uma cena, digo. Há cenas que chocam mais, outras que chocam menos, há cenas que são “o gajo disse mesmo isto?” Ya, era isto que queria dizer. E antes se calhar pensava “vou dizer isto e o pessoal não vai perceber e tal”.

Outra das cenas em que eu também trabalhei bué neste álbum foi explorar outras sonoridades. O som que eu fiz para a minha filha, o “Francisca”, está numa vibe completamente diferente do que eu já fiz antes, meio bossa nova com sei lá o quê [risos]. A minha ideia é misturar sonoridades. Daí eu estar a dizer que quando falo com os producers não peço, “ah, quero um beat específico assim”. Depois na experimentação até sai um som. Se sair uma cena fixe, um gajo aproveita. 

Os produtores não têm a tentação de mandar um Plutonio type beat porque vais a muitos sítios.

Ya [risos]. Pronto, há bué beats que me passam ao lado por causa disso. Eu não quero estar sempre a repetir a mesma fórmula — eu não quero fazer 30 “Cafeínas”. E o que eu tentei fazer neste álbum foi atingir as pessoas da mesma forma utilizando fórmulas diferentes. Daí eu ter lançado um que é mais afrobeat, depois outro que é mais balada, depois uma cena mais triste ou mais alegre, um “Dramas & Dilemas”, um “Lucy Lucy”. Um “Sacríficio”, que resume o álbum. Foi um som que eu quis especificamente trabalhar com o Sam porque acho que não tens ninguém mais emblemático do que ele para aquele género de beat. Eu queria ir buscar alguém que tivesse mesmo a essência do boom bap e, graças a Deus, nós compreendemo-nos facilmente…

Já sabias o que querias quando foste falar com ele?

Já. Eu sabia que aquela música ia-se chamar “Sacríficio”. O género de beat [sabia] mais ou menos. A letra foi escrita depois. 

E depois ele mostrou-te beats e escolheste um ou funcionou doutra forma?

Ele mostrou-me uns dez beats. Desses dez eu escolhi três. Desses três, ele tinha lá um sample, começou a mexer e eu disse: “aí, mostra lá esse sample”. Depois ele começou a trabalhar naquilo e disse-me, “ah, espera aí, dá-me um tempo”. Trabalhou, trabalhou, trabalhou e depois mandou-me uma demo, passou-me ali logo, levei para casa, no dia a seguir vim aí ao estúdio e comecei logo a bombar naquilo. Passado dois dias tinha o som fechado, mandei-lhe para ele ver e ele disse logo que curtia bué, mas que queria mexer no beat para alterar ali umas cenas — depois de eu ter gravado, ele ficou também com umas ideias. Combinámos fazer isso em estúdio e foi quando filmámos a sessão que se tornou o vídeo. Mas aconteceu tudo de uma forma bué natural. 

Algo que reparei na tua música, e que não é de agora, mas que me saltou mais à vista neste disco por começar logo com a “Meu Deus”, é a maneira como expões a tua fé. Como é que a tua relação actual com Deus e religião?

Vou uma vez por outra à igreja, mas quem ia muito era mais a minha avó e a minha mãe e elas passaram-me aquela disciplina da religião. Eu fui crescendo, houve uma altura da minha infância que eu ia sempre com elas, houve uma altura que não fui e depois, por mim mesmo, comecei a voltar a ter mais fé. Isso é uma cena que eu não faço questão de esfregar a ninguém, cada um faz o que quiser, vive como quer, mas é uma cena em que eu acredito porque sinto os efeitos disso na minha vida. Em várias fases [da minha vida] senti que tem de existir uma coisa maior do que nós. Todos os dias quando acordo faço as minhas orações, antes de dormir faço as minhas orações e antes de comer faço sempre as minhas orações.

Actuaste no Coliseu de Lisboa em 2015, mas incluído no festival Hip Hop Sou Eu. Para o ano vais lá voltar, mas em nome próprio. Era um objectivo?

Não te posso dizer que era um objectivo que eu tinha; era um sonho, mas existem sonhos que tu tens que não achas possível se concretizarem. Nunca achei que ia estar numa posição de poder fazer uma casa como o Coliseu. O processo todo está a ser uma experiência gratificante.