Hip Hop Sou Eu: reverberação cultural no Coliseu dos Recreios

[Fotos]: ©Ricardo Miguel Vieira

Sexta-feira, dia do Trabalhador, 20.30 horas. A calçada das Portas de Santo Antão é assomada por uma propagação sonora intensa que se intromete entre o público na escadaria de acesso ao Teatro Politeama e os turistas que ocupam as esplanadas de restaurantes indianos de comida portuguesa (sim, o paradoxo é propositado). O som escapa do Coliseu dos Recreios, para onde me dirijo, cuja entrada está hoje manchada por papéis, beatas e copos, resquícios da multidão que no dia anterior encheu o anfiteatro para assistir ao concerto de Anselmo Ralph. Só que a batida hoje é outra, principalmente aquela que me recebe após dominar os degraus que encaminham para o salão maior de espectáculos: no palco está Plutónio, rapper da linha de Cascais, a contagiar o público com o trap musculado de “2675“, um som espicaçado que provavelmente nunca se espalhou pelas galerias dos coliseu alfacinha.

MCs e produtores de norte a sul juntaram-se no mítico espaço cultural para mais uma edição do festival Hip Hop Sou Eu. É a celebração do hip hop português, uma montra para novos projectos, novas gerações e reuniões de nomes mais históricos do movimento. Está meia casa e esta é composta por muita juventude. O mesmo será dizer que meia casa não é sinónimo de meio gás: o público está enérgico, aberto aos dissemelhantes estilos – em palco e até em som – dos artistas convidados e participa do espectáculo, tornando-o especial para todos os presentes.

As performances são curtas, cerca de 20 a 30 minutos para cada acto, com excepção para os cabeças de cartaz, Jimmy P e Mundo Segundo com Sam The Kid, que gozam de cerca de uma hora em palco. Após a consistente actuação de Plutónio (quem apagou as luzes mais cedo?), Bispo sobe ao palco um exército dos seus tropas e uma dancer. É uma participação colectiva e electrizante que agrada ao público e deixa os espíritos libertos para a festa que se seguiria com os GROGNation.


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Com o passar dos minutos observo desde o backstage a plateia a compor-se, sem nunca passar dos limites de uma casa semi-preenchida nos seus recantos. Reflicto então que muitos destes artistas actuam com regularidade em espaços nocturnos e festas um pouco por todo o país. Deixou de ser propriamente raro encontrar uma oportunidade para ver em palco nomes como Sam The Kid ou Mundo Segundo ou Dillaz ou até Jimmy P num qualquer fim-de-semana. Longínquo vai o tempo em que o hip hop surgia escondido em cartazes, em que público o desligado da cultura torcia o nariz. Mais de vinte anos volvidos desde a primeira aparição do movimento em Portugal e eis que há coliseus bem habitados de públicos e eventos cujos cabeças-de-cartaz são proeminentes actos hip hop.

GROGNation está em palco. A crew de Mem-Martins foi mesmo uma das melhores actuações da noite. Com o impecável DJ X-Acto nos pratos, lançando uns rasgos de scratch na agulha, pulam e puxam pelo público, juntando-se mesmo a este já no final da performance. A meio do show impõe-se ainda a voz audível e pungente de NBC. Um somatório de valor acrescentado no Coliseu, palco que os GROGNation nunca antes pisaram.

Entre actos, os artistas juntam-se no backstage e troca props e incentivos. Tudo funciona sobre rodas, sem atrasos. Depois dos GROGNation actua então um dos nomes mais aguardados pela audiência: Dillaz. O jovem rapper da Madorna é um dos favoritos do público jovem. As letras incisivas, claras nos seus significados, são atractivas e a sua presença em palco é palpável. Dillaz sabe como provocar o público e corresponder às expectativas.

Jimmy P é o penúltimo artista em palco e aquele que leva consigo uma banda. Agrada ao público com o seu estilo mais pop e orelhudo dentro do género e traz outra dimensão ao espectáculo quando acompanhado por percussão e cordas eléctricas.

Como em muitos festivais, a cereja no topo do bolo ficou para o fim. Mundo Segundo e Sam The Kid (com Maze também a surgir no palco, a determinada altura) – que ainda na semana passada apresentaram o single do seu álbum colaborativo – encerraram o festival. Ao anunciar dos nomes por parte do host Tekilla, o público no interior do Coliseu migrou para a plateia e aplaudiu e vibrou uma vez mais com a festa do hip hop português.

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Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.