Pedro Tenreiro homenageia Bill Withers com playlist exclusiva

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Gilles Petard

O corpo de Bill Withers, soube-se ontem, abandonou este plano de existência após complicações cardíacas, como revelou a sua família e noticiou a generalidade da imprensa, mas a sua voz há muito que se tinha calado, datando o seu último álbum, Watching You Watching Me, do já distante ano de 1985.

Como é óbvio, e como tão bem nos relembra Pedro Tenreiro, responsável por alinhar as pérolas cuja audição agora propomos, a música de Bill Withers nunca parou de se ouvir e como até sublinha a Rolling Stone, algumas das suas criações nunca como agora fizeram tanto sentido: “Lean On Me” tem sido usado como hino motivador quando as crises, como a que presentemente atravessamos, parecem retirar-nos as forças a todos.

O homem, que nasceu em 1938 e que passou 9 anos a viajar pelo mundo ao serviço da Marinha americana, chegou a Los Angeles em 1967, com uma guitarra em que decidiu pegar quando ouviu um gerente de um bar queixar-se do quanto pagava aos músicos que aí tocavam. Sem ter passado por uma aprendizagem formal, Bill conseguiu, na guitarra ou ao piano, de forma intuitiva, arranjar uma forma de se expressar, escrevendo assombrosas canções que começou por gravar para a pequena independente Sussex, pertença de Clarence Avant.

Escutando hoje um clássico como Just As I Am, lançado em 1971, custa a acreditar que foi gravado em meras 9 horas, em três sessões comandadas pelo histórico Booker T, líder dos mesmos M.G.’s que se escutam em tantos clássicos da Stax, com a ajuda do metrónomo humano Al Jackson Jr. na bateria e do grande guitarrista Stephen Stills, companheiro de Neil Young, na guitarra.

Nesse álbum de “Ain’t No Sunshine” ou “Grandma’s Hands” (tema samplado por Dr. Dre para “No Diggity” dos Blackstreet), Bill Withers assume o seu lugar no panteão soul, mas reclama para a sua arte o peso dos blues e do country e sobretudo do gospel.

O trabalho seguinte é mais um clássico gigante: Still Bill inclui “Use Me” e “Lean On Me” mas também a estrondosa “Kissing My Love”, tema em que a bateria de James Gadson se faz escutar, imponente e aberta ao futuro num break que adornou centenas de temas de hip hop (e não só).

Logo em 1973, Withers mostrou em palco com músicos como James Gadson e companheiros recrutados na mítica Watts 103rd Street Rhythm Band como se deve um cantor entregar ao seu público: o seu Live at Carnegie Hall é certamente um dos mais incríveis registos ao vivo de sempre.

O cantor ainda entregou mais um álbum à Sussex, +’Justments, antes de assinar pela CBS, editora para que lançou Making Music em 1975. Inserido numa major, com diferentes ideias para a sua carreira e um distinto posicionamento no mercado, Withers, um simples homem-comum, como bem lembrou Questlove em declarações à Rolling Stone, nunca realmente se encaixou na estratégia dessa corporação discográfica, ainda lançou mais três álbuns durante a década de 70, incluindo o belíssimo Menagerie em que se incluía o seu último hit, “Lovely Day”, mas depois de uma pausa, só voltou a editar em 1985, data após a qual resolveu abandonar a música, cansado e desiludido.

Em 2009, o documentário Still Bill de Alex Vlack e Damani Baker lançou alguma luz sobre esse tranquilo génio que não tinha pejo em confessar o gosto por uma vida de anonimato, longe dos palcos e das luzes da ribalta. Nesse sentido retrato criado por dois assumidos fãs, Bill Withers mostra-se como um ser humano resolvido, em paz com a vida e orgulhoso da obra, embora sem vontade alguma de encenar um regresso.

E assim se manteve até ao fim, resolutamente afastado do mundo, convencido de que tudo o que de importante poderia ter a dizer ao mundo já se encontrava explícito nas canções que nos legou. E que o grande fã Pedro Tenreiro, profundo conhecedor do género que assina Poder Soul, rubrica diária da Antena 3, aqui destaca através das suas certeiras escolhas.


[10 VERSÕES]


[10 DELE POR ELE (SEM OS HITS QUE ESTÃO NAS VERSÕES)] 

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