Não é errado assumir que este concerto começou, na verdade, a 21 de março. Não se trata de uma confusão com datas, mas de um olhar mais global sobre as intenções do espectáculo da passada sexta-feira. 21 de março, não de 2026, mas de 2018, é a data do lançamento de Deepak Looper, álbum de estreia de Papillon e que deu início a uma trilogia que fechou com WONDER. Apesar deste espectáculo servir para a apresentação ao vivo do mais recente disco do rapper de Mem Martins, é também justo afirmar que ele não existiria sem o percursor de 2018 e Jony Driver (2022). No fundo, não há borboleta sem larva e casulo. Todas as fases são importantes.
O Coliseu dos Recreios estava à pinha de pessoas e o espírito era de grande antecipação. No palco, um pano branco que deixava o público espreitar os músicos que iam chegando, afinando os seus instrumentos e assumindo as suas posições para o início do concerto. As luzes apagam, o público celebra, mas, no palco, não haviam ainda sinais físicos de Papillon, apenas a sua voz. E é neste momento que percebemos que a noite seria de celebração e comunhão entre artista e plateia: com apenas um pano branco e uma voz, sem gimmicks para fazer o público mexer, sem pedidos para que a audiência cantasse, o Coliseu inteiro entoou sílaba a sílaba e em plenos pulmões “¡ +1 !”.
Desde que Plutonio subiu montado a cavalo ao palco da MEO Arena que a bitola para as entradas em cena dos artistas está mais elevada. Com casa cheia, numa sala mítica populada por um público ansioso, confessamos que um simples cair do pano, apesar de suficiente para nova erupção de energia, seria um pouco anti-climático. Eis que, entre estas interrogações, a luz foca numa das galerias da sala e uma figura ao estilo de Fantasma da Ópera aparece, de braços abertos para o público. Rapidamente o pano cai e as atenções voltam ao palco onde Papillon surge com a mesma indumentária da misteriosa figura. Para manter a energia, seguiram-se dois êxitos: “¡ WOW !”, um dos bangers do mais recente disco, e “Camadas”, faixa que já é um clássico do repertório do MC ex-GROGNation.
Todo o espectáculo permaneceu com a mesma energia, muito por causa da óbvia comunhão entre artista e plateia. Destacamos, claro, a maneira como o concerto foi planeado e construído. Tudo foi minuciosamente esculpido, a setlist foi perfeitamente curada num misto de êxitos antigos e todas as faixas do novo registo. Existiu, ao longo do concerto, uma fluidez resultante da sinceridade da conexão entre Papi e os seus ouvintes. As interações que o rapper teve com o público foram genuínas e muito além dos habituais pedidos para meter as mãos no ar ou bater palmas. Quase nunca foi preciso, porque a sala respondia à música antes de tudo. Um dos momentos altos da noite foi “Impasse”, uma das canções-destaque de Deepak Looper. A música fechou com o artista em completa apoteose, os fãs a acompanharem o crescendo antes do último refrão com palmas, criando-se uma atmosfera de fazer inveja aos maiores estádios de futebol em dias de jogos decisivos.
O grande climax aconteceu pouco depois. Sem Papillon no palco, ouvimos uma narrativa que, de certa forma, resume as intenções e as temáticas desta trilogia de discos. Amor (tanto próprio como ao próximo), incerteza, crescimento, mudança e aceitação foram alguns dos tópicos que marcaram não só todo o trajecto, como também esta mais peça em específico. Chegada ao fim, a cassete rebonina e percebemos que a narrativa faz sentido também lida no sentido oposto, contando uma história que aborda os mesmos temas, mas mudando a perspectiva, algo que nos deixa a pensar se o mesmo poderá ser feito com o disco, um pouco ao estilo de DAMN., de Kendrick Lamar.
Com Papi de volta ao púlpito, tivemos espaço para mais canções e pelos muito ansiados convidados. Bispo, Bárbara Tinoco e Plutonio marcaram presença no show para darem vida às suas participações. A maior ovação da noite, contudo, ficou reservada para Slow J. O rapper de Afro Fado é não só um frequente colaborador, como também uma espécie de soulmate criativa de Papillon, tendo dedo em muita da produção da obra do MC de Mem Martins. “Sweet Spot” e “Impec” foram outros dois temas marcantes desta noite, mantendo a energia do público lá no alto numa fase já final do concerto. O espectáculo começou como acabou, num ciclo perfeito, com a faixa “¡ E SE !”.
Vamos tirar aqui uma ideia do livro do Papillon e acabarmos como começámos, falando de como Deepak Looper, um álbum com um casulo na capa, nos falou de crescimento e metamorfose e que nos deixou com a curiosidade e entusiasmo de perceber por onde seria trilhado o caminho do seu criador. Conceptual e ambicioso, foi um disco marcante para uma geração, com o Coliseu de Lisboa como prova viva disso. Depois de um Jony Driver mais taciturno, é bom saber que acaba num registo positivo com WONDER, um LP adulto que nos versa sobre temas maduros, mas que também mantém a mesma esperança e abordagem de “copo meio cheio” do primeiro registo da saga, ainda que com um apetite diferente. Se em Deepak Looper a fome era de sucesso e o tom era de alguém que tinha algo a provar, a aura de WONDER é mais associada a alguém que quer continuar a crescer e a criar. Há uma alegria de estar presente e de estar no presente que, a nosso ver, serve de batuta para o disco e para o seu espectáculo de apresentação. Segundo palavras proclamadas pelo próprio, não se sabe o que vem aí a seguir, não se sabe por onde se vai, que caminho se vai tomar. Mas estamos felizes por termos chegado aqui. Do casulo para o Mundo, a borboleta aterrou no palco do Coliseu de Lisboa e voará para bem onde quiser.