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Fotografia: Ovar/Cultura
Publicado a: 10/04/2026

Do Quarteto de Carlos Bica a Mantis.

Ovar em Jazz’26 — dia 2: quando o universo se alinha

Fotografia: Ovar/Cultura
Publicado a: 10/04/2026

Em tempos de recriação de novas voltas à Lua, que mais não é que propaganda e teimosia de terráqueos ditadores dispostos a impor a lei do mais forte (que fraqueza de espírito); falar e sentir o universo é, por certo, de outra ordem de grandeza no pensamento — à razão está a música na sua função. Nada que ver com o jazz, que por estes dias tinge a cidade varina através do Ovar em Jazz, mas coincidentemente no dia e à hora que a disponibilidade é total para dolentes não assalariados, um cravo e uma conversa surgem no programa da tarde como que por arte ocasional do universo das coisas. Um teclado que se dispõe a um programa em construção — “Incertus Author”, como trabalho de recolhas para um dar a ouvir música anónima deixada à mercê do universo autoral seiscentista. Hélder Sousa — cravista varino — dava assim a pedra de toque numa saborosíssima premunição de alinhamento do universo para o dia. Dia que fazia subir ao palco do Centro de Artes de Ovar o programa 11:11 do Quarteto de Carlos Bica. “11:11” a hora vista como sinal dos deuses universais onde tudo se alinha e conjuga. 

Uma vez mais, e pela segunda noite, estamos na caixa de palco. Uma partilha de chão e de importância conjugada entre público e músicos — quem vale mais que quem? Interdependências efectivas, e para o grande registo discográfico que Carlos Bica formalizou com 11:11, que revisitámos em doze motivos de escuta para melhor preparar esta vinda a palco. Bica adiante haveria de partilhar o prazer em voltar a reunir estes músicos e esta era a primeira vez do ano para eles. Eduardo Cardinho nas multi-baquetas do vibrafone, Gonçalo Neto na vistosíssima guitarra eléctrica em V e José Soares altaneiro no saxofone alto. A formação que tem um mestre contrabaixista–timoneiro daria resultado a uma outra música sem estes destemidos instrumentistas que Bica refere como fazedores de uma arte conjunta — um efectivo quarteto, portanto. O começo tão a propósito com “Blue in Grey” coloca-os e situa-nos no lugar e no espaço, alinhados com o universo de imediato, e é por isso que o espectro das tonalidades se começam por projectar desde as lâminas do vibrafone — azul é o espectro, sobre o lugar de cinza escuro da caixa de palco. E como que por imperativa sucessão, dado o devido alinhamento do universo, surge “Lucky” — que sortudos somos todos e todas por estarmos ali nesse preciso momento. E a precisão é exactamente esse ideia maior, como de um mostrador de pulso onde se vê “11:11” — a hora (certa), com a dimensão cósmico-universal dos alinhamentos. 

Já sabíamos que era um disco em palco, não contávamos era com o que havia para além disso. Mas com estes músicos apetece ouvir deles o que Bica gravou também com outras formações. Uma das mais icónicas, e que se decoram no trauteio, essa maravilhosa linha de contrabaixo que faz tudo crer com “Believer”. Na vez de Azul, Bica conta com demais cromatismos (estes) em palco para o efeito — e que alcance souberam atingir… momento sublime. E o cume alcançaram-no com “Pentimenti” numa absoluta redenção sonora, com todo um espectro a pairar surgido das cerdas a baquetar sobre as cordas graves, vibrantes sobre as lâminas, acompanhadas velo veludo que emanava das cordas conjugadas com o sussurro vozear da palheta do alto. Querer mais que este estado é puro desafio às leis que regem a natureza do universo. O tempo escorria como acontece quando tudo se alinha e conjuga em harmonia.

“Roots” e “A Place You Will Never See” trazem para frente Neto como timoneiro, um desbravar caminho na imensidão edificada desde a sua Flying V. Um destemido navegador em solitário projectando o seu som com todo o pano dado ao vento — e sempre, sempre de feição. Juntam-se-lhe as demais mãos em manejo deste apontar de lugar que melhor se escuta para imaginar um ver. E é com o alto de Soares que melhor se define o lugar. Uma mestria efectiva, todo um saber fazer, um quarteto que se assume de uma musicalidade de que não se prescinde. Um som de palco como se um estúdio fosse, bastaria demorar o olhar nos microfones que o sopro e as baquetas tinham por diante para perceber o rigor e respeito pela captação do som de palco operado por Susie Ribeiro. Um daqueles concertos que conserta por dentro, e dele saímos melhor para esse fora dali que nos espera. 

Entretanto já pelo bar… damos com o nome de Mantis. Grupo de Raquel Pimpão (aka Femme Falafel) nos teclados, Zé Cruz nas flautas (no lugar de Beatriz Duarte — em missão pela Coreia), Francisco Nogueira no baixo eléctrico e André Abreu na bateria. Um concerto para o desfecho de um dia em cheio, num alinhamento cósmico-sonoro. Mas um concerto que começa numa curta, mas efectiva conversa de apresentação, com o baterista Abreu e a teclista Pimpão à fala com Rui Miguel Abreu. Um registo (conversa e concerto) alcançáveis numa próxima edição semanal do program Notas Azuis (agora no éter da Antena 2, recorde-se). Mas estes Mantis, e como nos foi dado a explicar, têm no nome uma curiosidade. Mantis remete para louva-a-deus e caberá nesse sentido o que cada um(a) entender por deus — certo é que o nome condiz com a sua musicalidade. Uma atmosfera propícia a novos voos, com declinações várias e até súbitas, que cruza campos diversos, indo do jazz ao hip hop ou a um ambient que tudo liga. Em escuta num contexto de club jazz, que por estes dias se implanta no bar do CAO pós concertos do palco no auditório, mas que enum final de tarde e ao ar livre seria de acrescido efeito e sabor. Mantis que se lançaram em registo homónimo, e numa edição digital própria, em Novembro último. Se proventura Matthew Halsall os escutar, talvez ainda os queira inscrever na sua Gondwana Records. Terá de esperar um pouco mais, já que verão as suas sete faixas editadas em rodela negra pela casa Now Jazz Agora num futuro bem próximo. Uma contribuição acrescida ao estimulante campo fronteiriço do jazz, do jazznãojazzpt. Mas sem que sejam mais uma cena, antes até trazendo refrescantes e novos possibilidades ao que já de si é um território em permanente descoberta. 

A prová-lo está a sua presença neste espaço dentro do Ovar em Jazz. No ano transacto estiveram a exemplo Samalandra ou YAKUSA como pares laboriosos de semelhante cartografia sonora. Abreu tem no seu dispositivo de bateria um elemento fundamental — um prato (na verdade três coalescidos)  arqueado e que são o garante de uma cadência e identidade. É peça condutora e sobre isso os fraseados desenhados nos dois teclados operados por Raquel Pimpão conferem uma tapeçaria que efectivamente nos redirecciona neste dia e noite de perfeito alinhamento. Tudo se conjuga. Haverá acasos? Incautos objectivos subliminares? Certo é que a flauta transversal trouxe e pejou um ambiente de inabaláveis voos. Vimos esse bichinho verde por diante como que em pose oratória e profética ou a esvoaçar por aí fora. A quem se dirigia? Vá-se lá saber… mas a algo de muito bom e que entusiasma. Quando e de cada vez que Cruz trocou as chaves da flauta pelos pistões da trompete fez voos picados, como esses que morcegos e outro comedores de insectos fazem para capturar as suas presas. Seriamos todos e todas nós esse alvo? Ou tão somente o colectivo Mantis a ser presa e predador? Do baixo de Nogueira se fez prumo certeiro, e o tempo nunca lhes escapou entre as mãos, aliás soube a um contínuo ainda que feito de temas separados mas que se sorveram com se fossemos levados num planador sobre uma paisagem que melhor é descrita pelo som — este!


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