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Texto: ReB Team
Ilustração: Carlos Quitério
Publicado a: 28/01/2026

De Conan Osiris a Fourward.

Os melhores álbuns nacionais de 2025

Texto: ReB Team
Ilustração: Carlos Quitério
Publicado a: 28/01/2026

Sem corridas, até porque o melhor estava reservado para o fim. Como vem sendo hábito, o Rimas e Batidas tirou o mês de Janeiro para ponderar sobre a criação musical colhida no ano transacto e apresenta hoje a lista dos discos que mais marcaram esses últimos 12 meses de escuta atenta — alguns dissecados por cá de forma mais aprofundada ao longo de 2025 (e início de 2026), outros que o tempo não nos permitiu abraçar em escritos da forma merecida, mas suficientemente impactantes para que não os pudéssemos deixar passar despercebidos em época de balanços.

Fruto de um processo de votação democrático entre a nossa redacção, a lista que se segue coloca em destaque um total de 30 discos nacionais que deram muita cor aos nossos dias no decorrer do último ano. A selecção vem dividida em duas partes — um top 10 ordenado e comentado, mais 20 menções honrosas — e demonstra uma vez mais a pluralidade que advém das várias cabeças que ajudam a pensar e a executar o que se vai manifestando diariamente nas páginas do ReB — da pop mais inventiva e delirante ao hip hop que borbulha como lava no subsolo. Ora sirvam-se lá e façam bom proveito.


[Conan Osiris] XENONEXO

O rei voltou e veio nu. Incisivo e igualmente divertido, Conan Osiris despiu-se de qualquer filtro imaginável para nos dar um digno sucessor a ADORO BOLOS, esse importante disco de 2017 que virou objecto de culto da noite para o dia. Em XENONEXO, o feiticeiro da pop nacional foi ainda mais generoso na quantidade da poção que preparou no seu caldeirão — são 20 faixas que roçam um total de uma hora de duração — e nós, sedentos, emborcámos tudo goela abaixo como se não houvesse amanhã. A quatro dias do fecho de 2025, o LP veio com pujança suficiente para nos baralhar as contas e escalar até ao topo das obras mais veneradas por cá relativamente ao ano transacto. Dos resquícios de um fado moribundo às euforias da eurodance, da crítica social à ironia cultural: XENONEXO é um daqueles discos completos que não deixam dúvidas quanto ao impacto que deixarão na história.

— Gonçalo Oliveira


[Femme Falafel] Dói-Dói Proibido

A estreia de Femme Falafel em formato longa-duração ataca em todas as direcções. Os instrumentais são orelhudos, fazem arregalar os ouvidos para os escutar com atenção. As letras são jocosas, desenham sorrisos e convidam a reflexões, às vezes até na mesma música, como no caso de “Livre Arbítrio”. Raquel Pimpão viaja entre aventuras feudais, escapadinhas com fogosos de brinco na orelha e pérolas musicais romenas do início do século XXI neste seu Dói-Dói Proibido. Pelo caminho ouvimos também observações sinceras sobre a depressão e a bola de espelhos cintilante com que Pimpão se defende desse estado nefasto. O resultado é um projecto que tem tanto de harmonioso como de chistoso. A arriscada mistura entre humor e música foi uma aposta certeira de Femme Falafel na primeira etapa de uma carreira que se augura entusiasmante e fora-da-caixa.

— Miguel Santos


[Vaiapraia] Alegria Terminal

O regresso de Vaiapraia aos álbuns não desapontou. Em Alegria Terminal, Rodrigo Vaiapraia apresenta algumas das canções mais cruas da sua discografia. Se 100% Carisma (2022) possuía alguns acabamentos mais pop, as malhas de Alegria Terminal reaproximam Vaiapraia da crueza e fragilidade de 1755 (2017). Não há dúvida de que este é um longa-duração preenchido por magníficas e sinceras canções, capazes de encher o coração e a alma, e de que, entre Londres e Lisboa com a ajuda de amigos, Vaiapraia construiu um estupendo manifesto rock que merece ser escutado uma e outra vez. Magnífico.

— Miguel Rocha


[Real Guns] Son of Gun (SoG)

1978, Laranja e Limão foram já de si valorosos prelúdios do que Real GUNS ainda tinha por desvendar ao cair do pano de 2025. O sucessor de DAVIDS haveria de chegar já no último mês do ano, ainda a tempo, porém, de entrar com propriedade para estas contas. E Son of Gun revelou-se, afinal de contas, o melhor trabalho do rapper luso-são-tomense até à data, ele que nos últimos anos se tem afirmado como uma das vozes mais entusiasmantes do hip hop nacional. De rima afiada em crioulo, GUNS mostra-se neste SoG — que pede emprestado o nome da marca de streetwear portuguesa com quem acabou até por colaborar por ocasião deste lançamento — mais maleável que nunca, graças também a valiosos contribuintes em sede de batidas, tais como Gringoo, MYQUE (fka MikelPotter) ou até Tom Freakin’ Soyer. Sempre com uma componente visual irrepreensível a complementar a sua música já de si brutalmente documental. Rap do mais puro e duro que se pode pedir, sobretudo em tempo de marasmo no género por cá representado.

— Paulo Pena


[Mão Morta] Viva La Muerte

Vivemos tempos perigosos e tempos assim exigem música real, com ímpeto revolucionário, música capaz de acordar gerações e de fazer estremecer corpos e espíritos. Os Mão Morta compreendem isso como poucos e respondem aos tempos com uma obra urgente, vívida e carregada de um nervo singular. A histórica banda de Braga não se curvou sob o peso do tempo nem se abrigou à sombra de conquistas passadas, e com a poética de José Mário Branco bem encaixada no seu rock de combustão lenta entregaram-nos em Viva La Muerte um dos mais veementes alertas, fazendo saber que a luz que se vê lá ao fundo não é a que anuncia o fim do túnel, antes o farol da locomotiva do apocalipse fascista em desgovernada aceleração sobre o mudo.

— Rui Miguel Abreu


[Tilt] MIASMA

O obscuro universo de Tilt ganha uma nova divisão, um MIASMA que tem tanto de belo como de bizarro. Antagonizou a sexta-feira, dia 13 de Junho em que o lançou, tornando-se o dia de maior sorte de 2025 para quem é entusiasta daquele real rap. Com o hip hop tuga ligado às máquinas, MIASMA é um género de injeção de células estaminais: rimas de grande quilate, produções do mesmo nível, et voilá: é passada certidão de óbito de uns quantos fakes que já estavam a apodrecer numa gaveta. O único defeito deste EP é mesmo a sua brevidade, mas mantemos a calma, pois o primeiro longa-duração do rapper poderá chegar em breve — esperemos que seja mais uma sexta-feira 13 azarada cheia de sorte. Ao seu ritmo, Tilt afirma-se cada vez mais como um dos, senão mesmo o melhor liricista dos tempos modernos na cultura nacional. MIASMA é sinónimo de breu mas brilhou como poucos em 2025.

— Carlos Almeida


[Hetta] Acetate

Em Acetate, os Hetta confirmam que são mais do que uma “simples” banda de skramz. Antes, entre a explosividade e os gritos de Alex Domingos (voz) escutados em Headlights (2022) e nos singles seguintes, escutava-se um desejo de ir além da clara devoção da banda oriunda do Montijo a grupos como os Orchid ou pageninetynine. Agora, no seu longa-duração de estreia, Alex Domingos, João Pires (guitarra), João Portalegre (bateria) e Simão Simões (baixo) soam como se os Fugazi fossem fechados dentro de uma cave com os Converge e com os At the Drive-In e fossem obrigados a andar à porrada até que música fascinante fosse criada ali dentro. Essa é a nova versão dos Hetta: uma banda de pós-hardcore já quase perfeita e ainda com tanto para dar.

— Miguel Rocha


[Raquel Martins] LONDON, WHEN ARE U GONNA FEEL LIKE HOME?

A questão que Raquel Martins coloca em LONDON, WHEN ARE U GONNA FEEL LIKE HOME? é reveladora. A expatriada guitarrista e compositora do Porto deu provas de feliz encaixe na cena londrina, tendo colaborado com vários nomes da nova geração da cena jazz local e conquistado aplausos de diferentes instituições, de Jools Holland à BBC. Ainda assim, neste belíssimo e intimista trabalho, Raquel mostra-se deslocada, sensação compreensível em quem abandonou o conforto de uma realidade familiar e social para partir numa demanda de descoberta criativa, pessoal e profissional, artística e espiritual. A nossa sorte é que a música que Raquel tem criado para lidar com essas fundas questões tem sido partilhada, permitindo-nos perceber que lá longe, algures entre Shoreditch e Brixton ou entre Camden e Dalston, pulsa uma séria escritora de canções que é igualmente uma instrumentista, vocalista e produtora de mão cheia, tão preenchida de dúvidas e incertezas quanto de ideias musicais de plena elegância e luz.

— Rui Miguel Abreu


[Scúru Fitchádu] Griots i Riots

“Libertação ou morte”, gritou-se no final de Nez txada skúru dentu skina na braku fundu, e é com o mesmo impulso que arranca Griots i Riots. Num tempo em que o fascismo se reergue e em que os seus imaginários regressam, o novo álbum de Scúru Fitchádu transfigura a consternação em fúria organizada, recusando o panfleto, mas propondo uma política da escuta onde a raiva se converte em potência coletiva. Para isso mune-se da pulsão insurgente dos riots que a sua música sempre soube captar, mas também da sabedoria ancestral dos griots, que operam um pensamento de tempo mais longo, mas não menos atuante sobre as urgências do presente. Longe do brilho dos palácios ou das vanguardas iluminadas, ao terceiro disco Scúru Fichádu não perdeu a sujidade dissidente com que irrompeu na pasmaceira cultural lusitana, nem a densidade poética e ética com que foi moldando o seu trabalho. Em Griots i Riots, sentimos-lhe a força da pulsão inicial, mas também a maturidade de um músico que é poeta denso, um criador que escreve sobre o seu tempo e o seu povo, cúmplice da sua raiva latente e das utopias que se apoderam de todos corpos que se encontram a sua música.

— João Mineiro


[Xexa] Kissom

Kissom, como quem se interroga sobre que som é este que lhe irrompe do imaginário; como quem oferece um beijo — um kiss envolvido em cadências rítmicas vibrantes que fazem mover o corpo e, sobretudo, as possibilidades da imaginação. No seu novo longa-duração, Xexa dá mais uma volta espiralar em torno do seu Calendário Sonoro, para das suas Vibrações de Prata se abeirar de um trabalho concentrado no ritmo e que nunca soa ao já escutado. É uma viagem onde a sensualidade da experimentação, com as suas polirritmias possíveis, encontra novas formas para buscas ancestrais. Um abraço a ritmos que vêm de longe, mas que aqui se desconstroem em jogo e em dança. Uma forma de oferecer oxigénio às raízes, não apenas para contemplar a sua resistência ao tempo, mas também para imaginar as muitas flores que delas podem germinar. Se ainda não sabemos definir Kissom é este, é porque ele está vivo, pulsante e carregado de futuro.

— João Mineiro


[L-ALI] Nada Temas, Nada Temos a Perder

[Rafael Toral] Traveling Light

[A Garota Não] Ferry Gold

[Diogo] Saudades Das Raves A Que Não Fui…

[Capicua] Um Gelado Antes do Fim do Mundo

[Dj BeBeDeRa] Clássico

[Harold] O Último Malmequer

[Má Estrela] Tornada

[DopeFinest] SAMSARA

[Sam The Kid] Caixa de Ritmos III

[Marquise] Ela Caiu

[Três Tristes Tigres] Arca

[Benny Broker & Amigo Ivo] Respira Fundo

[HHY & The Kamapala Unit] TURBO MELTDOWN

[Redoma] Santos da Minha Mente

[Diagonal] Ponto de Fuga

[PACTO] EXÓRDIO

[Vanyfox] Melodias e Choros

[Amuleto Apotropaico] Amuleto Apotropaico

[Fourward] Freedom

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