Os Mandamentos do Moisés #8: Darás tempo ao tempo

[TEXTO] Moisés Regalado [ILUSTRAÇÃO] Riça

Em 2005, Tira-Teimas serviu para fazer esquecer o passado de Bellini, que tecnicamente estava a anos-luz do Regula que lhe sucedeu. Boss AC seguiu sensivelmente pelo mesmo caminho quando editou Preto No Branco, mas também o mais recente Patrão. NGA viu-se obrigado a provar inúmeras vezes aquilo que outros tiveram que mostrar uma única vez e Halloween não conquistou as preferências do público à primeira ou segunda porque, ao trazer novos formatos e abordagens, obrigou os ouvintes a recorrer a filtros com que nunca se tinham deparado. A lista daqueles que demoraram a convencer poderia continuar sem que houvesse fim à vista, existindo muitos outros que nunca chegaram ou chegarão a sentir o sabor do reconhecimento.

Jorge Palma, no activo desde a década de 1970, conseguiu pela primeira vez um disco de platina com Voo Nocturno, de 2007, e Fernando Pessoa foi, em vida e aos olhos da sociedade de então, um ensaísta, editor e escritor amador. Principalmente devido à sua tenra idade, o hip hop português ainda não serviu de incubadora para talentos tardios que nunca tinham dado cartas antes (o exemplo mais próximo será o de Né, do projecto Barrako 27) e é impossível saber se as gerações vindouras terão acesso a artistas do tempo presente que nunca chegámos a conhecer. A história e as probabilidades dizem que sim mas, perante a incerteza e a impossibilidade de tirar conclusões significativas, resta preservar a memória do que nos chega aos ouvidos.

 



O papel de plataformas online e tendencialmente universais como o Spotify ou a Wikipedia veio facilitar a organização de milhares ou milhões de discografias, e não interessa dissertar sobre o possível fim da tecnologia para desdenhar os arquivos digitais — quando e se assim acontecer, a humanidade terá, certamente, assuntos mais urgentes com que lidar do que a indexação da música rap. Tendo em conta que a documentação do passado, recente mas volumoso, do movimento estará longe de se encontrar completa, e que essa tarefa ainda depende quase exclusivamente da vontade dos militantes e de alguns curiosos exteriores a este universo, cabe também aos intervenientes mais directos fazer a sua parte pela preservação do conhecimento.

Claro que a barreira que separa o mercado da cultura dificulta o processo. Como é que se pede a Martinêz, afastado destas lides, que se dê ao trabalho de reunir e disponibilizar todo o seu espólio, ou a JackCrack que, mesmo sem retorno, insista e invista tanto tempo e dedicação quanto os profissionais? Como é que se diz a Regula que as dezenas de sites em que podemos ouvir a sua música continuam a ser insuficientes para imortalizar o seu trabalho em pleno — incluindo as participações com i2i ou New Max, ou aquilo que assinou enquanto Bellini? Claro que organizar uma discografia, criar um site e esperar que os ouvintes ou historiadores do futuro façam o resto não basta, mas, vistas bem as coisas, talvez esse seja um passo fundamental para a eternidade, a par da manutenção das estruturas já existentes e da criação de novos projectos.

O tempo pode sempre retirar do espectro da fama quem um dia a viveu intensamente ou coroar de forma póstuma quem nunca experimentou a glória, mas, fatalidades à parte, é essencial que o hip hop continue a alimentar a sua memória colectiva, sobretudo através de quem é ou foi parte integrante do mesmo. Números e playlists à parte, é mais o que une Boss AC, Halloween, Martinêz, JackCrack e Regula do que aquilo que os separa, e o futuro só lhes guardará o nome — e o flow, as rimas, as opiniões ou a identidade, que serão os factores realmente importantes — se cada um de nós souber o que cada um deles representou para o desenvolvimento da identidade que tem moldado o rap português.

 


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