Os Mandamentos do Moisés #7: Beefarás

[TEXTO] Moisés Regalado [ILUSTRAÇÃO] Riça

A solução governativa a que se convencionou chamar “geringonça” pode sugerir o oposto, só que a história e a tradição dizem que a esquerda política valoriza a discussão e o contraditório com mais convicção ou, pelo menos, barulho do que os partidos da direita. A falta de consenso entre PCP, BE e PS no que toca a tópicos supostamente comuns, como a eutanásia ou a legalização da canábis, é apenas um entre incontáveis exemplos — ainda que não faltem provas da capacidade de discussão da direita, ou de convergências à esquerda –, e uma das explicações para que assim seja pode, também, ser do interesse da comunidade hip hop.

“Por que raio é que o rap tem tantos beefs?” é uma pergunta que, volta e meia, se transforma em tema de conversa (quase sempre iniciada por ouvintes menos atentos que estarão alheios aos princípios da música hip hop). As comparações com a pop e o jazz, bem mais pacíficos, acabam por ser inevitáveis, ou mesmo com o metal, violento na forma mas cavalheiresco no trato. Não será bem assim: Buddy Rich, baterista de jazz nascido no início do século XX, não era reconhecido pelos dotes de camaradagem e chegou a dizer que “If you don’t have ability, you wind up playing in a rock band”, num ataque aos colegas do rock mas também do jazz. Em 1993, Varg Vikernes, líder da banda de black metal Burzum, assassinou Øystein Aarseth, guitarrista dos Mayhem. Sobre desentendimentos no seio da pop… Bem, talvez seja suficiente falar em Lennon e McCartney ou Slash e Axl Rose.

Dirão alguns que, ainda assim, o formato “beef” é, na prática, um exclusivo do rap, e o mais provável é que tenham razão. Mas não porque a pop seja pacífica, o metal cavalheiresco e o rap violento ou egocêntrico. A exposição pública, os investimentos associados e o convívio entre os intervenientes da pop (como, por exemplo, nos bastidores, ou em acções concertadas) dificultam a materialização do conflito — por isso é que há mais “beefs” entre youtubers do que entre actores de novela. No que ao rap diz respeito, será uma questão de ego, sim, mas, acima disso, uma prova de gestão do mesmo e da sua utilidade ao serviço da comunidade.

Afinal, manda a lógica que o egocêntrico, expoente máximo da certeza e da confiança, mostre “preocupação apenas ou maioritariamente com os seus assuntos”, e nenhum egocêntrico seria capaz de dedicar (oferecer, consagrar, destinar) parte da sua obra a terceiros. Mesmo que o objectivo seja o benefício pessoal, até porque isso significaria que o ego ainda persegue as tais certezas e a dita confiança. Talvez a esquerda apresente maior tendência para o debate interno, bem como o rap, porque persegue utopias ideológicas, ou artísticas, antes de se dedicar às questões mercantilistas ou orçamentais que vão entretendo a direita ou a música pop.

 


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