Os Mandamentos do Moisés #5: Não duvidarás da revolução

[TEXTO] Moisés Regalado [ILUSTRAÇÃO] Riça

Afinal, o rap e o hip hop começaram como movimentos festivos ou revolucionários? A organização dos primeiros DJs e MCs, profundamente comunitária, teve como objectivo primordial o combate à criminalidade e ao poder instituído, ou a diversão em si mesma era, antes de mais, a principal finalidade? A resposta, nunca absoluta, é, mais do que um prato pronto a servir, uma receita que vive da mistura desses ingredientes.

O dicionário online Priberam define “intervenção” como uma “acção conciliadora”. Sobre “revolução“, a definição é mais vasta e contempla a astronomia, a física, a geometria e a mecânica, mas uma das entradas mais interessantes fala numa “perturbação moral, indignação, agitação”, acrescentando “náusea, repulsa, nojo” como sinónimos do substantivo que, em última análise, representa uma “modificação em qualquer ramo do conhecimento ou pensamento”.

O que é, então, rap interventivo? Sobre a mensagem trotskista de Valete em “Anti-Herói” ou contestatária de Chullage em “National Ghettografik”, autênticos ícones, não vale a pena dizer muito. Marcos de semelhante envergadura, no entanto, não aparecem todos os dias e a revolução, que se faz sem folgas, não pode esperar. Normalmente contra a corrente, e sem que ninguém se aperceba de algo, à excepção de uma certa “agitação”, são vários os nomes a participar activamente no desenrolar da história.

 



Partindo do princípio que intervenção é efectivamente uma “acção conciliadora”, não há melhor exemplo que o da Monster Jinx. Em 2009, ano de nascimento de Monstro Robot (não confundir com o monstro roxo que lhe deu vida), a label independente inaugurou um novo paradigma ao conciliar MCs, produtores, DJs, designers e fotógrafos. Artistas do norte, centro e sul de Portugal sob o mesmo tecto. Com distribuição online e gratuita, na vanguarda de plataformas que, mais tarde, ficariam virais.

A cronologia do rap português já registou tentativas semelhantes, como a No Karma de Sarcasmo ou a Astro Records de Vilão, mas, além da Monster Jinx, só a Think Music parece reunir os requisitos fundamentais para continuar a marcar a cronologia do hip hop tuga, destacando-se como o maior aglutinador de novos talentos em território nacional (YUZI, benji price, Lon3r Johny), sem olhar à sua origem, e desde que as propostas arrastem consigo, à escala portuguesa, o factor novidade.

Se a palavra de ordem é “conciliar”, não há como esquecer a Superbad, uma super crew que se prepara, cada vez mais, para ser uma super editora. Bem como o trabalho de Condutor, que, além de ter sido homem do leme em Ngonguenha e Buraka Som Sistema (outros game changers), dirige agora o mais famoso colectivo de Vialonga. Ou o mérito de Regula que, a solo, também interveio no rumo da história, ao reconciliar os ouvintes de rap com as pistas de dança e o público generalista com a música rap.

Já ninguém tem dúvidas quanto à validade dos palcos e dos clubes como motores de mudança, num pólo oposto ao dos movimentos políticos, sociais ou associativos. Na verdade, a maior parte das revoluções ainda vive nos bastidores desses universos, nos laboratórios onde tudo se pensa, faz e diz. Quando a “perturbação moral” ou a agitação derem sinais, já a história estará pronta a escrever, antes sequer de alguém perceber, incluindo os próprios, que nada mais será o mesmo.

 


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