Os Mandamentos do Moisés #2: Farás parte da história

[TEXTO] Moisés Regalado [ILUSTRAÇÃO] Riça 

É impossível dizer que há mortes melhores ou piores, ou sequer perceber o que isso significa, mas é praticamente certo que o burburinho causado por alguns óbitos ajuda a olhar para uma situação irremediavelmente trágica, como a morte, sob uma perspectiva positiva que de outra forma seria impensável. Entre Jim Morrison ou Tupac, venerados em vida como depois dela, e Fernando Pessoa ou Van Gogh, ilustres desconhecidos que passaram ao lado de uma grande carreira, o leque de hipóteses é incontável. Mesmo sendo impossível dizer que futuro terão as memórias de Aretha Franklin, o seu percurso de vida presenteou-a com as melhores distinções que um artista pode ambicionar, e o hip hop, mais do que provar que as homenagens devem ser feitas em vida, pode vir a ser essencial para a preservação da história.

O sampling, mas também as referências, cujo papel na recuperação do passado é inegável, funciona também para alimentar o futuro e para manter o presente — samplar um artista que fez sucesso há um par de décadas não significa automaticamente que o mesmo já tenha falecido. Sem fontes, ingrediente principal para que a história seja feita, não há verdade, apenas suposições. E hoje, como aconteceu no passado e como provavelmente acontecerá no futuro, próximo ou distante, a relevância mede-se, sobretudo, por referências. Por referências, entenda-se tabelas de vendas, notícias, registos de concertos… E samples, claro está. No caso do rap, as referências podem ser apenas referências, literalmente. No panorama norte-americano, foram vários os rappers que ao longo dos anos beberam nos clássicos de Aretha Fraklin:

“One verse could turn your soul to ether
It’s time you gave me my respects just like the old Aretha” – Method Man

“Contemplating, there is no bond with Satan
Say a little prayer for me like Aretha Franklin” – NAS

Como intérpretes de um estilo com espaço praticamente ilimitado para a palavra, os rappers acabam por ser agentes privilegiados para, mais do que ficar na história da música (na sombra das ditas referências), fazer parte da ciência histórica, como transmissores de conhecimento e, quem sabe, como fontes futuras. O que um MC escreve hoje, por influência de um documentário ou de um filme de animação, pode até tornar-se útil no futuro, quando os historiadores quiserem descobrir os séculos XX ou XXI — não que haja essa obrigação moral. O estado da arte e a história do movimento, enquanto registo quase competitivo, devem continuar a ser prioritários. Melhor ainda se, por consequência, o espólio da música e do movimento hip hop acabarem por contribuir para a conservação e posterior evolução do conhecimento.

As referências bibliográficas de Estraca ou Valete não são, por si, parte da história do tempo presente, só que representam uma certa sabedoria que se manteve actual. E é bastante provável que “Serial Killer“, de Valete, mas também “P.M.W.“, de Zara G, ajudem um dia a construir o retrato do movimento e do país. Talvez o intemporal seja um dos objectivos mais perseguidos por alguns dos que fazem rap, que normalmente evitam tudo o que possa datar as músicas, mas isso não significa que não haja espaço para o que é datado, e que esse não seja, até, um dos factores indissociáveis do hip hop. Sendo esta uma cultura que ultrapassa largamente as barreiras da música, alimentando-se do meio para depois se manifestar diante do mesmo, é quase essencial saber o que vestiam os rappers do passado, o que ouviam em casa dos pais e os livros ou as notícias que liam.

Há estigmas associados ao hip hop, por norma dirigidos ao hip hop “de hoje em dia”, que dificilmente perderão força. Diz-se, ou vai-se dizendo, que o hip hop feito actualmente é extravagante em demasia, que fala do leviano como quem fala no divino ou que promove uma linguagem inapropriada. Tal como se dizia do hip hop feito há dez, vinte ou trinta anos. Mas hoje, como há dez, vinte ou trinta anos, as pessoas, não só as que fazem rap, dizem palavrões, fantasiam o sexo e vestem roupas foleiras. E daqui a outros tantos, esses serão hábitos de análise tão fundamental quanto as séries que vimos, as conversas filosóficas que mantivemos ou as músicas que ouvimos, sejam elas da eterna Aretha Franklin ou do “Kanye, (que) não tem nada a mais que o Samuel“.

 


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