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Fotografia: Maiur Narendra

Os bons ventos do Norte que viraram o Estúdio Time Out do avesso

Fotografia: Maiur Narendra

Afirmar que Lisboa está com uma agenda cultural bastante preenchida não é exagero. Olhando apenas para a passada sexta-feira, por exemplo, existiam várias hipóteses dignas de consideração em pólos diferentes: Montanhas Azuis na Culturgest, João Pais Filipe na ZDB, DJ Nigga Fox no Musicbox e a festa do sétimo aniversário do Rap Notícias no Estúdio Time Out saltavam à vista nesse apetrechado calendário.

Antes de partirmos para o Mercado da Ribeira, aproveitámos os horários das entradas dos rappers em cena para darmos um pulo e vermos Bruno Pernadas, Norberto Lobo e Marco Franco em acção num dos concertos que claramente ficará na memória das mais de 600 almas que decidiram observar as “exóticas paisagens submarinas” em primeira mão.

A mudança de evento também obrigou à alteração do chip: o conforto da cadeira e a música instrumental foram substituídos pela pose de pé e a preocupação com as palavras e a maneira como são entregues. No entanto, um dado curioso e digno de nota: quatro MCs com estatuto de primeira e segunda linha do rap português num cartaz não chegaram para encher mais de meia sala. É aqui que se percebe que existe um caminho a percorrer no hip hop português, e faz-nos pensar. Os milhões de visualizações que estes nomes amealham no YouTube não são o suficiente para esgotar facilmente um recinto que, segundo uma peça do DN, pode receber 600 pessoas, mas um trio sem tracção mainstream e com cerca de 2 mil plays no YouTube consegue a proeza de meter mais pessoas noutro espaço na mesma noite.

Mas passemos às performances dos intervenientes. Estraca entrou em primeiro lugar e distribuiu uma dose generosa de boom bap interventivo com especial enfoque nos beats de Charlie Beats, que serviram para testar o sistema de som e nivelar as energias da audiência, que foi reagindo aqui e ali com algum entusiasmo.

À luz do seu beef com benji price, o principal prejudicado tem sido, e isto parece-nos óbvio, o autor de temas como “Palavras”, “Planeta Novo” e “BoomBap”. Ouvi-lo a debitar letras sobre “Carlotas” que adoram rap e agências e promotores que “sempre odiaram rap” torna-se um tanto ou quanto irónico quando vemos a audiência que se encontra na sala — sim, muitas “Carlotas”…

Ser arauto dos “reais” não pode ser só um artifício para se alimentar de uma divisão que nem devia existir à partida. Se realmente existe espaço para todos, é preciso que o foco deixe de ser o que se considera o outro lado da barricada. E é necessário que se sustente ideias e ideais com acções e factos para não se tornar naquilo que tanto se critica.

E não nos entendam mal — e hoje em dia é importante deixar tudo bem esclarecido: Estraca é um MC competente que, num contexto em que o rap português se tornou multidimensional, teria tudo para se assumir como porta-estandarte das rimas mais conscientes e interventivas. Porém, é cada vez mais difícil tomar nota das palavras de alguém que foi exposto e que se aproxima a passos largos de outro tipo de figura que tanto critica. “Um político divide a humanidade em duas classes: instrumentos e inimigos”. A frase atribuída a Friedrich Nietzsche encaixa que nem uma luva nesta situação…



Mas adiante. Directamente do Porto, Keso e Virtus (auxiliados pelo assertivo DJ Spot) juntaram os trapos para apresentar um coeso alinhamento de faixas que não têm idade. Como qualquer pedaço de boa literatura (ou de qualquer tipo de expressão artística, na verdade), a escrita dos dois MCs e produtores vive nas entrelinhas do espaço temporal e dissemina-se por todos os recantos imagináveis.

Ficou mais uma vez claro que João Rodrigues passou demasiado tempo nas margens do movimento — esperemos que o próximo disco resolva isso. “Figuras Públicas”, “Caminho De Volta” e “Sinónimos” já saíram há uns anos, mas “batalham” com bastante dignidade contra a frescura das recentes “Sono Profundo” e “Ainda Não Tem Nome”.

O Original Marginal continua a escolher os becos menos iluminados — os técnicos do Estúdio Time Out que o digam –, mas o público de quando em vez puxa-o para debaixo dos holofotes: “Gente e Pedra”, “Underground”, “Defeito Sério” e “BruceGrove” são clássicos que estão na ponta de língua de qualquer amante de hip hop português. Ao vivo, os seus trejeitos são magnetizantes: a teatralidade, que parece vir sempre de um local genuíno e improvisado, ajuda a tornar cada performance sua um momento irrepetível. Dificilmente vão ver dois concertos iguais de Marco Ferreira…

Dois amigos de longa data que, se um dia lhes apetecer, passam a ser a dupla mais temida da música portuguesa. Para repetir a dose n’A História do Hip-Hop Tuga na Altice Arena, em Março.



M.A.D.H.P. foi uma das desculpas para aguentar esta maratona de concertos até depois das duas da manhã. Para os mais desatentos, o novo disco de Phoenix RDC é uma colecção de bangers com narrativas tendencialmente pesadas e honestas sobre a vida em Vialonga.

A entrada em palco meteu respeito: mais de uma mão-cheia de homens nas costas do MC — fez lembrar a prestação de Kanye West nos BRIT Awards em 2015 — e “Coc&Weed” a galvanizar as pessoas que resistiram ao passar das horas. E logo aí mostrou o porquê da sua subida de popularidade nos últimos anos: tem uma atitude bélica que encontra poucos pares no cenário actual, e que lhe dão um valor diferenciador.

Um dos nomes que acompanhou Phoenix em palco foi Tekilla, que pareceu sempre um bocado deslocado de tudo o que se passava ali. Numa pausa no alinhamento do protagonista, a interpretação de “Tudo Duma Vez”, com acompanhamento de Laton Cordeiro, não foi certamente um dos momentos mais brilhantes da noite.

Outros temas como “Chiripiti”, “Dureza”, “12:00” e “Vencedor” ressoaram com impacto em praticamente todos aqueles que fizeram questão de marcar presença. Em tempos de fake news e violência policial, os relatos de Phoenix RDC ajudam-nos a compreender um mundo que grande parte das vezes está fora do alcance de quem não o vive na primeira pessoa.

Numa festa que contou com a presença de nomes como Holly Hood, Kappa Jotta ou Harold, a celebração — que também incluiu Três Pancadas ao vivo, actuações de DJ Perez e DJ Kwan e uma aparição especial de Ary Rafeiro –fez-se com conta, peso e medida, o necessário para marcar mais um aniversário de uma das plataformas que mais se tem dedicado à divulgação do hip hop em Portugal. E que merece, claramente, os parabéns de todos.


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