A História Do Hip-Hop Tuga: um quarto de século celebrado em quatro vertentes

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Hélder White

Agarrem na vossa melhor receita de bolo e comprem as velas: A História Do Hip-Hop Tuga está marcada para o dia 8 de Março, no Altice Arena, e assinala os 25 anos de vida de um género que tardou em afirmar-se em Portugal. O Rimas e Batidas marcou presença na conferência que serviu para apresentar o evento à imprensa e trocou algumas impressões com os artistas envolvidos e Sensi, da Faded, principal responsável pela organização do espectáculo.

It’s been a long fucking way, man.” As palavras são de Bambino, um dos primeiros MCs e produtores de hip hop a surgir no panorama lusitano, figura que tem acompanhado toda a evolução do género desde a sua génese. Através dos Black Company, Bambz é um dos participantes na histórica compilação Rapública, edição da Sony Music que, em 1994, abria a primeira e mais importante porta para a entrada do hip hop no mercado discográfico português. São os próprios Black Company que assinam aquele que será o mais clássico dos temas do cancioneiro rap do nosso país: “Nadar” foi a faixa de abertura de Rapública e não há quem tenha vivido na época e não se recorde ainda do refrão.

“De onde eu vim, para chegar agora onde eu cheguei…” Lembra Bambino, peça fulcral no xadrez do hip hop português, que vive hoje a sua golden age. “É o que não me faz desistir do game. São coisas que me fazem continuar a dizer às pessoas que sou músico e que acredito no que eu faço. Saber que a malta que está aqui — GROGNation, Holly Hood… — cresceram da semente que um gajo plantou. É uma cena do caraças. É a segunda vez que o Sensi dá o toque a um gajo e é com grande gosto que o aceito. Principalmente por perceber que, passados 25 anos, continuamos relevantes. Black Company, ‘não sabe nadar’… Em nome dos Black Company, quero agradecer o convite e que hajam mais edições. Que estejamos reunidos em mais edições.”

Em contraste, os GROGNation formam um grupo de artistas que milita na música urbana em Portugal há bem menos tempo do que Bambino e que goza dos privilégios adquiridos das “batalhas” ganhas pelos que lhes antecederam. Ao mesmo tempo, servem também de modelo para uma geração que ainda há-de surgir a dar os primeiros passos, fruto do impacto que o colectivo de Mem Martins causou em poucos anos de carreira. “Nós quando começámos só queríamos fazer música.” Começou por contar Factor. “Obviamente, quando começámos, tivemos sempre a fé e a vontade de vir a conseguir fazer o melhor possível, virar alguma coisa do avesso. Mas nunca pensámos concretamente que as coisas iriam ganhar estes contornos todos.” Tal como Bambino, os GROGNation estiveram também na edição de “amostra” d’A História Do Hip-Hop Tuga. Harold sublinhou o crescimento daquele que tem tudo para vir a ser o maior espectáculo de todos os tempos para a cultura hip hop em Portugal: “Nós já tínhamos estado na primeira edição. Basicamente, isto é uma continuação do que aconteceu no Verão, mas com proporções bem maiores e num espaço só dedicado a nós, ao pessoal do hip hop. Vamos contar um bocadinho da história e é um prazer para nós estar numa iniciativa destas.”

Bomberjack, Cruzfader, Kronic e Nel’Assassin jogam pela turma dos DJs; 12 Macacos e Gaiolin Street Breakers representam o b-boying; Nomen e Youthone são os writers de serviço; Ace & Presto, Bispo, Black Company, Bob Da Rage Sense, Boss AC, Capicua, Carlão, Chullage, Dealema, Deau, Dillaz, General D, GROGNation, Holly Hood, Micro, NBC, Nerve, NGA, Piruka, Phoenix RDC, ProfJam, Sam The Kid, Sanryse & Blasph, Sir Scratch, SP & Wilson, Tekilla, Tribruto, Vado Mas Ki Ás, Wet Bed Gang e Xeg são os Mestres de Cerimónias escolhidos para darem voz à história; Vhils é quem assina o cartaz do espectáculo. “É um momento que também fica para a história!” Garantiu Factor. “É a maior celebração do hip hop nacional. Nem sabemos se isto se volta a repetir.”

No final da apresentação d’A História Do Hip-Hop Tuga aos meios de comunicação, o Rimas e Batidas trocou algumas impressões com Sensi, que abriu um pouco mais o jogo acerca desta sua ambiciosa produção.

 



[Do Sumol Summer Fest ao Altice Arena]

“Isto não foi propriamente pensado. Terminámos o Sumol Summer Fest e ficámos com a ideia de que aquilo tinha sido único. Até porque a repetição banaliza. Isto foi pensado para ser um evento único e quem teve no Sumol sabe como é que aquilo foi. Esta segunda edição acontece porque surgiu uma hipótese de celebrar os 25 anos do Rapública. É uma data comemorativa e o nosso hip hop está de boa saúde. Acontece também porque houve uma introspecção a seguir ao Sumol, da qual achámos que podíamos fazer as coisas de uma forma ainda melhor ou, pelo menos, alongar mais a história. É também uma oportunidade para fazermos um espectáculo em que não somos “escravos” de um line-up de festival. Vai ser uma noite que viverá apenas deste espectáculo. Isso permite-nos ter uma abrangência muito maior — daí também a escolha do Altice Arena —, de modo a mostrar-mos que, em Portugal, temos muita música boa para encher esta sala, não apenas os músicos estrangeiros. E mesmo a nível de show, que é o que vamos trabalhar agora, queremos igualar ou até fazer melhor do que eles. Têm de ver que nós não estamos a dormir.”

 

[A história toda]

“Nós vamos ter as vertentes todas desta vez. Tivemos pena de não os termos conseguido reunir todos na primeira edição. Na verdade, e serve como uma auto-crítica, aquilo foi mais uma ‘história do rap tuga’. Agora sim, vai ser A História Do Hip-Hop Tuga. Temos as quatro vertentes presentes, com os pilares de cada uma delas. Os writers que estavam a pintar há 20 anos, os b-boys que ‘partiam’ as ruas… É isso que nós queremos ir buscar. Não é o buzz do hip hop que agora está em altas. São as pessoas que lá estiveram, que quebraram as barreiras e abriram as portas. Quem fez com que as pessoas que não ouviam hip hop passassem a ouvi-lo. A nossa intenção é que todas as pessoas que nos vêm ver, no dia 8 de Março, cantem as canções todas, do início ao fim.”

 

[Ambição nos preparativos]

“Os ensaios começam em Fevereiro. Até lá — e estamos nisto desde Janeiro — vamos continuar a trabalhar na produção do espectáculo, nos momentos e nas dinâmicas. Não é só música. Nós queremos mesmo ter uma produção que mereça a quantidade de artistas que conseguimos reunir até aqui. Estão a dar-nos um grande voto de confiança e nós queremos tornar isto numa cena mesmo memorável. Que os artistas internacionais olhem para nós como o Fat Joe olhou para nós no Sumol Summer Fest. Que esses artistas vejam os vídeos daquilo que se vai passar no Altice Arena. O pessoal não vai estar a brincar.”

 

[Quatro vertentes, um palco]

“Vai ser difícil ter tudo em simultâneo em cima do palco. As pessoas dispersam um bocadinho na atenção. Vamos ter a coisa organizada de forma a que todos os intervenientes tenham o seu momento de brilhar. Os writers e os DJs vão estar sempre no palco. Os MCs vão entrando à vez. Mas é tudo coisas que ainda estão a ser estudadas.”

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira