Montanhas Azuis na Culturgest: exóticas paisagens submarinas pintadas a seis mãos

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Vera Marmelo

Há uma possível leitura filosófico-política numa apresentação como a que os Montanhas Azuis ontem protagonizaram no Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa. A música que criadores como Norberto Lobo, Bruno Pernadas e Marco Franco assinam resulta, claro, de um impulso específico, de uma inquietação estética, de uma demanda puramente artística, intelectual, que pode nem sequer ter, na origem, qualquer conotação política. E a estreia poderia, claro, ter acontecido noutra sala, de outra natureza ou circuito, mas ter acontecido num espaço como a Culturgest rodeia-se de um particular significado num momento em que a instituição que a rege se vê envolta num escândalo relacionado com a perda de somas astronómicas em créditos nunca resolvidos e algo inexplicáveis para comuns mortais. Como nós. Como os Montanhas Azuis. Leva a pensar nas lutas que se travam em prol da Cultura e da dotação ao nível do orçamento de estado que não chega a um almejado e aparentemente tão modesto 1 por cento. Quanto pesam essas perdas, afinal de contas? E o que significa inscrever uma música tão livre de tudo — de um mercado, de uma qualquer “cena” — na programação de uma instituição como a Culturgest? Uma instituição que  também tem o dever de servir uma população mas que tem visto os seus orçamentos anuais sucessivamente cortados na última década. A lotação esgotada do Grande Auditório, ontem, diz-nos que poderia, afinal, haver mais espectáculos assim. Mais Montanhas Azuis. Ainda bem que tivemos esta.

O concerto de ontem foi absolutamente extraordinário. E também porque aconteceu na Culturgest. A música proposta por Franco, Lobo e Pernadas beneficiou das excelentes condições técnicas em que foi apresentada: o som estava absolutamente perfeito e a projecção das imagens de Pedro Maia em grande formato sublinhou o carácter imersivo da música contida em Ilha de Plástico, álbum de estreia do trio ontem mesmo lançado pela Revolve. E claro, o conforto daquela plateia ajudou à plena fruição de uma música que pede atenção e que convida ao abandono dentro do universo que desenha.

Na entrevista que nos concederam, Marco Franco e Bruno Pernadas referem a capacidade de geração de melodias como um elemento comum aos membros de Montanhas Azuis, uma marca da sua identidade. De facto, ontem, num palco em que Marco Franco surgiu à direita, com piano e sintetizador (Casio, de acordo com a já referida entrevista), Bruno Pernadas ao centro, com guitarra e sintetizador (também Casio), e Norberto Lobo à esquerda, igualmente com guitarra e sintetizador (Micro Korg), foram as melodias que se desprenderam de cada um dos pares de mãos que nos enredaram num mundo fantasioso, tropical, luxuriante, que parecia remeter para as pinturas de Gauguin do seu período no Tahiti ou talvez para o verdejante exotismo de Henri Rouseeau.

Como os mestres Martin Denny ou Esquivel que criaram fantasias exóticas no seio das suas orquestrações easy listening nas décadas de 50 e 60 ou os exploradores de um “quarto mundo” igualmente exótico, mas mais vincadamente electrónico, dos anos 80 e 90, como Jon Hassell ou Haruomi Hosono, também Marco Franco, Norberto Lobo e Bruno Pernadas ontem revelaram uma profunda capacidade de desenhar mundos imaginários e talvez até impossíveis.



O concerto abriu com as cristalinas notas do piano de Marco Franco, mas depressa Bruno Pernadas parece ter assumido a dianteira, falando uma “língua” alienígena através de um pedal ligado à sua guitarra, um “faux” japonês ou, quem sabe, polinésio, que só sublinhou em tons ainda mais carregados toda a aura exótica, como se o concerto nos levasse a mergulhar numa espécie de aquário sonoro, com as notas, as texturas harmónicas e as melodias a sugerirem uma espécie de mundo submarino habitado por incríveis criaturas multicoloridas, por corais de formas oníricas. Paradoxalmente, parece haver, de todos os elementos do trio, uma certa contenção, como se cada um deles estivesse a tocar marcadamente abaixo das suas capacidades técnicas nos respectivos instrumentos. O que acontece é que essa economia deixa muito mais espaço à imaginação.

Lobo também falou línguas desconhecidas e mostrou, especialmente nos momentos em que trocou o Korg por uma guitarra, que é um notável impressionista, capaz de pintar o espaço com delicadas e exuberantes melodias que ainda assim parecem viver suspensas tanto nas notas executadas quanto nos silêncios que as entrecortam. Marco é dono de um pianismo muito especial, minimal mas profundamente lírico, e os “tapetes” que sabe tecer no sintetizador remetem para um exotismo electrónico muito específico, devedor de uma época em que os primeiros Moogs e Oberheims serviam para inventar novas paisagens musicais, carregadas de possibilidades e por isso mesmo vincadamente livres. Finalmente, Pernadas, o elemento “livre”, que circulou por cada uma das “ilhas”, experimentando também os sintetizadores de Marco e Norberto, mostrando em cada momento uma insuperável classe e um preciosismo técnico que verdadeiramente hipnotiza quem nele se concentra. Juntos, estes três músicos soam quase como uma orquestra, o que é admirável tendo em conta não apenas a contenção na abordagem técnica aos instrumentos, mas também a relativa economia do “arsenal” musical disponível em palco.

Os temas são curtos, não são expansivos murais, antes pequenas, mas ultra-detalhadas vinhetas, cheias de vida, de cor e de riqueza melódica. Num par de momentos, uma caixa de ritmos programada em simples padrões, remete de forma ainda mais directa para um exotismo de VHS anos 80, como acontece em “Dezanove Acordes”, com cada um dos músicos a divagar em modo staccato sobre um escorregadio e ácido drone electrónico. Menos, aqui, é decididamente mais. E cada um de nós é afinal de contas convidado a ser um elemento activo na deambulação que cada peça sugere.

Sem falhas e de uma precisão quase matemática, a qualidade da performance dos Montanhas Azuis resulta também, presume-se, da possibilidade de preparação que, certamente, terá ligação directa às condições proporcionadas por uma contratação por uma instituição como a Culturgest. E volta-se à leitura política sugerida no arranque deste texto. Esta música que evoca flores de montanha, ilhas e corais, nuvens de porcelana e sururus tropicais não precisa da Culturgest ou de qualquer fundação para existir, mas nós, os públicos que a queremos aplaudir, beneficiamos e de que maneira de a podermos ouvir e ver neste contexto. Não tivessem tido lugar os tais cortes sucessivos e, quem sabe, talvez a plateia voltasse a estar cheia esta noite. E amanhã… É o que se pode concluir perante os aplausos efusivos e totalmente justificados no final do concerto.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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