Montanhas Azuis: melódicos e electrónicos

[TEXTO] Vasco Completo [FOTOS] Vera Marmelo

O concerto de apresentação de Ilha de Plástico, primeiro disco dos Montanhas Azuis, editado pela Revolve, acontece amanhã, dia 15 de Fevereiro na Culturgest, em Lisboa. O projecto junta Marco Franco, Norberto Lobo e Bruno Pernadas num contexto diferente para os três músicos. Ao vivo, Pedro Maia trata do lado visual que trará mais uma camada às paisagens de Ilha de Plástico.

À volta de sintetizadores, guitarras ou pianos, o trio percorre e experimenta diferentes espaços sónicos que “remetem para sul”, mas que surgem sempre enquadrados na música electrónica. Todos os músicos põem as mãos nos sintetizadores – cada um tem uma máquina predilecta para este trabalho – e são esses os “veículos” que facilitam a viagem até esta Ilha. Por lá encontramos texturas que nos remetem para um tempo analógico — e correspondente imagem granulada — que se estende ao longo de 30 minutos. Embora a experimentação tímbrica marque parcialmente a premissa dos Montanhas Azuis, este é um disco coeso e com pouco espaço para devaneios — as nove músicas nunca ultrapassam a marca dos cinco minutos.

Com percursos ímpares, incontornáveis e nada convencionais, os músicos que integram este projecto conseguiram criar um trabalho com uma homogeneidade e coesão assinaláveis. Marco Franco, que compõe a maioria das músicas deste registo de estreia, tem um percurso muito diversificado: habituámo-nos a vê-lo sentado à bateria em bandas como Mikado Lab e Memória de Peixe, mas em tempos mais recentes surpreendeu também ao apresentar-se, em regime solitário, ao piano. Norberto Lobo merece atenção a cada novo lançamento, tendo percorrido um longo caminho desde o seu folk experimental dos primórdios ao igualmente bucólico jazz de Estrela, o seu mais recente disco (no qual Marco participa como baterista). Quanto a Bruno Pernadas, vai orquestrando o seu dilatado colectivo numa amálgama estilística igualmente diversificada desde 2014, tendo nesse registo editado dois álbuns (How Can We Be Joyful In A World Full Of Knowledge e Those Who Throw Objects At The Crocodiles Will Be Asked To Retrieve Them) em que se fundem o jazz, o r&b, a música erudita ou o easy listening; na sua contabilidade pessoal há ainda que registar Worst Summer Ever, o seu mais “contido” — em “recursos humanos”, claro — álbum de jazz. No ano passado, o irrequieto Pernadas ainda teve tempo para produzir o álbum da banda japonesa Kikagaku Moyo.

Bruno Pernadas e Marco Franco encontraram-se com o Rimas e Batidas no Botequim, espaço localizado no Largo da Graça, e falaram sobre o processo que culminou no disco que vai ser então apresentado no palco da Culturgest.



De onde surgiram estes nomes tão visuais e geográficos para o nome do projecto e deste primeiro trabalho? Montanhas Azuis e Ilha de Plástico… Qual é que é a relação?

[Marco Franco] É uma boa pergunta. Estes nomes visuais, porque são visuais, vêm muito do Norberto Lobo e da sua óptica fluorescente e da forma dele ligar cenários, visões e imagens a palavras e a títulos.

Nenhum dos membros do trio tem um percurso propriamente convencional e se juntarmos os currículos todos vemos que há aqui experiências que se alargam do metal ao jazz, da folk à pop e que, de certa forma, e à falta de melhor termo, desaguam todos num terreno mais experimental ou exploratório. Juntaram-se porque têm interesses semelhantes ou precisamente porque são todos muito diferentes?

[MF] É uma pergunta difícil. Mas faz sentido. Montanhas Azuis já existiam sem este nome, sem o nome de Montanhas, em duo: eu e o Norberto. Queríamos ter um terceiro elemento. Não um colaborador, mas um terceiro elemento. E então, com o Bruno Pernadas, fizemos este álbum os três, que é o primeiro álbum.

[Bruno Pernadas] Sim, eu acho que há uma característica que nos une que é a facilidade com que cada um de nós consegue criar melodias de forma muito espontânea e às vezes essas melodias não precisam de ser uma linha melódica mas, por exemplo, às vezes… o Marco é que faz a maior parte das músicas e ele aparece com músicas em que a melodia está nos acordes, ou seja, na extensão mais alta dos acordes e não há propriamente uma melodia inerente a essa harmonia, mas a própria harmonia acaba por ter uma característica melódica. Não é uma condicionante, acaba por ser um reflexo desta facilidade e desta tendência que nós temos para criar música muito melódica, com muita facilidade. E então não são propriamente os estilos de música que cada um faz que nos unem – embora o Marco goste da minha música, eu gosto da música dele, eu gosto do Norberto, o Norberto gosta da nossa música – essas experiências acabam por se contagiar e acabar por traduzir nesta música que nós fazemos, sendo mais esperada ou não para quem conhece os nossos trabalhos anteriores.

Num ambiente experimental como o Ilha de Plástico, quão fácil foi definir o papel de cada um neste trabalho?

[MF] O papel ficou definido através da instrumentação, pelos instrumentos que cada um toca. É muito simples porque todos nós tocamos sintetizadores, portanto há esse elemento comum ao trio, à instrumentação e no caso do Bruno e do Norberto, como eles são guitarristas também, tocam guitarra e alternam no álbum.

Ok, pensava que tinham definido um guitarrista, mas tocam os dois.

[MF] Não, tocam os dois.

[BP] Não. Quero dizer, ao vivo tenho tocado só eu, mas no disco o Norberto também tocou guitarra. Vejo que num futuro próximo possa haver duas guitarras em palco, tranquilamente.

Teve graça exactamente porque, tendo ido buscar dois guitarristas, acaba por ser um instrumento que está muito presente, mas sem ser claramente o centro. Acaba por ser muito mais o sintetizador. Mas quando vi o artigo no Gerador também me chamou a atenção porque se referia que o Norberto tocou instrumentos muito peculiares, como a ocarina e flauta nasal.

[BP] Mas no disco não. Ao vivo, as vezes que tocámos, ele tocou ocarina, sim.

[MF] Mas não gravámos essa faixa. Fica para o segundo.

Centrando-nos na dimensão mais electrónica, há alguma razão especial para cada uma das máquinas que escolheram usar ou foi o que estava mais à mão?

[MF] São instrumentos que nós temos. Eu por exemplo tenho um sintetizador muito antigo que é um bocadinho difícil de encontrar, é um Casio. Está repleto de sons interessantes e tem muita qualidade para captar e isso tudo. Pronto, no meu caso isso é assim a minha base de som e de execução. Mas há também o piano, no álbum também tivemos a oportunidade de ter um piano acústico que gravámos, ao vivo também iremos ter. Pronto, esse setup individual, como te disse, são instrumentos que já conhecemos bem. O Norberto, por exemplo, tem um Micro Korg que ele conhece também muito bem, e usa aquilo de uma maneira muito própria dele. E uma outra pequena máquina que é uma espécie de… um gadget electrónico que também produz…

[BP] O Volca! Sim, nós tentamos também não usar muitos instrumentos. Eu também uso um sintetizador antigo, também é da Casio, trouxe da Alemanha, e achei que dos sintetizadores que eu tinha era dos que melhor se envolvia com os outros. Mas no futuro imagino o projecto a usar mais material electrónico. Mas sempre baby steps! Já é muito som, são três teclados a tocar ao mesmo tempo.

Marco, no teu Mudra focas-te na tua paixão pelo piano (que, mesmo assim, é mais sentido na 2ª metade do Ilha de Plástico), em Memória de Peixe e outros projectos dedicas-te mais à bateria. Porque razão quiseste voltar a centrar-te no sintetizador?

[MF] É porque eu também gosto muito da electrónica e do som dos synths e dos teclados e isso tudo. É uma coisa que… sempre tive teclados em casa e então estou também por dentro disso e gosto de fazer música diferente, de fazer música num piano acústico, e num sintetizador, não é? Os sintetizadores oferecem coisas diferentes de um instrumento acústico.

Informam-nos que a gravação deste disco deu-se em apenas dois dias, um método normalmente mais associado ao jazz. Houve algum lugar para a improvisação ou foram para a SMUP com ideias definidas do que iam fazer?

[MF] Nós levávamos a música já definida, mas houve espaço para a improvisação em termos de alterar estruturas, alterar sons, algumas melodias até. Mas isso acontece em dois dias porque a música já estava estruturada e integrada. Nós já não estávamos a aprender os temas, e então acho que foi mais jazz nesse sentido.

[BP] Sim, houve muitas músicas que acabaram por sofrer algumas alterações em relação aos temas originais como nós andávamos a tocar ao vivo. Ali acabámos por mudar algumas coisas ou seja, gravávamos, ouvíamos logo e íamos mudando algumas coisas. Nos instrumentos mudámos também bastante. Não foi uma coisa de fazermos pré-produção em casa e íamos para lá só gravar, não foi assim. Realmente foram só dois dias mas quase que foi uma mini-residência.

Residência de 48 horas!

[BP] Sim.

É interessante exactamente por serem dois dias, porque normalmente é muito mais associado a ir com as coisas preparadas.

[BP] Ou música improvisada, não é?

[MF] Por acaso foram três dias, o nosso técnico é que chegou no segundo dia, só…

[BP] Exacto, é verdade. Nós fomos para lá… E foi no final do Verão, estava sempre imenso calor, tínhamos de parar para vir cá fora respirar.

[MF] Sim, mas tivemos tempo de sobra para montar tudo…

[BP] Final do Verão não, desculpa. Foi a meio do verão.

[MF] A meio do Verão, sim.

Tendo em conta o âmbito experimental que ronda o Ilha de Plástico, é curioso ao mesmo tempo que todas as faixas andam em média pelos três minutos, exceptuando a “Marianas”, que ultrapassa a marca dos quatro minutos. Houve uma intenção de não exceder a duração da canção normal? Foi uma coisa pensada?

[MF] Sim, eu acho que todos nós partilhamos esta coisa do formato de canção ser uma espécie de miniatura em que se sintetiza uma ideia duma coisa, mesmo sendo música instrumental. E estes tempos pareciam-nos assim adequados, sem serem demasiado curtos ou demasiado excessivos.

[BP] Não fazia muito sentido. Sendo que ao vivo às vezes fazemos isso, ficamos um bocadinho nos finais, mas funcionou muito com base na intuição. Nós estávamos a gravar as primeiras experiências, dissemos “está bom, não está?” e concordávamos logo os três em relação à duração de cada tema. Não é que estivesse pré-estruturado que os temas iam ser curtos, podia não ter acontecido. Foi mesmo uma coisa de sensibilidade em que nós os três concordávamos.

Conseguem apontar música, discos, autores como referência ou pelo menos nomes que habitem um mesmo espaço que Montanhas Azuis?

[MF] Sim, acho que sim.

[BP] Há aquele músico que toca órgão, que estudou música clássica. Não me estou a lembrar do nome dele. Tem aquelas tipo…

[MF] O Terry Riley.

[BP] O Terry Riley é uma referência. Não é uma influência mas é um músico de que nós os três gostamos e que às vezes o nome dele surge nos ensaios, mas não é… não sei, lembrei-me agora. Se calhar isto não é assim tão accurate.

[MF] O Mort Garson com o Plantasia, que é um álbum todo feito em Moog, mas é assim, estamos a falar de dois gigantes que são influências sempre. Existirão muitas outras.

Nesse sentido, como vêem também o panorama da música electrónica ou experimental nacional?

[BP] Em música improvisada acústica há nomes muito fortes no panorama nacional. A nível de música electrónica não conheço assim muitos músicos portugueses. Eu sei que há e que existem mas eu não conheço assim muitos. Na música improvisada, exploratória, pessoalmente gosto muito do Rodrigo Amado, que aliás já gravou discos com o Marco.

[MF] Acho que o panorama está de boa saúde nas suas diversas fontes.

[BP] Acho que há muita gente a trabalhar nesse sentido, e com muitos projectos, e há muitos espaços em Lisboa que acolhem muitos músicos que trabalham na música exploratória e experimental. Eu é que não tenho assim de repente nenhum nome. Há um músico que eu também gosto muito que é o Pedro Lopes, que mora em Berlim e que para mim é assim dos melhores DJs – não no sentido de passar músicas, mas de utilizar os pratos e a mesa de mistura, e os samples e o próprio prato como uma forma muito original e muito séria que eu nunca vi muita gente a fazer. Desde o uso da correia do vinil, até a base de borracha que ele tira e põe folhas, às vezes põe assim uns pauzinhos… Eu acho que na música experimental e exploratória o Pedro Lopes é dos músicos que eu tenho como maior referência. Ah, e claro, o rapaz que faz os sintetizadores, o André Gonçalves, também. Acho que na música mais exploratória e electrónica também é uma boa referência a nível nacional.

Vi um concerto incrível dele na ZDB, a abrir para uma produtora espanhola muito fixe.

[BP] Ah, estás a falar da JASSS? Eu ia trabalhar com ela, na verdade eu era para ter feito esse trabalho do arranjo para coro com ela, só que surgiram muitos trabalhos ao mesmo tempo e eu tive que delegar. Mas conheço bem o projecto, ouvi muitas vezes. Mas acabei por nem sequer poder ir ao concerto, nem fazer esse projecto.

No artigo do Gerador há uma referência ao Pedro Maia como responsável pela componente visual de Montanhas Azuis. Têm vídeos no forno para acompanhar este disco?

[MF] Para já, a colaboração do Pedro Maia vai-se focar no concerto da Culturgest. Em termos de vídeos futuros há uma possibilidade de se fazer um videoclipe, mas só depois desse primeiro encontro é que…

[BP] É que vamos perceber como é que vai funcionar. Mas sim, ao existir um videoclipe, muito provavelmente será o Pedro Maia a fazer a montagem de imagens.

Fica então como o quarto elemento dos Montanhas Azuis.

[BP] Sim, eu acho que nos concertos em que for possível ele estar presente – também temos que perceber como funciona esta primeira experiência –, mas acho que faz todo o sentido.

Para além então da intervenção do Pedro no concerto, o que conseguem já adiantar-nos quanto à apresentação do disco na Culturgest?

[MF] Então, como é que se responde a isto, não é? É um concerto de apresentação do álbum. Quem for, o álbum vai estar disponível em CD e cassete…

[BP] Em CD.

[MF] Em cassete também.

[BP] Cassete não sei. Vamos fazer, mas não sei se vai estar pronto no dia da apresentação. Mas sim. Mas vai haver surpresas. Não vai ser só um concerto com três pessoas a tocar música, vão haver surpresas a nível cénico, e a nível performativo.

É cedo para falar do futuro, que o disco ainda está para sair, mas há a previsão para mais trabalhos com este projecto?

[BP] Acho que sim, acho que vamos continuar a explorar e a fazer coisas. Depois logo se vê se se acabam por traduzir em discos, mas vamos continuar, sim.


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