ORTEUM: “Queremos potencializar todo o cenário underground e independente”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS & CAPTAÇÃO DE VÍDEO] Sebastião Santana [ASSISTENTE DE CAPTAÇÃO DE VÍDEO] João Valentim Rodrigues [EDIÇÃO DE VÍDEO] Luis Almeida

Volvidos mais de 10 anos desde a sua fundação, os ORTEUM chegaram a um patamar inédito na sua carreira com a edição de A Última Gota, o primeiro álbum numa discografia em que víamos apenas as mixtapes ORTEUM e Perdidos & Hashados.

Tilt, Nero e Mass foram os “sobreviventes” de um colectivo que juntava um sempre incerto número de adolescentes, que na viragem para a presente década levava o hip hop como mote para convívios, partilhas de conhecimentos e competições saudáveis de skill na arte do manuseio da rima.

É na passagem a trio que as metas traçadas para ORTEUM se tornam mais ambiciosas, passando a ser clara a vontade de rentabilizar o projecto sem que este perca a sua essência. E apesar do hip hop estar em constante mutação e cada vez mais se aproximar dos contornos da música pop, a verdade é que continua a existir espaço para artistas que criam rap honesto em estúdio, cujo protesto se prende na detecção das lacunas que a massificação da cultura nascida no Bronx apresenta, alertando os seus militantes para que a sua música seja feita com base em propósitos dignos e não apenas como mera forma de negócio.

Em entrevista ao Rimas e Batidas, os ORTEUM falaram sobre este último pingo da Pipa de Vinho, que também simboliza a transição para um projecto ainda mais ambicioso e que se quer expandir para além do rap.



Já lá vão uns 10 anos de ORTEUM…

[Tilt] 11 anos. ORTEUM está com 11 anos.

Como é que nasceu esta ideia para o álbum de estreia? Lembro-me de vocês terem falado sobre vários projectos para suceder ao Perdidos & Hashados, mas entretanto a coisa deu uma volta de 360°.

[Tilt] Basicamente nós queríamos lançar alguma cena. Estávamos com boas faixas aqui no estúdio e… basicamente foi um acidente. Quando demos por nós tínhamos um álbum. A ideia era criar algo mais descomprometido, mas, na nossa opinião, conseguimos uma certa qualidade na matéria, que nos permitiu lançar como um produto que não seria uma lost tape. Neste caso seria uma last tape, devido a questões que vão surgir no futuro. Foi basicamente um acidente. Quando demos por nós tínhamos um álbum.

Quase como uma compilação dos melhores temas de todos esses projectos paralelos em que estavam focados na altura?

[Mass] Acabou por ser uma compilação, não é?

[Tilt] Sim.

[Mass] Foi um processo natural. Demos por nós e tínhamos o álbum, que inicialmente era para ser um EP. Dada a quantidade de faixas que tínhamos, passou a álbum. No fim achámos que faltava ali uma participação e chamámos o Beware Jack, que veio dar outra força à cena. E ya, ficou um álbum.

[Tilt] Nós, nos registos anteriores, foi tudo neste formato que é: dás por ti com uma carrada de faixas gravadas, compilas a cena e lanças em formato de mixtape. Foi um bocado esse o cenário aqui. A diferença é que, neste projecto, não tivemos as faixas tanto tempo presas. Isso aconteceu, se calhar, com duas faixas, que ficaram mais presas — em que entram o Johny Gumble e o Benny B e o Elliot. De resto, comparativamente a essas, é tudo mais recente.

Em que altura é que esses temas foram feitos?

[Nero] Como o Tilt estava a dizer, temos faixas mais antigas, que são de 2015. As do Gumble, Benny B e Elliot. Depois lançámos o Perdidos & Hashados e estivemos algum tempo sem ter estúdio. O processo deu-se desde o momento em que montámos isto até agora.

E o que estavas a perguntar há pouco, sobre o compilar das faixas de outros projectos… Não é bem assim, até porque continuamos a gravar para alguns desses projectos. Estas foram as melhores faixas que gravámos neste registo. E como todas as produções são originais acabámos por olhar para isto como um álbum. Foi tudo feito da mesma maneira, como de antes. Fomos fazendo e as coisas foram aparecendo. Mas desta vez, por acaso ou não, todas as produções eram originais. Fazia muito mais sentido apresentar a coisa como um álbum.

[Mass] Acabou por não ser um acaso. Acabou por ser uma ideologia que nós tentámos implementar para nós.

[Tilt] Chegámos a uma altura em que nós deixámos de querer ter cenas da net. É melhor para nós e promove as pessoas com quem trabalhamos. É melhor para todos, no fundo. Ter um produto totalmente original e exclusivo. Português, de preferência. Para nós faz toda a diferença. É o nosso primeiro álbum, mas teve um processo até semelhante ao das mixtapes. Fazes e dás por ti “foda-se, tenho aqui uma cena bacana”.

A escolha dos beats também remete para esse processo de mixtape, porque vocês não trabalharam directamente com nenhum dos produtores, certo? Isto é material que vos vão enviando com o passar do tempo?

[Tilt] Na verdade temos aqui beats com uns 10 anos, se não me engano.

Os do Metamorfiko?

[Tilt] Ya, ya, ya. Tu hoje vais ouvir as cenas do Metamorfiko e são completamente díspares daquilo que nós trouxemos para este CD. E vou-te ser honesto: nós ainda temos aqui beats dele que eu gostava de usar, desse tempo. Porque nós identificamos-nos com esse tipo de sonoridade mais clássica. Isto vem de um processo de aprendizagem do Metamorfiko. E são bons. O que interessa é que se forem bons nós queremos usar.

Mas sim, é como tu disseste. Não temos uma produção direccionada, principalmente na questão da pós-produção. Estamos a falar de beats de há 10 anos, que se calhar não existem pistas desses beats de há 10 anos. Estás obrigado a entrar nesse registo de mixtape. As alterações e a produção que tu podes adaptar às vozes e ao produto acabam por não existir com tanta facilidade. No entanto, aquilo que nos interessa é se o produto é bom e se nós nos identificamos com ele.



Se formos falar das letras que escolheram para A Última Gota dá para perceber que o rap tuga ainda continua uma merda. É uma extensão ao que tem sido o vosso protesto.

[Tilt] Na génese do rap existe esta questão do protesto, de lutar por algo melhor. De criar uma espécie de atenção sobre o negativo, no sentido de identificá-lo e corrigi-lo. Isto funciona a nível social, económico… No nosso caso, centra-se muito na questão do movimento do rap. Sei lá. Todo o desequilíbrio a nível de projecção dos artistas face à sua qualidade artística… Não corresponde, às vezes, ao seu sucesso, à sua ascensão, à facilidade em chegar a determinados espaços. Quando, na realidade, tu tens outros artistas… Não somos só nós e não fazemos isto só por nós. E há muita gente que gosta da nossa voz nesse sentido, porque nós temos também a postura de chegar à frente e falar um pouco sobre isso. Também é uma conversa que eu já tive com eles [Nero e Mass], por ser uma representação da nossa própria sigla. Nós não estamos aí a bater festivais nem o caralho, mas teríamos qualidade para [o fazer]. Há qualquer coisa que tem de se furar, que é mais do que a questão da arte. E isso, pessoalmente, incomoda-me. Não estamos a falar somente de arte. Estamos a falar de questões de estratégia, de know-how e contactos, estás a ver? E isso ultrapassa a questão da arte.

Independentemente dos outros artistas da esfera do hip hop, por estarem, em conjunto, a ajudar nesta ideia do hip hop se estar a tornar popular, sentem que também para vocês já se começam a abrir algumas portas?

[Mass] Inevitavelmente a nossa música é de nichos. Nós fazemos a nossa arte. Há pessoas que se identificam e outras que não. É legitimo. A cena é que eu acho que hoje em dia, lá está, mais do que os artistas, há aquela máquina toda à volta. E o hip hop na tuga rege-se muito por isso.

[Tilt] E não há-de ser só no rap. Até mesmo para ires para um trabalho — tens de ter cunhas. Hoje em dia as merdas funcionam assim. E o que eu te ia a dizer é que, face à tua pergunta, isso nos ajuda a nós. Ainda que não seja promovido aquilo que nós achamos que é o melhor, o representativo daquilo que é a arte da rima. É mais fácil um mano que ouve qualquer dread que está aí a bater, “comercialão” mas que faça rap, passar daí para nós, do que um mano que ouça Ágata e vá passar para nós. Ao menos ele já entra num espectro. E aí facilita sempre. Acho eu.

Diz-se que o hip hop é a nova pop, não é? E vocês, fazendo música para nichos, esse nicho se calhar já tem tendência a ser maior do que há uns anos para cá. Pode ser um nicho sustentável.

[Tilt] Potencia bué os nichos. E hoje em dia é cada vez mais visível. Tens alguns casos específicos, como, por exemplo, o NERVE. É uma cena totalmente de nichos. E COLÓNIA CALÚNIA, por exemplo, que está a ter um crescimento também grande e é uma coisa de nichos. Na realidade, eu noto que o nicho está a ter capacidade de se expandir.

Indo ao título do vosso álbum, expliquem-me esta ideia de A Última Gota. Isto pode ter várias interpretações e é um tanto ou pouco enigmático.

[Nero] A Última Gota vem justificar a maneira como fizemos o álbum, tal e qual uma lost tape ou uma last tape, como é suposto ser. Porque seria o fim da Pipa de Vinho e a passagem para uma coisa mais séria. Foi juntar todas essas ideias. Em vez de ser uma last tape, é um álbum que é A Última Gota. É o fechar desta etapa para, a partir daqui, começar uma coisa ainda mais séria.

[Tilt] E remete-te para várias cenas. Pelo menos para mim. Tens a cena óbvia da Pipa de Vinho, ser A Última Gota deste cenário, ou deste mindset. Porque isto vai agora crescer para outra coisa. Mas remete para várias cenas. Tipo a cena da paciência, ser A Última Gota. A capa dedica-se um pouco à cena do vinho e também passa pela dúvida de ser sangue, estás a ver? Até parece que é o último esforço. O que não quer dizer que a gente pare por aqui. Mas estou a dizer aqui coisas que me fazem associar a essa ideia. Até mesmo ao longo do CD, sem querer, acabámos por corresponder a todos estes aspectos. Com diferentes sons.

Quanto aos convidados que escolheram, tanto produtores como MCs, como é que se estabeleceram estas ligações?

[Mass] A nossa filosofia sempre foi trabalhar com o pessoal que nos rodeia. Temos essa cultura e sempre foi assim desde o princípio. Tu sabes. Vinha aí [alguém], gravava um som e ficava ORTEUM [risos]. No início nós éramos bués. E nós gostamos dessa essência, dessa maneira de trabalhar. Mantemos assim a cena. Não quer dizer que, eventualmente, no futuro, não façamos a cena diferente. Eu acho que não entra ninguém que nós não conheçamos pessoalmente. Só, talvez, o El Diego, que produz “A Última Gota”.

[Tilt] Sim, esse bacano é sócio do Tom.

[Nero] Mas pronto, deram o beat ao Tom e ele trouxe-o. Foi por intermédio dele. Mas todas as outras pessoas, tanto produtores como participações, não temos ninguém que nos seja desconhecido ou que não tenha convivido connosco. Tem sido sempre assim.

[Mass] Mas não quer dizer que não possamos vir a dar com a página de um bacano, vamos ouvir e ele tem lá uma “granda” beat e a gente fale.

[Tilt] Sim, isso faz-se sempre. Se não conheces passas a conhecer. Nada foi propositadamente feito para isto. Isto é uma feliz coincidência, a meu ver.

Falando especificamente dos MCs, o único nome que se repete em todos os vossos lançamentos é o do Johny Gumble. Todos os outros são caras novas, digamos assim. Passaram todos por esse processo de conviver com vocês primeiro? Parece quase uma espécie de casting.

[Mass] Casting? Não [risos]. O Beware Jack é nosso sócio, era uma colaboração que já devia ter surgido e foi agora. Combinámos. É o que falta às vezes, combinar. O Gumble é prata da casa, como tu sabes. O Elliot e o Benny vieram aí [ao estúdio] uma vez e são gajos que estão connosco algumas vezes. Vieram aí e gravaram a faixa. O Tom também está sempre por aqui…

[Tilt] O beat do John Miller [no “Complexo de Atlas”], não foi feito de propósito para este CD. Nós agarrámos porque ele já nos tinha dado. No entanto, esse som, se calhar, foi o único feito de propósito para este CD. O que é que eu quero dizer com isto? Isto responde um bocado à tua pergunta. Que tudo o resto que acontece são convívios normais. São cenas que não são de todo forçadas. Não quero dizer que a cena do Beware foi forçada. Ele dá-se bastante connosco. Nós gostamos bastante dele e ele gosta bastante de nós. Não só a nível de som — também fora desse espectro. E isso é o reflexo desse tipo de convívios — são as colaborações.

Nesta última gota da Pipa de Vinho surge nos créditos o nome RAIA em todas as faixas. Querem explicar o que é isto da RAIA?

[Nero] RAIA é esta nova etapa que estamos a montar. Por isso é que o último álbum que sai pela Pipa de Vinho é A Última Gota. A partir de agora é uma etapa mais séria, mais profissional, que estamos a montar. É este novo projecto que…

[Mass] Estamos a investir numa editora.

[Tilt] Isto vai ser uma label. Vai ser uma label que nós estamos a fazer. Estamos a contar aí com os nossos trabalhos e também com os trabalhos das pessoas que nos são mais próximas nos últimos anos. Pessoas que nos fazem querer canalizar a arte deles para um propósito específico. RAIA vai ser falado no futuro. Para já, acho que nenhum de nós consegue falar…

[Nero] Mas vai dar raia!

[Tilt] Vai ser uma nova fase da nossa vida e, espero eu, da vida de todos os que estão envolvidos. É essa a minha direcção.

[Mass] É de frisar também que não queremos direccionar a cena apenas para o hip hop. Queremos que seja uma coisa mais vasta. Queremos música de qualidade. Acho que isso é que é o essencial. Eu ouço outros tipos de música e eles também. É importante termos essa amplitude. Irmos buscar pessoas com talento do jazz, do funk, whatever. People que tenha qualidade. Acho que isso é que é o essencial.

[Tilt] Mas isso são coisas que acontecem com o tempo. O nosso círculo é o do rap e, inevitavelmente, é normal que nos processos iniciais, nos primeiros anos, se foque nessa questão do hip hop. Mas, de facto, nós queremos potencializar todo o cenário underground e independente. O que nos interessa aqui é a alma, o gosto, a qualidade. E o hip hop vai beber a todas as fontes.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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