ORTEUM // A Última Gota

[TEXTO] Moisés Regalado

O “rap tuga é uma merda”, dizem eles, e ainda se fazem à pista para ver se a coisa muda. Sem Mass, Nero e Tilt, a diversidade do hip hop português não estaria totalmente garantida, bem como a do círculo que habitam. Falar deste trio é falar de uma família com contornos de milícia, onde os laços contam mais, só que também é falar de três MCs com identidades distintas, por vezes quase opostas, e que ainda assim parecem destinados a partilhar o mesmo barco.

Chegados ao sucessor de Perdidos & Hashados, as coisas continuam mais ou menos na mesma. A escrita de Tilt continua ao serviço de um código de honra que também dedica uns quantos capítulos ao lado técnico da arte, enquanto Mass representa sem falhas o lado mais métrico da escola dos anos 2000, que cresceu com o melhor de Regula nos headphones. Nero, sempre tão acutilante quanto discreto, continua a representar o pilar do grupo e o derradeiro elo de ligação entre a crew e as ruas, sedentas de dicas e flow.

Quando começaram eram diferentes ou queriam ser. Agora reclamam o regresso do som de então — o tal boom bap — mas isso não chega para os encaixar na prateleira dos normativos. No rap de ORTEUM ainda há espaço para dicas directas e dirigidas em que os bois são chamados pelos nomes, num discurso tão presente no divino como focado no mais mundano dos fumos ou das pingas, e temas como “Vilão” ou “Sintoniza”, de contornos tão clássicos quanto possível, são hoje tão fracturantes como seriam nos primeiros dias da crew.

E se o assunto é família, Johny Gumble, TOM ou Beware Jack não serão exactamente convidados do disco. Por exemplo: “Jurássico” não seria o mesmo tema sem Gumble, e esta turma não seria a mesma se Gumble — e mais uns quantos — nunca tivessem passado por ORTEUM. E a Pipa de Vinho pode até estar n’A Última Gota só que parece haver vida para lá da adega: a mistura e a masterização do novo trabalho já foram assinadas pelo colectivo RAIA, com raízes semelhantes, mas objectivos mais sérios que a Pipa de sempre.

A diferença não está no skill. Está antes no que fazer com ele e na convicção com que se segue o caminho, e nesse aspecto não há ninguém que lhes venha ensinar a missa. Se a vida e o rap são feitos de escolhas, Tilt, Nero e Mass escolheram perder tempo à volta do caderno, do microfone e, sobretudo, de si mesmos, transformando a “merda” numa maravilha.


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