Orelha Negra 2010-2017: O press release do segundo álbum

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados [ILUSTRAÇÃO] Dialogue 

Prosseguimos aqui a publicação de uma série de textos do arquivo de Rui Miguel Abreu que abordam diferentes momentos da história que os Orelha Negra iniciaram em 2010. Desta feita, o press release do segundo álbum de originais. O motivo para este regresso ao passado é, claro, a edição recente do terceiro ópus do grupo de Sam The Kid, DJ Cruzfader, Fred Ferreira, Francisco Rebelo e João Gomes. Podem para já ler entrevista com o colectivo e a nossa visão crítica do novo álbum antes de mergulharem nesta viagem ao passado que agora vos propomos.

 


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You can’t go home again, garantia, já há uma década, DJ Shadow. De facto, não se pode regressar a casa porque lá chegando cedo se descobre que somos diferentes e já nada é igual. Os Orelha Negra sabem bem isso. Ao segundo álbum, homónimo, uma vez mais, evitam a armadilha tentadora de se limitarem a replicar ideias e fórmulas. Evitam, enfim, a simples tentação de regressar a casa. Porque tanto aconteceu desde 2010 que esse regresso seria, de qualquer maneira, impossível.

A experiência generosa de palco – em clubes, festivais, salas de concerto – e os aplausos consequentes são parte de uma história que obriga a que estes Orelha Negra, os de 2012, sejam diferentes dessoutros que há um par de anos apanharam a música portuguesa desprevenida, impondo um sucesso tão improvável como merecido com a sua estreia.

De regresso ao estúdio – a casa… – os Orelha Negra criaram mais uma brilhante colecção de temas. São 15 os do novo capítulo. Instrumentais, pulsantes, musculados, sinuosos como tudo o que tem groove, pesados, densos, carregados de histórias, polvilhados com algumas palavras, memórias, lenga lengas, com farrapos de poesia, com malhas de órgão e de guitarra, com scratch e linhas de baixo gordas, com bateria que pinga funk para cima de tudo, com samples que são peças de puzzle de um quadro que continua a ser montado.

Os Orelha Negra estrearam-se em 2009 com um single, “Lord”, impuseram-se em 2010 com um álbum, Orelha Negra, e confirmaram tudo o que havia para confirmar em 2011 com uma mixtape que uma vez mais oferecia apenas Orelha Negra como título e que abria o quinteto de bateria, baixo, teclados, gira-discos e sampler a colaborações externas: Orlando Santos, Roulet, Tamin e Filipe Gonçalves, Xeg e Hulda, Nerve, Os Tornados, Dedy Dread e Mr Bird, NBC, Mind da Gap, Junior Thomas, Conductor, Lucia Moniz, Tiago Bettencourt, Valete e Riot transfiguraram a música de todas as formas possíveis. Encaixaram palavras onde antes havia apenas espaço instrumental, remisturaram, criaram novas versões e reinventaram a proposta original sem nunca a desvirtuarem, provando que esta é uma música aberta a um mundo de possibilidades. E Vhils explodiu todas as barreiras ao criar um vídeo que ajuda a explicar porque é que a sua arte já não conhece fronteiras.

 



2012. Novo capítulo. Orelha Negra na capa, mais uma vez. E a verdade é que os Orelha Negra não regressam a casa. Antes procuram descobrir novos caminhos, mantendo a proposta inicial de criação de música livre a partir de uma memória generosa: não é à toa que este é um grupo onde o gira-discos e o sampler têm papéis de destaque, abrindo o groove à história, ao passado, ao presente e até ao futuro. Continua a haver aqui funk e soul, disco e até energia rock, alma portuguesa, espírito universalista, 70s, 80s e todo o tempo do mundo. Hip hop. Sempre. O que há aqui é uma vontade de transformar o mundo pela música que se oferece nua, sem máscaras e sem rostos, sem vozes e sem poses, só com o seu próprio poder invisível. E memória. Muita memória. Muito mais memória do que a que cabe nos megas do sampler, nas rodelas de vinil do gira-discos ou nos dedos que tocam baixo e teclados, nos membros que fazem vibrar as peles da bateria. Ouvir a música dos Orelha negra é recordar o que ainda não se conhece, redescobrir o que é familiar. E de quanta música se pode dizer tanto?

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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