Orelha Negra: “É interessante ver que o nosso público é super diverso e vai crescendo cada vez mais”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Sebastião Santana e Kirill Slokotovich

Um dos álbuns mais esperados dos últimos anos está disponível desde hoje para ser dissecado, degustado e apreciado. Orelha Negra, o terceiro de uma série que nunca varia no título, é uma montanha-russa de emoções, uma abordagem que engloba breaks, experimentações a nível electrónico e samples curvados ao poder da imaginação. E do groove…

Nada disso seria possível se não existisse uma química inabalável entre DJ Cruzfader, Fred Ferreira, Sam The Kid, Francisco Rebelo e João Gomes, o quinteto maravilha que junta um tremendo virtuosismo à capacidade de se reinventar e criar novos mundos.

O Rimas e Batidas esteve à conversa com a banda no mítico estúdio Namouche e pôs as cartas na mesa, falando sobre uma miríade de assuntos: o processo criativo do disco, a presença no Festival Iminente ou a surpreendente jornada que já os levou para palcos como o MEO Arena no Super Bock Super Rock em 2016 ou a assinar espectáculos com orquestra, tal como aconteceu no MEO Sudoeste em 2013.

 


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Estive à conversa convosco em 2015, aquando do primeiro anúncio que viria um novo disco. Passaram cerca de dois anos até ao lançamento oficial. O que é que levou a esta demora na chegada do terceiro álbum? 

[Fred] Tivemos a acabá-lo…

[João Gomes] Terminámos em Abril passado. Não mentimos (risos). Dissemos que o disco ia sair e ‘tá aí.

Mas existiu algum problema no processo? No concerto do CCB já tinham os “esqueletos” de grande partes dos temas…

[J] O álbum estava composto só que a nossa composição inclui fazer os arranjos…
[F] Os arranjos não estavam feitos na totalidade.
[J] Houve arranjos que foram alterados que foram, no nosso ponto-de-vista, melhorados e esse processo demorou cerca de um ano e uns meses.

E existiram sobras do disco ou vocês terminaram tudo o que começaram a criar? 

[Francisco Rebelo] Sim, não usámos tudo. Ficaram coisas de fora, sim.
[J] Mas isso aconteceu em todos os discos…

Então também existiram rascunhos que vieram de sessões do último álbum?

[Sam The Kid] Também.

Lançaram dois singles com vídeo: “Parte de Mim” e “Ready (Redenção)”. Ambos foram realizados pelo Richard Coelho. Como é que aconteceu este encontro? 

[J] Basicamente, ele é competente e nós gostamos muito do trabalho dele. Corre bem. Tem corrido sempre muito bem. Já nos tornámos amigos entretanto.

[FR] A história do Richard com o projecto começa com o grupo que eu e o João temos – que são os Cais Sodré Funk Connection – e o Richard fez um videoclip que ganhou um prémio em Cannes e teve uma série de prémios por aí. E pronto daí cresceu a relação. Depois também aconteceu com Fogo Fogo. Às tantas criámos uma relação. Aliás, até quando falámos com o Richard combinámos logo os dois vídeos.

[J] Porque nós queríamos o vídeo do “Parte de Mim” e ele já tinha ouvido o “Ready” também e ele própria gostava muito de fazer do “Ready”.

Vocês estiveram envolvidos de alguma forma na criação dos vídeos ou foi uma interpretação do realizador? 

[STK]: No primeiro estivemos. A cena foi: ele ia fazer o “Ready”, mas ele disse que o “Ready”, para a ideia inicial que ele tinha, ia demorar muito mais tempo. Então nós dissemos que precisávamos de um vídeo na altura porque até íamos tocar no Super Bock com o Kendrick Lamar. Foi na altura em que fiz a entrevista ao Boss AC para a TV Chelas. Depois foi tudo uma cena de juntar ideias e chamar o AC e o Ace. Fui eu que sugeri esta ideia de teres rappers a cantar mas não se ouvir o que eles estão a dizer. E faria todo o sentido em Orelha Negra criar esse burburinho, até porque as pessoas sabem que nós temos mixtapes. Deixar na dúvida sobre se existe essa faixa ou não existe. Nessa música houve um input, mas na “Ready (Redenção)” não houve.

 



Voltando ao vídeo do “Parte de Mim”: Boss AC e Ace são os protagonistas. Aproveito para vos perguntar: aquele foi o primeiro indicador de que a mixtape já está a ser cozinhada?

[STK] A mixtape tradicionalmente também não vem logo. O álbum agora sai, nós respiramos, abrimos champanhe e depois damos o disco quando sai às pessoas que queremos convidar para as mixtapes. Há uns que até não convidamos e acabam por entrar porque fazem uma boa remistura ou uma boa interpretação das nossas músicas. Mas eventualmente irá haver a mixtape, isso é garantido. E vamos ver se terá o Boss AC e o Ace ou não… [risos]

Chegamos a 2017 e os Orelha Negra têm um dos álbuns mais esperados da música nacional. E ao contrário do que é norma na música mais popular – a existência de um vocalista – , vocês fizeram isso pelas vossas próprias regras. Quando decidiram criar os Orelha Negra, alguma vez pensaram que seria um projecto que vos levaria para o palco principal do Super Bock Super Rock ou até para tocarem com uma orquestra no Sudoeste? 

[FR] Quando criámos a cena, nós vínhamos das tournées do Sam The Kid como banda e brincávamos nos concertos, fazíamos improvisações com jam sessions – o Samuel levava o MPC – , nós criávamos ali uns momentos instrumentais e quando a tournée acabou pensámos: “bora pegar nesta ideia assim instrumental e fazer umas cenas”. Na altura, a nossa ambição era tocar nos clubes, fazer umas cenas, uns grooves e curtir um bocado.

[J] Ainda a temos, não é? [risos] Na realidade, continuamos a não tocar em clubes.

[FR] Portanto, não tínhamos a ambição de chegar aos sítios que referiste, que para nós foi muito glorificante as pessoas reconhecerem o nosso trabalho e termos tocado em palcos grandes, em grandes festivais e essa cena toda. E tem sido muito fixe.

[STK] Agora estava a pensar, por acaso até é engraçado essa ironia que é nós fazemos músicas sem preconceitos para pessoas sem preconceitos, mas se calhar tínhamos esse preconceito de achar que a nossa música instrumental seria para um nicho de pessoas muito restrito. É interessante ver que o nosso público é super diverso e vai crescendo cada vez mais.

Tive a oportunidade de ver os BadBadNotGood no Paredes de Coura que, tal como vocês, apresentam-se sem frontman tradicional. Apelando ao vosso conhecimento de indústria e de palco, acham que seria possível ter bandas deste género ou seja, que citam abundantemente hip hop, a tocar em festivais rock há uns anos? É a mudança definitiva de paradigma?

[STK] Sim, as pessoas que não são tanto do hip hop também não têm tanto preconceito com o género, não aceitarem como música e esse tipo de coisas. E também o pessoal do hip hop não têm preconceitos com a nossa música sendo uma coisa diferente e muito específica, que não é, falando sinceramente, não é hip hop típico. É uma cena muito diferente e única, a meu ver. Mas acho que essa tua pergunta tem alguma razão de ser porque, quer queiramos quer não, as pessoas já estão mais familiarizadas com essa linguagem – quer seja nos BPMs ou nos samples. E nota-se aos poucos. As pessoas já não dizem “o que é que é isto?” ou “o que é um sample” ou o que é um MPC, mas claro que vão sempre existir essas pessoas.

[J] Principalmente, abaixo dos 20 anos. O pessoal abaixo dos 20 anos está mais habituado a hip hop e a r&b do que a rock.

Suponho que como amantes de música estejam constantemente a ouvir novas coisas, sejam elas lançadas em 2017 ou em 1970. Existe alguma coisa que tenha influenciado directamente este disco? O que é que andaram a ouvir que vos tenha marcado durante o processo criativo?

[DJ Cruzfader] Eu ouvi muita coisa antiga. Músicas de filmes de cowboys, filmes italianos, música dos anos 70/80. Fiz uma pesquisa grande. Músicas actuais não eram uma referência para mim. Não era um guia para o álbum…

[STK] Estou a imaginar o Cruz a acordar e a ouvir o Ennio Morriconezinho… [risos]

[J] Isto também apanhou aquela altura do To Pimp a Butterfly, do Untitled, de pessoal de LA.

[S] Saíram muitos álbuns…

[J] Eu estava a ouvir aquela jazz que é influenciado por Terrace Martin e esse pessoal…

[STK] Olha, lembro-me que nas misturas eu dizer ao Chico para reparar num pormenor na música do Oddisee. Ver a forma como ele misturava o sample, a bateria com os drums mais de beat de MPC.

[FR] Sim, há alguns discos que às vezes ouvíamos até como referência sónica. Olha como é que estes gajos fazem isto. A soma da bateria, que é uma cena muito importante para nós, a maneira como encaixamos a bateria com os beats é sempre um desafio grande que nós, de disco para disco, tentamos sempre melhorar para que o ouvinte não sinta aquela diferença. A nossa cena vive um bocado também de deixar o ouvinte um bocadinho naquela quem é que está a tocar o quê, quem é que faz o quê. Para mim, pessoalmente, é difícil dizer um disco, mas há tantos. Nós ouvimos imensa música. Nas viagens dos concertos costumamos sempre ouvir música. E falamos imenso, somos todos melómanos e temos imensos discos. Há discos do passado que são intemporais que para nós são referências e há discos que são novos que também nos mostram outros caminhos. É uma soma disso tudo.

[J] Por exemplo, posso-te dizer que para a minha cena inspirei-me um bocado nos Hiatus Koyote. A parte das teclas que usa muita cena electrónica por cima de uma base… a bateria é sempre acústica, por exemplo. Com uma formação mais convencional e com tempos mais lentos, mais dentro dos tempos do hip hop. Mas depois uma abordagem electrónica que não tinha… A minha escola não era tanto essa. Era mais o funk e os instrumentos electromecânicos – os Rhodes, os Hammonds, os clavinetes, e essas coisas. Aqui procurei um bocado usar cenas mais electrónica porque nunca tinha oportunidade de fazer isso e neste projecto temos sempre a oportunidade de experimentar cenas que nunca fizemos.

[STK] Em termos de textura, há aquelas bandas que apareceram ultimamente. Como disseste, BadBadNotGood, El Michels Affair, Adrian Younge, esse tipo de cenas que não usam samples e é só banda mesmo. Mas essa estética, principalmente os drums – alguns são mais felizes que outros na sua estética – , atrai-nos nesse aspecto, assim “fogo, como é que estes gajos conseguem este som?”. Nós até neste disco atrevemo-nos a criar um break. Existe um drum break. Se descobrires este álbum daqui a 30 anos em crate digging, encontras lá um break. E o que é uma cena fixe num break? É muito importante a estética e a textura. Que ele soe bem e que o gostasses de o samplar porque esta tarola é fixe. Pronto, como se fosse para um producer. Acho que é a primeira vez que temos um break inicial. Aquela cena tipo “Uhhhhhh!”

 


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Curiosamente, o vosso disco sai no mesmo dia que o concerto no Festival Iminente. Foi planeado ou simplesmente aconteceu calhar na mesma data? 

[Em uníssono] Calhou.

[F] Nós estávamos a ver as datas a dada altura e já tínhamos falado em 8 de Setembro. Como os discos agora saem à sexta-feira, a probabilidade de sair num dia de concerto já era grande. E tínhamos isso do Vhils…

[STK] Não sabia disso. Os discos saem à sexta?

[F] Antigamente era à segunda e agora é à sexta.

[C] Desde quando?

[F] Desde há dois anos.

[STK] Agora que estou a pensar, o meu último disco saiu numa segunda, ya…

[F] Agora saem às sextas. Então se calhar muito mais vezes o pessoal lança o disco num dia em que está a dar um concerto.

[FR] Por um lado, fazemos o concerto num espaço que tem a ver com a cena do Vhils, que também é um artista que está ligado a nós desde o início, até já no tempo do Sam The Kid ele já tinha trabalhado connosco. E também é fixe. Acaba também por marcar uma data especial.

O Fred, o Samuel e o Francisco passaram lá música na edição passada. Qual é a vossa opinião sobre o conceito do festival? Acham que é um evento diferente na programação portuguesa? 

[FR] Acho fixe. Nós não temos muitos festivais de arte urbana e este está num espaço muito porreiro. O ano passado estava muito bem organizado.Tinha boas peças para todos os públicos, mesmo para pessoas que não estão ligadas à nova arte urbana e espantaram-se com aquilo que viram.

[F] Mas tinha espaço também. Estava esgotado, mas tinha espaço.

[J] E musicalmente é uma bela paleta do que se faz em Portugal. Eu fui lá tocar com Ana Moura ao mesmo tempo que o Sam The Kid estava a fazer DJ set, ou uma coisa assim.

[STK] E essa cena do DJ set é linda. A pista dos carrinhos de choque é uma ideia que se devia fazer o copyright, levar ao Shark’s Tank. É uma cena que dava para meter em todos os festivais.