Orelha Negra 2010-2017: primeiro capítulo de uma história nada banal

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Dialogue

Iniciamos aqui a publicação de uma série de textos do arquivo de Rui Miguel Abreu que abordam diferentes momentos da história que os Orelha Negra iniciaram em 2010. E começamos pelo princípio, pelo primeiro dos três álbuns até agora lançados. O motivo para este regresso ao passado é, claro, a edição recente do terceiro ópus do grupo de Sam The Kid, DJ Cruzfader, Fred Ferreira, Francisco Rebelo e João Gomes. Podem para já ler entrevista com o colectivo e a nossa visão crítica do novo álbum antes de mergulharem nesta viagem ao passado que agora vos propomos.

 


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Há discos que são terrivelmente importantes sem serem necessariamente bons. E há discos extraordinários que nenhum radar chega a detectar, por nada acrescentarem ao devir histórico. E depois, há aquela rara categoria dos discos que tendo uma importância desmedida conseguem, igualmente, ser belíssimos tratados de rigor estético e de invenção formal.

Podemos apontar, na primeira categoria, um álbum como Rapública, a compilação que marcou o arranque sério da discografia hip hop no nosso país: é um disco importante, um marco fundo na nossa história moderna onde vários importantes protagonistas da cultura hip hop registaram os seus primeiros passos – de Boss AC a D-Mars e Melo D – mas que nem por isso resistiu ao tempo ou apresentou argumentos que lhe permitissem rever o estatuto de “simples” rastilho de explosões mais relevantes que o tempo viria a revelar alguns anos volvidos. Na segunda categoria, os exemplos são imensos: mantendo os pés firmes em terreno hip hop, podemos avançar, entre outros, registos assinados por Kilú ou, mais recentemente, pelos Nigga Poison e Sagas, que editaram álbuns de qualidade indiscutível, mas que por qualquer razão não geraram descendência nem abalos daquela magnitude que força a mudanças de rumo, a alterações de paradigma.

E chegamos ao álbum de estreia dos Orelha Negra. Importante, crucial até. E espantoso nas fantasias orquestrais que apresenta, no domínio clínico do groove que demonstra ter, na arqueologia de géneros que desenvolve, sempre com os pés fincados no presente.

Os Orelha Negra são aquilo que se convencionou designar por super-grupo, por reunir numa só célula um conjunto de personalidades de origem diversa: Sam The Kid é o agente provocador, que desenterra samples que trazem colados a si pedaços de memória, farrapos de tempo que o grupo depois se encarrega de recontextualizar, de pulverizar ou de recuperar, consoante a disposição. Depois há DJ Cruzfader, o Dj Premier para o Guru de Sam, há já vários anos habituado a scratchar pedaços de cultura hip hop nas suas mixtapes ou nos palcos – nos Orelha Negra é mais um recurso rítmico e tímbrico a juntar ao arsenal. João Gomes, que conhecemos primeiramente dos Cool Hipnoise e depois de uma alargada carteira de colaborações, oferece ao colectivo a sua sensibilidade melódica extrema e um largo espectro de cores – do Moog ao Clavinet, do Hammond aos pianos eléctricos – que tanto podem evocar retratos de Herbie Hancock na sua fase soul-jazz como paisagens cósmicas de Lonnie Liston Smith. E finalmente temos a fundação rítmica, os donos do groove que suportam todo o edifício aqui erguido – Francisco Rebelo, baixista dos Cool Hipnoise e de várias outras aventuras onde o pulsar é língua franca (dos Cacique 97 aos Micro Áudio Waves), e Fred, baterista que já emprestou o seu subtil martelar a projectos tão distantes como Balla ou Buraka Som Sistema (para citar apenas a letra “B” do seu livro de contactos) e que compreende que há alturas em que a tarola tem que soar como um disparo e outras onde o mais subtil escovar chega para ancorar a acção.

 



Esta é a primeira vez que um registo puramente instrumental (as vozes que se ouvem neste álbum são sempre tratadas como matéria narrativa gerida pelo sampler) desta área da música consegue uma edição amparada por uma estrutura séria – isso significa distribuição capaz e promoção que é o garante de uma maior visibilidade. Significa também que os argumentos musicais aqui apresentados chegam para convencer um outro campeonato editorial da validade destas propostas. E foi um longo caminho até aí se chegar, caminho em que o próprio Sam The Kid deu alguns dos primeiros passos, com o seu já clássico Beats Vol. 1: Amor, mas a que se juntou depois gente como Armando Teixeira com os seus Bulllet, Rocky Marsiano, Fuse, Sr Alfaiate ou DJ Ride – tudo gente que em determinado momento acreditou não serem necessárias palavras para enquadrar as suas experiências de arquitectura sonora dentro de um contexto mais ou menos hip hop.

Nesta cronologia de estudo da sincopação num cenário hip hop, o álbum dos Orelha Negra assume o estatuto de ponto de viragem: normalmente, a colagem a essas propostas do rótulo “instrumental” significa quase sempre, pelo menos no entender de muita gente, que falta algo, que são discos que só apresentam um lado da moeda, discos quase sempre feridos pela amputação das rimas, das palavras e dos flows. Isso já não se pode dizer em relação ao álbum dos Orelha Negra até porque a narrativa deste álbum é claríssima, as histórias que conta podem ser entendidas por todos e não apenas nos momentos em que o sampler de Sam The Kid descobre vozes significantes em programas de TV ou rádio ou em velhos discos de vinil. A forma como instrumentação real se funde com o que é introduzido na acção pela MPC de Sam ou pelos Technics de Cruz é a própria história. Se ainda hoje, quase 40 anos depois de no Bronx se terem começado a sonhar os primeiros passos de uma cultura agora verdadeiramente universal, há quem discuta se o hip hop é ou não música, este álbum pode ajudar a clarificar as dúvidas, exactamente porque o hip hop é a linguagem comum que medeia a aproximação a todos os outros dialectos que se escutam aqui, numa deliciosa e babélica torre de ritmos e grooves – funk orquestral, ecos de soul sofisticada, jazz cósmico, pedaços das clássicas orquestrações escutadas nos álbuns de Paulo de Carvalho dos anos 70… Memória. Esse é o grande argumento apresentado em Orelha Negra: todos estes músicos possuem uma vasta memória, porque são eles próprios ouvintes atentos da história, estudantes das lições que no passado forneceram as bases para a construção do presente e do futuro. E nesse sentido, este é um álbum profundamente moderno, porque reclama no presente uma memória que é nossa, nas especificidades das suas coordenadas – o que se ouve aqui não é o jogo da memória que bandas de São Francisco, Toronto, Londres ou Amesterdão poderiam apresentar. Há pontos em comum, claro, mas é nos cruzamentos, nas dosagens, nos pormenores que se descobre uma identidade que só poderia ser construída em Lisboa. E isto tudo é o que faz de Orelha Negra um disco profundamente importante. Já a qualidade é o que se adivinha no todo, na forma como todos os elementos se submetem a um rigor orquestral louvável, na instrumentação sabedora – não há por aqui uma única frase que soe deslocada, que traia uma formação alheia à linguagem que se está a tentar apresentar. As malhas que se pretendem funk, funkam mesmo, os laivos de jazz gritam invenção, as piscadelas de olho à memória que é particularmente nacional não disfarçam a sua reverência pelo estudo dos arranjos clássicos editados na Orfeu ou na Valentim de Carvalho. O sentir é genuíno, honesto e totalmente nosso.

Orelha Negra entra portanto para a tal categoria rara dos discos que contêm em si força suficiente para determinar novos rumos, mas que o fazem igualmente com a classe que se exige às melhores obras. Há muitos futuros. Uns já começaram, outros ainda estão a ser imaginados. Mas há um que começa aqui e que segue dentro de momentos.

  • Texto originalmente publicado no já extinto blog 33-45.org

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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