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Ilustração: Riça

Techno, house, hauntology e outras ondas.

Oficina Radiofónica #36b: Belbury Poly / The Residents / Paulo Vicente

Ilustração: Riça

Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.



[Belbury Poly] The Gone Away / Ghost Box Records

Se Julian House é o grande responsável pela definição do fascinante universo visual e gráfico da Ghost Box, pode apontar-se Jim Jupp, o seu principal cúmplice nessa operação, como o ideólogo do espectral campo musical em que assenta o catálogo que juntos têm vindo a construir desde 2004. Coube aliás ao projecto de Jupp, Belbury Poly, a assinatura das primeiras entradas no catálogo, com o mini-álbum Farmer’s Angle e o LP The Willows, ambos de 2004. Desde então, a marca autoral Belbury Poly foi já aplicada a seis outros álbuns, incluindo a colaboração de 2019 com Justin Hopper e Sharron Kraus, Chanctonbury Rings, e o novíssimo The Gone Away (Jupp divide ainda, com Jon Brooks que também assina como The Advisory Circle, responsabilidades no projecto The Belbury Circle que em 2017 lançou Outward Journeys).

Seguindo à risca a cartilha hauntológica que aliás ajudou a definir, Jupp centra o seu novo trabalho na exploração do lugar das pequenas fadas no folclore britânico. No passado, a ideia de minúsculos e diáfanos seres alados que habitavam os lugares mais sombrios dos bosques ingleses capturou a imaginação das mentes vitorianas mas, como o próprio Jim Jupp tem a oportunidade de explicar nesta reveladora entrevista, interessa-lhe bem mais o significado profundo dessas histórias, o medo do desconhecido, do outro que essa intrigante área do folclore pode traduzir. Essa tensão, mas também, e talvez paradoxalmente, a inocência que também se associa à ideia de fadas, marca a música deste The Gone Away.

Uma vez mais prevalece o encaixe numa ideia de “banda sonora”, com as referências estéticas a apontarem para a era que parece amparar os gestos hauntológicos, da década de 70, quando boa parte da televisão britânica era ilustrada musicalmente com trabalhos de entidades como o Radiophonic Workshop ou das múltiplas empresas de library music que disponibilizavam música suficientemente abstracta, muita vezes de pendor orquestral ou electrónico, capaz de suportar qualquer narrativa. O lado mais pastoral da folk também informa melodicamente esta particular fórmula que a Ghost Box tão bem refinou em década e meia de consistente produção. Com todas essas ideias combinadas, The Gone Away soa como uma longa massagem aural, não no sentido new age do termo, mas antes como um bálsamo para a memória, com a cuidadosa escolha de texturas electrónicas a conferir à música uma aura de familiaridade, com cada uma das peças a parecer despoletar uma qualquer sinapse involuntária no nosso cérebro. Os arranjos são harmonicamente intrincados, nalguns casos quase até remetem para uma certa ideia de música de câmara (“Corner of the Eye”) e há uma subtil sofisticação no sound design do álbum que o faz resultar de forma particularmente feliz num bom par de auscultadores, revelando-se cada uma das 11 passagens do alinhamento como uma mini-paisagem carregada de diferentes pormenores, rica na sua palete de cores, em permanente mutação. É só fechar os olhos e aumentar um pouco o volume para se perceber… E aqueles pontos de luz que conseguimos entrever mesmo de pálpebras cerradas podem até ser pequenas fadas que nos assombram a imaginação…



[The Residents] Metal, Meat & Bone: The Songs of Dying Dog / Cherry Red

Ler as histórias que os Residents criam para cada um dos seus discos é um acto de fé: os trabalhos resultarão tanto mais quanto mais fundo entrarmos na narrativa proposta, seja ela de gente-toupeira que habita as profundezas, de trupes itinerantes compostas por gente excêntrica de que nunca ninguém ouviu falar, num povoado universo que faz o Freaksde Tod Browning parecer um domingueiro filme da Disney, ou de um blues-man albino chamado Alvin Snow, tipo nascido a 13 de Janeiro de 1939 e deixado abandonado à porta de um orfanato e que anos mais tarde supostamente gravou um pequeno conjunto de canções antes de desaparecer para nunca mais ser visto.

Snow, com nítida inspiração no gutural rugir de Howlin’ Wolf, encetou um percurso nos blues como Dyin’ Dog, e foi já com essa identidade que nos anos 70 se cruzou com Roland Sheehan, músico que tinha colaborado brevemente com a banda dos globos oculares logo no início da sua tumultuosa carreira. O grupo de suporte de Dyin’ Dog recebeu o nome The Mongrels, juntos gravaram um conjunto de demos que forma agora a base para este Metal, Meat & Bone: The Songs of Dying Dog. Um declarado interesse dos Residents de explorar o formato dos blues levou-os a cruzarem-se uma vez mais com Sheehan que lhes revelou estar na posse de cinco acetatos que um seu velho projecto, os Mongrels, tinha gravado juntamente com um bluesman chamado Dyin’ Dog. Neste álbum duplo, são-nos dadas a escutar as faixas originais, cruas, blues da escola esquálida de Captain Beefheart cujas interpretações vocais parecem dever bastante à estética definida por Tom Waits, aquela que faz do coração tripas, que arranca faíscas das gargantas e que nos faz bater o pé em soalhos poeirentos enquanto lá fora os cães uivam em uníssono perfeito. Ou algo do género.

O interessante é que a esse cru conjunto de canções desmembradamente “waitsianas”, os Residents contrapropõem uma leitura modernista, sob a batuta do produtor Eric Drew Feldman (que, nem de propósito, integrou a Magic Band de Captain Beefheart e, mais tarde, os Pere Ubu) que assegurou aqui a colaboração de um tal Black Francis, nome que poderá remeter-vos para uma banda chamada Pixies… E o que se encontra por aqui? Cacofonias densas (“Die! Die! Die!”) numa espécie de cruzamento entre rock and roll e música concreta, inocentes derivas pelo campo das canções de embalar, quase folk na sua delicadeza de caixinha de música a fazer lembrar os Goblin (“Hungry Hound”), pesados industrialismos electrónicos (“Bury My Bone”), abrasivas descidas aos infernos, feitas de poeira analógica, faíscas de electricidade e muita manipulação laboratorial de estúdio (“The Dog’s Dream”), orquestrações para sintetizadores de cordas operados por robots que parecem incluir uma participação de Adolfo Luxúria Canibal (“Mama Don’t Go”) e hip hop industrial que soa como sentida vénia ao grande Tom Waits, que é, sem a menor sombra de dúvida, a grande referência deste trabalho, resolutamente experimental, cubista, negramente psicadélico e carregado de mortos, fantasmas e espectros.

Tratando-se dos Residents, é obviamente seguro concluir que Alvin Snow é um mero produto da imaginação do misterioso colectivo de São Francisco, mais uma página no grande livro de arte conceptual que têm vindo a escrever desde o início dos anos 70, procurando através destes rebuscados conceitos focarem-se totalmente na arte, de costas corajosamente voltadas para a indústria, sem prestarem atenção a outra coisa que não sejam os labirintos da música que em cada momento se propõem explorar. E isso resulta, invariavelmente, em intrigantes registos que nos obrigam sempre a repensar sobre a fuga à norma na arte. E os Residents, por esta altura já toda a gente percebeu, são mestres na arte da fuga!



[Paulo Vicente] West / Edição de autor

Paulo Vicente apresenta-se, na sua página de Bandcamp: natural de Bragança, mas a residir actualmente nas Caldas da Rainha, tem desenvolvido trabalho no campo da electrónica desde 1996. Passou pelo Boom Festival, pelo Forte Festival, entre outros, colaborou com a Womblabel, com o colectivo Desterronics e com o veterano Vítor Rua. Na sua página de Bandcamp alinham-se já perto de uma dezena de títulos. West, devo, no entanto, confessar, é ainda assim o primeiro disco que escuto de Paulo Vicente.

A música que este compositor, músico e produtor aqui reúne surpreende em primeiro lugar pela sua elegância extrema: espécie de ambientalismo com ecos da exótica pensada por Jon Hassell e que hoje parece servir de forte inspiração a um cada vez mais alargado conjunto de artistas, West insere-se numa já considerável linhagem de electrónica de produção nacional em que poderemos encontrar pioneiros registos dos Telectu, de Nuno Canavarro, Carlos Maria Trindade, Tozé Ferreira ou, para citar um exemplo bem mais recente, Molero. Eventualmente, haverá uma certa aura de melancolia transversal aos trabalhos de todos esses artistas que talvez concorra para que se pense que possam integrar uma mesma história.

Percebe-se escutando cada uma das seis composições aqui reunidas o rigoroso cuidado colocado na mistura, sobretudo ao nível dos efeitos, que ajudam a esculpir as melodias e a posicionar os arranjos numa espécie de suspensão permanente, como se toda esta música fosse tão leve que impele quem a escuta a libertar-se da força da gravidade e a flutuar, num elevado e etéreo plano feito de uma tranquilidade absoluta. Pela dedicatória à família, também se entende um pouco melhor o que parece ser um óbvio lastro emocional que esta música carrega, tradução, certamente de uma harmonia resguardada pela memória e que se aflora em títulos como “Idyllic Moments” ou “Magic Fruits”. Há uma certa pastoralidade nesta música, muita luz (nada nestas composições soa “nocturno”) e o que audições repetidas revelam ser uma real capacidade de maravilhamento. West é, sem a menor sombra de dúvida, um trabalho muito especial, de alguém com um agudo sentido melódico e harmónico, com uma real capacidade de humanizar instrumentos tantas vezes referenciados como “frios” e “mecânicos” (como se todos os instrumentos, incluindo os acústicos, não fossem igualmente “mecânicos”). Uma surpresa, enfim. Das boas.

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