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Ilustração: Riça

Techno, house, hauntology e outras ondas.

Oficina Radiofónica #29: Xinobi / Claiana / Vitor Joaquim & Carlos Zíngaro

Ilustração: Riça

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.



[Xinobi] A Collection of Xinobi Dance Songs / Discotexas

Uma colecção de canções de dança impressa em cassete soará sempre a boa ideia. E Xinobi é um criador a quem é obrigatório reconhecer bastantes ideias de elevada qualidade: a começar na Discotexas, aventura editorial em que embarcou com o seu amigo Moullinex, e passando, pois claro, pelas diferentes facetas do seu output criativo, em nome próprio e em frequentes parcerias. Este A Collection of Xinobi Dance Songs é de facto uma boa ideia: reúne os singles que marcaram o percurso do produtor e músico lisboeta nos últimos três anos, percurso esse pontuado por uma série de colaborações: IVY é a guru que sabe bem escutar com atenção em qualquer pôr de sol que se presencie com o mar por perto; Gisela João é uma cantora de excelentes atributos que sempre deixou claro que não se deixa limitar pelo seu fado; Moullinex é o cúmplice de inúmeras aventuras com que Xinobi desenvolveu uma química de particular eficácia; e Mystery Affair é aquela parceria transatlântica que prova que a rota mais directa entre Lisboa e Guadalajara, no México, é mesmo a música.

Esta, vá lá, mixtape abre com o novíssimo “Black Holes in The Sky”, tema criado à sombra da civilização Maia, que o próprio criador descreve, em entrevista concedida ao Rimas e Batidas, como algo épico, que farias, de facto, sentido escutar à alvorada numa rave em plena selva, se possível perto de uma das imponentes pirâmides erguidas antes de Colombo ter alterado o rumo da história. A partir daí, Bruno Cardoso explora diferentes cadências: há uma dimensão algo “trancey” em “The Moment”, o tema em que Ivy nos conduz em direcção à luz; o pulsar house domina “Wonderful People”, “Piano Lessons” ou “Undertones”; a toada mais disco define o encontro com Moullinex; e o “Fado Para Esta Noite” que Xinobi nos propõe em conjunto com Gisela João é uma tremenda canção pop que se calhar teria merecido um impacto mais significativo quando chegou às rádios.

Por esta altura, Xinobi já se encontra num raro patamar a que ascendem artistas que fazendo música “funcional”, a pensar nas pistas de dança, no seu caso, com música transparente e de fácil entendimento, conseguem ainda assim não abdicar de uma subtil atitude experimental, que por aqui se manifesta em algumas das soluções ao nível da programação rítmica (escute-se “Undertones”, por exemplo), mas também nos planos melódicos e texturais: fica-se com a sensação que, mesmo sem palavras, Xinobi está sempre a contar-nos uma qualquer história. E talvez seja isto que esta cassete guarda, uma colecção de histórias para dançar. Fazem falta, nestes tempos.



[Claiana] Claiana Vol. 1 / Favela Discos

Claiana é o nome artístico de Gui Lee, cabo-verdiano nascido em São Nicolau em 1973, “com uma guitarra nas mãos”, que viajou pelo mundo, indo dos Açores até à Holanda e daí até ao Porto, cidade que escolheu para casa e onde, de acordo com as notas do lançamento deste Claiana Vol. 1 na Favela Discos, nos últimos 10 anos se tornou uma figura reconhecida da vibrante cena nocturna local.

Será tudo verdade, talvez…, mas, ao mesmo tempo, há a possibilidade de alguma fantasia ter sido insuflada na biografia de um artista cujo apelido, Lee, será, quase de certeza, resultado de uma vénia ao herói Bruce Lee, o “pensador” que o ajudou a criar a ideia de Claiana, uma língua inventada – meio francês, meio crioulo, meio inglês ou qualquer outra coisa –, mas que, verdade seja dita, soa extremamente musical. Um pouco como os vocalistas das bandas de baile dos anos 80 que não tinham aprendido inglês suficiente para compreenderem os temas dos Supertramp ou Dire Straits que atrevida e, tantas vezes, divertidamente reinventavam a seu belo prazer.

Com o doce balanço do zouk (a cadência que inspirou o nascimento da kizomba), com a lição dos gigantes Kassav ou Coupé Cloué bem estudada, Claiana dá-nos a sua própria visão do baile: bola de espelhos por cima da pista, focos vermelhos e azuis sobre o palco onde apenas um artista se encontra, guitarra a tiracolo, sintetizador barato à frente e equipado com um microfone que está numa tórrida relação com o reverb digital. O suficiente para embalar os corpos que na era dourada pré-COVID19 podiam dançar apertadinhos, amando-se por umas horas como se amanhã não fosse dia de trabalho.

Tudo neste Claiana Vol. 1 soa barato e lo-fi (não é crítica, é elogio…): o sintetizador pode ter teclas que já não funcionam e as peças foram todas gravadas directamente para cassete num estúdio de vão de escada. Mas há igualmente uma exuberante alegria na voz e nas melodias, combinada aqui e ali com a melancolia temperada pela saudade, uma honestidade a toda a prova e uma inegável capacidade de apelo à dança, com arranjos tão simples quanto eficazes. E isso aqui é mais do que suficiente. É mesmo muito bem-vindo.



[Vítor Joaquim, Carlos Zíngaro] Live at ZDB, Lisboa, 2006 / Ed. De autor

Depois do lançamento digital com que documentou o encontro com o pianista Simon Fisher Turner em Londres, em 2005, no âmbito do Atlantic Waves, festival curado por Miguel Santos, eis que Vítor Joaquim voltou a mergulhar nos seus arquivos pessoais para nos oferecer esta gravação do ano seguinte, 2006, efectuada na ZDB. Num intenso diálogo com o violinista Carlos Zíngaro, Joaquim entrega-nos aqui mais um precioso documento de uma viagem a território raras vezes cartografado, onde o improviso puro e o momento ditam sempre o destino final.

Joaquim explica, nas notas que acompanham o lançamento digital na sua página Bandcamp, o processo: o sinal do violino de Carlos Zíngaro foi dividido em dois canais, um entrega à mesa do som de frente, outro apropriado pela placa de som, tratado e processado por Vítor Joaquim em tempo real e acrescentado à mistura final que o público escutava. A síntese final consegue ser arrebatadora, uma delicada e abstracta tapeçaria, em que as cordas vibrantes e reverberantes de Zíngaro são puro material aural que se confunde com o sinal digital, as névoas electrónicas, os drones atmosféricos, os samples ultra-transformados, num todo que se apresenta como uma massa em que é muito fácil perdermo-nos, que contrasta beleza e surpresa, arrebatamento quase extático e calma profunda. O universo, mesmo o dos sons, é sempre múltiplo.

Cada um dos músicos é, claro, um mestre no seu respectivo instrumento: Zíngaro há décadas que é um dos mais incansáveis exploradores das infinitas possibilidades da experimentação e da improvisação pura, um aventureiro na mais nobre acepção da palavra; e Vítor Joaquim um irredutível musonauta com uma longa discografia que documenta uma nunca terminada procura da orla da própria noção de música, do que se encontra para lá dos territórios conhecidos. Este é apenas mais um vislumbre do que ambos já conhecem e que pontualmente vão connosco partilhando.

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