Oficina Radiofónica #18: Nightmares On Wax / Tito / TAMTAM

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Riça 

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


[Nightmares On Wax] Smokers Delight (25th Anniversary Edition) / Warp

Quando se regressa a “Nights Introlude”, tema de abertura de Smokers Delight, o álbum de Nightmares On Wax que agora vê o seu 25º aniversário assinalado com uma reedição expandida, é fácil esquecer as raízes rave da aventura de George “DJ E.A.S.E.” Evelyn. Em 1990, em pleno olho do furacão despoletado pela revolução acid-house, o então duo (além de Evelyn, o projecto à época contava ainda com input de Kevin “Boywonder” Harper) lançou “Aftermath”, um dos marcos do período clássico da Warp (editora que tem em George Evelyn, importante que se diga, a mais longa e constante referência do seu catálogo – Dextrous, o maxi de estreia de Nightmares On Wax, foi o segundo lançamento do selo de Sheffield, em 1989!). Tratava-se de uma gloriosa visão da pista construída a partir de samples de Cuba Gooding Jr e Newcleus, toda ela nervo e tensão, que haveria de influenciar de forma vincada os pioneiros drum n’ bass que aí recolheram importantes pistas para a imposição de uma diferente arquitectura a partir das fundações obtidas com a combinação de graves fundos e tarolas cortantes. Cinco anos depois, George Evelyn decidiu substituir o nervo e tensão por uma cadência mais solta e relaxada, fez o seu ouvido sampladélico recuar da década de 80 disco e electro para os anos 70 funk e soul, trocou o ecstasy pelas delícias para fumadores referenciadas no título do seu segundo álbum e ofereceu ao mundo uma nova orientação para os clubes. Smokers Delight transformou-se, muito justamente, num clássico. Alinhando samples como quem enumera referências ou estabelece balizas (e neste álbum escutam-se excertos significantes de obras de Quincy Jones, Maceo Parker, Barry White, Bob James, Smokey Robinson, The Dells, Millie Jackson, Lonnie Smith ou Undisputed Truth – não restam dúvidas sobre qual a secção das lojas de discos em segunda mão que o homem assombrado pelos “pesadelos em vinil” andava então a explorar), Evelyn estabeleceu aí uma ligação à inesgotável fonte da música negra americana assumindo o hip hop como cartilha orientadora para o seu som e o dub debitado pelos sound systems britânicos como bússola para se orientar na mesa de mistura. O resultado foi um absoluto clássico, uma algo lisérgica salada de ritmos dolentes, guitarras stacatto, baixos ondulantes e breaks de recorte funk, polvilhados com a soul que se desprendia de vozes resgatadas em discos de vinil invariavelmente protegidos por capas em que nobres figuras de amplos afros reclamavam, nos anos que se seguiram ao Movimento dos Direitos Civis, um orgulho negro que se traduziu numa música de horizontes tão amplos que haveria de servir de fonte e inspiração para várias gerações subsequentes. Smokers Delight era o bálsamo que aguardava pelos ravers que recolhiam ao chill out room onde os aguardava uma “Stars” de graves filtrados, congas atmosféricas e uma figura circular de Rhodes a cargo de Robin Taylor-Firth tão hipnótica como as mais psicadélicas propostas dos Orb. Ao alinhamento original, esta nova edição acrescenta agora dois inéditos – “Aquaself” e “Let’s Ascend”, que se posicionam algures entre o “balearismo” tropical e o funk que resistiu na fórmula do jazz de fusão (elogio) – uma “Funk Mix” de “Dreddoverboard” e uma versão ao vivo registada em Chicago de “Nights Introlude”, o icónico tema de abertura do álbum que ousava (e lograva) propor um novo contexto para o espantoso “Summer in the City” de Quincy Jones. E 25 anos depois, esta alternativa fumarenta à rave que em meados dos anos 90 elevava a pressão das BPMs até à vertigem drum n’ bass, mantém-se como um marco que não disfarça a idade e ostenta orgulhoso os sinais do tempo que entretanto passou.


[Tito] Quetzalcoatl / Glossy Mistakes

Se uso em esta grabacion”, declara-se, orgulhosamente, na contracapa da edição original de Quetzalcoatl, antes de uma reveladora lista que inclui pioneiros artefactos de tecnologia electrónica como o Synthi AKS EMS, ARP Odyssey, Minimoog, Solina String Ensemble e ainda piano eléctrico Wurlitzer, guitarra sintetizada Vox Guitar Organ, baixo Hofner, guitarra eléctrica Gibson LP Deluxe, caixas de ritmos Hammond Auto-Vari 64 e Roland Rhythm 77, uma pedaleira que inclui Maestro Rhythm Sound For Guitar, Fender Echo Chamber, Tel/Rey Organ Tone, Harmonix Small Stone, Vox Tone Bender, várias peças de construção caseira – Tixbi Stereo Mixer, Tixbi Graphic Equalizer (9 Bands) – e um gravador de quatro pistas Sony Quad Recorder. Este foi, portanto, o arsenal utilizado para a gravação de Quetzalcoatl por Francisco Javier Quezala, Tito, um estudante de arquitectura nascido em 1946 que tinha uma óbvia paixão por música e design e uma funda curiosidade que o impeliu a construir algumas peças para o seu estúdio caseiro. Este álbum, auto-editado em 1977 a partir de um quarto da Cidade do México, integra-se num muito mais vasto mosaico de obras exploratórias que um pouco por todo o mundo (na mesma época, em Portugal, Rui Reininho e Jorge Lima Barreto lançavam também o solitário projecto da sua Anar Band) foram traduzindo o crescente fascínio pelo novo universo de sons revelado com a então cada vez mais disseminada tecnologia musical electrónica. Claro que em 1977 já uma década separava Tito das pioneiras experiências de alguém como Morton Subotnick, o veterano que lançou Silver Apples of the Moon na Nonesuch em 1967. Maior ainda era a distância para avanços ensaiados por mestres como John Cage, Pierre Schaeffer ou Karlheinz Stockhausen, mas Tito, em boa verdade, pertencia a uma outra classe de criadores: como o casal Louis e Bebe Barron ou aventureiros como Kid Baltan e Tom Dissevelt e Raymond Scott, alguns cérebros do Radiophonic Workshop ou solitários exploradores como FC Judd ou Malcolm Pointon, também Tito compensava as ausências de uma educação formal ou de um contexto local em que se pudesse inserir com uma curiosidade exploratória em estado puro. Quetzalcoatl é, portanto, um registo de electrónica intuitiva e algo inocente que tem como nível significante adicional, para lá da tecnologia usada, a ligação a mitos fundacionais da cultura mexicana. A música faz-se de estruturas simples, melodias de recorte quase pueril ou talvez onírico e ainda de um nítido prazer retirado da exposição das possibilidades sónicas de cada instrumento que não é nada obscurecido, antes pelo contrário, pelo carácter lo-fi da gravação caseira. Este álbum, cuja edição original tem dois exemplares disponíveis no Discogs por cerca de 350 euros, é agora em boa hora relançado pelo selo espanhol Glossy Mistakes numa versão com áudio recuperado por Wouter Branderbourg de Amesterdão, certamente a partir de um exemplar da prensagem original.


[TAMTAM] A100 / Crónica

Num momento singular na história moderna, as cidades esvaziaram-se de gente, o tráfego – aéreo, terrestre, marítimo – abrandou para níveis que não se registavam há décadas e, em consequência disso, entre variadíssimas recuperações ao nível ecológico, voltámos a ser confrontados com uma dimensão do silêncio há muito ausente dos grandes espaços urbanos. E este silêncio presente só torna mais real a névoa do ruído constante em que até recentemente vivíamos mergulhados nas grandes cidades. A100 é um estudo desse ruído, desse drone pulsante e constante, a partir de gravações de campo efectuadas na A100, estrada que rasga Berlim e que portanto tem com ela uma relação simbiótica através da sua massiva presença “física” e “política”: “ela gera um pulsar de vida citadina. Exerce uma influência sobre a identidade de Berlim enquanto símbolo de progresso, de auto-promoção e representação, enquanto é também um objecto de insulto, um elemento disruptivo e um espaço para arte”, referem as notas de lançamento. No seu terceiro registo para a portuguesa Crónica, a dupla TAMTAM – Sam Auinger (electrónica e gravações de campo) e Hannes Strobi (baixo eléctrico, contrabaixo e gravações de campo) –, com a ajuda daq voz de David Moss no tema “Standby”, apresenta um estudo sobre o ruído que a A100 injecta na consciência da cidade, usando as frequências geradas pelo tráfego, os ecos distantes de vozes, como fontes para uma manipulação que tende para abstracção. O álbum divide-se em quatro peças de diferentes fôlegos (4 minutos e 50 segundos para “Standby”, 10 minutos e meio para “Spectral”): arranca com uma peça de agreste ambientalismo gerado a partir de gravações de campo tratadas; prossegue com a peça em que David Moss adopta um tom quase William Burroughs para a sua discrição “spoken word” que sobrevoa uma peça algo “byrne-eno-esca”; mergulha-nos no centro da própria A100 num “espectral” campo harmónico de ruídos de tráfego e ecos de presença humana;  e termina, enfim, com um cruzamento entre o músculo techno e as texturas oferecidas pela A100 aos microfones da dupla no tema “Pulse” que acaba por ser um quase-hino para uma megalópole que se tornou a nova meca da mais ritmicamente vincada música electrónica. Tendo em conta este presente esvaziado dessa identidade sónica, A100 assume uma dimensão quase hauntológica, revelando o assombramento de um pulsar civilizacional que foi interrompido por um vírus tão disruptivo para os seres humanos quanto aparentemente benigno para a restante natureza. Já será possível gravar o som do crescimento de plantas nas bermas da A100?

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu