Oficina Radiofónica #13: Trees Speak / Luke Haines & Peter Buck / John Cage

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Riça 

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


[Trees Speak] Ohms / Soul Jazz Records

Como os Zombi ou os Beak>, os misteriosos Trees Speak, de Tucson, Arizona, também não disfarçam o fascínio que têm pelo pulso “motorik” aprendido em escutas atentas do material que bandas como os Neu!, Cluster ou Tangerine Dream criaram na década de 70 do milénio passado. Os (presumivelmente) irmãos Daniel Martin Diaz e Damian Diaz recorrem a músicos da área de Tucson — gente como Gabriel Sullivan, Alex Pope, Craig Dreyer, Geofrey Hidalgo e Timothy O’Brien ligada a bandas como Giant Sand ou Xixa – para colocarem em marcha as suas esotéricas ideias musicais que até têm direito a uma espécie de mini-manifesto na contracapa deste segundo álbum: “Transcende a catástrofe de ser e vence como entidade viva e abre com as tuas garras o caminho para a iluminação”. Cena hippie, portanto, confirmada em declarações ao Tucson Weekly em vésperas de um concerto em Janeiro último: “A nossa intenção é criar música com uma abordagem minimalista e improvisada através da execução de ritmos simples, riifs e sequências que nos carreguem para dentro. Permitimos que a performance musical esculpa o seu próprio destino criando assim uma imperfeição perfeita. A nossa ferramenta de criação”, esclarecem ainda, “é a ansiedade que se sente quando não se ensaia ou se prepara um espectáculo. Acreditamos que esta abordagem nos leva mais perto de nós mesmos. O resultado é música genuína sem uma agenda que capta o espírito sem filtros”. Hippies, de facto, mas hippies com uma visão aguda do lado mais hipnótico e espiritual da cena kraut. E isso significa peças de deslocação temporal de efeitos psicadélicos, com electrónica pronunciada nos desenhos abstractos, efeitos aplicados à guitarra e a outras fontes sonoras e uma cadência metronómica de cariz orgânico conseguida através de uma interligação umbilical entre o baixo e a bateria. Os sintetizadores e as sequências simples evocam experiências “kosmische” clássicas mas também, como aliás se ressalva no “hype sticker” da capa, se liga ao que bandas como os Silver Apples ou os Kraftwerk do início fizeram (e os homens que haveriam de se transformar em máquinas eram puros hippies nos tempos em que ainda assinavam como Organisation). Há por aqui, como se pressente por exemplo em “Blame Shifter”, um lado atmosférico próximo do de algumas bandas sonoras que poderá remeter para o trabalho que Tangerine Dream fizeram nesse domínio ou até para o pulsar mais primal de alguns dos scores de John Carpenter. Mas a combinação de todas essas nuances (as diferentes sensibilidades kraut, essa ligação por via do improviso a um lado mais inconsciente da nossa psique, a electrónica de vertigem abstracta, o lado mais cinemático de algumas peças) resulta aqui profundamente original e poderá até configurar novo caso de sério culto. A Soul Jazz conta aliás que resolveu editar este álbum, sucessor de um primeiro trabalho homónimo carimbado pela italiana Cinedelic em 2017, depois de um single de edição limitada a 100 exemplares ter esgotado na sua loja do Soho em pouco mais de meia hora (as três cópias disponíveis no Discogs oscilam agora entre as 100 libras e os 500 euros). Escutando “State of Clear” (uma espécie de kraut planante com um subtexto algo pastoral no sintetizador que se esconde nas sombras do groove quadrado que atravessa o tema), não será difícil de concordar que há aqui argumentos de peso para sustentar a eventual reverência que o grupo possa vir a angariar. Venham daí alguns concertos para a Europa, por favor…


[Luke Haines & Peter Buck] Beat Poetry For Survivalists / Cherry Red

OK, não é um disco de música electrónica per se, mas é um disco carregado de electrónica subliminar: caixas de ritmos, pequenos sintetizadores, alguns pós de pirlimpimpim de estúdio e os espíritos de Alan Vega, David Bowie e Lou Reed convocados na mesa (de mistura) ouija. O histórico homem de Transformer é aliás uma espécie de eminência parda deste inusitado encontro entre o ex-líder dos britânicos Auteurs e o antigo guitarrista dos americanos R.E.M.. Haines nunca escondeu a sua paixão por Lou Reed, algo que se manifestou não apenas num álbum inteiro como ainda alimentou a sua veia de pintor. E terá sido após receber um email com uma encomenda de Peter Buck de uma das suas telas dedicadas ao icónico rocker americano que o convite para uma colaboração transatlântica surgiu. Canções escritas por Luke ao sintetizador foram enviadas para Peter Buck que compôs em torno dessas ideias esboçadas pelo homem que também criou os Baader Meinhof ou Black Box Recorder. O resultado é um álbum de canções carregadas de um refinado, literário e até algo nonsense sentido de humor (“Jack Parsons walked on Mars, …rocket fuel makes me horny , terra firma kinda bores me, I wanna be up there with the angels“), pejado de referências a figuras reais (do inventor e ocultista Jack Parsons a Andy Warhol, de Captain Beefheart aos Fleetwood Mac), método recorrente em Haines para destilar todas as suas mais ou menos óbvias obsessões culturais e musicais (e a desmedida paixão pelo histórico líder dos Velvet Underground rende mais uma belíssima canção, a que dá título a este álbum, que bem poderia ser uma sobra de New York). O interessante, musicalmente falando, é que o método de trabalho escolhido, por um lado, a matéria prima poética urdida por Haines, por outro, e o acrescento de sintetizadores, flautas, caixas de ritmos e outras fontes de ruídos exóticos ao power trio de guitarra, baixo e bateria criado por Buck com Scott McCaughey e Linda Pitmon transformam Beat Poetry for Survivalists num curioso e deveras viciante conjunto de canções, uma espécie de fantasia rock que bem poderia existir apenas na imaginação de alguém (Haines declara mesmo, nas notas de capa, que “Ugly Dude Blues”, que aliás tem ecos de Suicide na entrega vocal, é “uma velha canção dos Troggs que Reg Presley nunca chegou a escrever”), mas que se materializa num disco que desafia cânones e que aterra em 2020 vindo de 1978 ou 1987 ou 2003 ou sabe-se lá de quando e onde…


John Cage: Lollipops, 3CD – Cherry Red Records

“If my work is accepted, I must move on to the point where it is not.” John Cage “Without John Cage, much of what happens in modern music and art would not be possible.” Frank Zappa * JOHN CAGE (1912-1992) was an American composer, philosopher, poet, music theorist, artist, printmaker, and amateur mycologist.

[John Cage] Lollipops / Él Records

“Acredito que o uso de ruído para fazer música vai continuar e intensificar-se até que cheguemos a uma música produzida com recurso a instrumentos electrónicos que tornarão disponíveis para fins musicais todos e quaisquer sons que possam ser escutados”. A frase é de um manifesto que John Cage escreveu em 1937, muito antes de Pierre Schaeffer ter feito as primeiras experiências de música concreta, muito antes dos laboratórios americanos, alemães ou franceses terem começado a produzir alguma da primeira música electrónica. Mas essa é a marca do génio de Cage, um visionário cuja obra e pensamento marcou todos os que procuraram novos mundos musicais, todos os que fizeram esforços para escapar à norma, de Frank Zappa a Paul McCartney, de Sun Ra a Aphex Twin e muito, mas mesmo muito mais além. Nesta caixa de três CDs da él inclui-se o registo do concerto de 1958 que os artistas plásticos Jasper Johns, Robert Rauschenberg e o cineasta Emile de Antonio organizaram para assinalar o 25º aniversário da carreira de Cage com a ajuda de gente como David Tudor, um dos grandes intérpretes da obra do compositor, ou de Merce Cunningham, o coreógrafo que trabalhou de perto com Cage e que ajudou a revolucionar a dança moderna americana. A gravação é extraordinária e fixa não apenas o carácter intrínseco da música de Cage selecionada para essa apresentação, mas o próprio momento em que encontrou uma plateia repleta de artistas dos mais diversos sectores da vanguarda americana. Artistas que aplaudiram peças como “First Construction in Metal”, obra de 1939 para percussão metálica variada que soa a pedaço perdido da história da música industrial, ou, também do mesmo ano, “Imaginary Landscape No. 1” que, ressalvam as notas, é “a composição publicada mais antiga a ser considerada uma obra electrónica”. À medida que o programa do concerto foi prosseguindo, o público foi-se também tornando mais audível no seu desconforto. Após a revolucionária “Williams Mix”, composição concreta de 1952 aqui executada através quatro gravadores de fita estéreo e oito colunas, o público divide-se claramente entre apoiantes e críticos, entre os que conseguiam entrever na amálgama caótica de ruídos um retrato da vertigem do então promissor presente do pós-guerra e os que nem sequer considerariam como música o que tinham acabado de ouvir. O incrível “Concert For Piano and Orchestra” (também incluído no “25-Year Retrospective Concert” e que aqui surge já no segundo CD desta antologia), com David Tudor ao piano e Merce Cunningham como estranho maestro, chega mesmo a ser interrompido, com membros do público que não contêm o riso e acabam, neste documento, por soar quase como parte da composição. Cage acreditava no acaso e explorou-o em múltiplas instâncias da sua obra e escutando esta gravação com mais de 60 anos é impossível não pensar como os elementos provocatórios e disruptivos do seu génio, que não fazia concessões, acabam por gerar efeitos imprevisíveis mesmo numa plateia formada pela elite artística de uma avançada sociedade. E essa é a medida correcta da sua obra que antes de ser amplamente aceite conheceu resistências mesmo entre os seus pares. No último CD escuta-se “Indeterminacy: New Aspect of Form in Instrumental and Electronic Music”, com John Cage a ler textos sobre cogumelos e viagens à Europa e cigarros e outras coisas que aqui soam absurdas enquanto, noutra sala, longe dos ouvidos de Cage, Tudor tocava excertos do “Concert for Piano and Orchestra” e pedaços aleatórios da sua “Fontana Mix”. A indeterminação que tanto interessava a Cage tem aqui uma tradução directa. As peças electrónicas “Cartridge Music” (composição de 1960 executada por Tudor e Cage) e “Fontana Mix” (icónica obra de 1958 montada nos estúdios di Fonologia da Rádio de Milão) completam esta impressionante antologia de John Cage, um dos mais intrépidos exploradores das mais remotas zonas da música, um dos primeiros a perceber que a electrónica poderia oferecer ao compositor todo um novo universo de sons e possibilidades.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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