Oficina Radiofónica #1: Floating Points / Craven Faults / Leon Vynehall

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Riça 

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


[Craven Faults] Erratics & Unconformities / Leaf

A viagem, escreve o autor que se reserva do mundo sob a entidade Craven Faults, é tão importante quanto a chegada ao destino. Essa é a ideia central na base de Erratics & Unconformities, álbum de estreia de Craven Fault para a Leaf que sucede aos EPs Netherfield Works, Springhead Works and Nunroyd Works, todos com carimbo da sua própria Lowfold Works. Ou seja, trabalho em modo solitário próprio de quem vive absolutamente convencido de que o mundo não quer saber. E talvez não queria mesmo, já que esta música que aproveita a desolação do norte industrial da Grã-Breatanha, marcado por montanhas esventradas e carcaças metálicas que se recortam sobre o horizonte como memoriais abandonadas pelo tempo, vive de pulsares electrónicos capturados num rádio a válvulas sintonizado numa qualquer estação alemã a emitir de 1972 para o futuro. Só os fantasmas querem saber, certo? Esta música é tão agreste como a paisagem para que remete, tão solitária como as tais carcaças industriais abandonadas pelo progresso, mas há, ainda assim, uma dignidade que ressoa nestes arpeggios, na riqueza textural de cada som extraído a velhos sintetizadores, com os temas a revelarem ser longas derivas minimais precisamente porque a narrativa que neles podemos intuir é a de um mundo onde impera o vazio. Hauntológico até à medula, pois claro.


[Floating Points] Crush / Ninja Tune

Breakbeatando por entre densas nuvens de fumo electrónico e espirais de vapor analógico, o novo álbum de Sam Shepherd, aka Floating Points, é um pequeno prodígio que leva à letra a ideia do hardcore continuum e se posiciona para lá dos territórios conhecidos, arrastando atrás de si ecos de garage, techno e até drum n’ bass numa amálgama abstrata de pulsares, drones e melodias com espessura cinemática. Crush é, também, um dos mais discretos triunfos deste ano, um trabalho de um dedicado criador que é, ele mesmo, como o seu grande amigo Four Tet, um atento estudioso da história da música mais… digamos… esotérica. E há subtis marcas desse estudo polvilhadas nas diferentes peças de Crush, arranjos de cordas que poderão ter origem nalguns mais solenes registos de músicas eruditas do século XX, progressões modais inspiradas no jazz, obtusas passagens que podem ter sido informadas pela música concreta, e poesia modular que Sam certamente aprendeu a declamar a escutar mestres do Buchla. Este álbum foi criado por Floating Points num período muito concentrado de tempo, aproveitando o impulso das exploratórias e improvisadas viagens que efectuou enquanto assegurava as primeiras partes de uma digressão dos The xx em 2017. Expor-se dessa forma perante multidões na ordem dos muitos milhares permitiu a Sam Shepherd desbloquear os mecanismos criativos que conduziram até Crush e o resultado é um brilhante híbrido, algures entre a mais aventureira das pistas de dança e os confins do cosmos.


[Leon Vynehall] I, Cavallo / Ninja Tune

O monólito techno que Leon Vynehall ergue neste I, Cavallo é, como a misteriosa construção em 2001: Odisseia no Espaço, imponente, densa e negra, como se o produtor britânico que o ano passado lançou o álbum Nothing Is Still quisesse, neste maxi com uma faixa apenas (disponível na versão principal e, no lado B, numa versão “Club Front”), mostrar-nos a que soa a música numa pista de dança desprovida de qualquer luz. Com uma longa introdução plena de detalhe e drama, o tema cedo se move para território rítmico, movido pela propulsão típica do kick techno, mas com uma figura de graves recorrente que poderia até ter sido encontrada num velho registo de uk garage ou drum n’ bass, por cima do qual evoluem depois arpeggios sintetizados e pormenores texturais que asseguram a manutenção da densidade de que começámos por falar. Perfeito para um sistema de som de alta qualidade em que possamos mergulhar e, durante quase 7 minutos, manter-nos submersos sem necessidade de vir à tona para respirar. Ou vislumbrar qualquer tipo de luz.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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