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Fotografia: Lauren Desberg

Notas (azuis) acerca da nova geração de músicos a que devemos estar atentos.

O novo som da Blue Note

Fotografia: Lauren Desberg

Todas as culturas têm subjacente um imaginário colectivo formado por símbolos, mitos, heróis e instituições, que as alimentam e as fazem convergir numa unidade de significação inteligível, mesmo que de forma inconsciente, por aqueles que delas fazem parte. Ora, falar do universo cultural que é o jazz e não falar da Blue Note Records é como falar de hip hop e não referir a Def Jam, tal é a ligação inextricavelmente umbilical existente entre estas editoras e os movimentos culturais que a elas estão associados.

Ao longo dos seus 81 anos de existência, o contributo da Blue Note para o jazz é quase tão visceral como as raízes do próprio género: fundada em 1939 por Alfred Lion e Max Margulis, aos quais se viria a juntar Francis Wolff, o selo dedicou-se, inicialmente, a editar grupos de dixieland e swing. Margulis teve um papel menos activo na definição da estética musical da editora, sendo mais creditado pelo seu papel de investidor, ao passo que, Lion e Wolff — dois judeus alemães que se tinham radicado nos Estados Unidos para escapar à perseguição Nazi — eram entusiastas e fanáticos do jazz, género com o qual haviam contactado durante os anos 20 em Berlim. A dupla tinha, primordialmente, como ponto focal a música e não a vertente comercial, motivação que contribuiu para que, de forma irreverente, em 1947, fizessem as primeiras gravações com Thelonious Monk, numa altura em que nenhuma outra label ousaria apostar num músico com características tão progressivas. Esta época marcou a transição da editora para a sonoridade bebop — que, para além de Monk, teve por outros expoentes músicos como o pianista Bud Powell ou o trompetista Fats Navarro –, tendo sido, do mesmo modo, importante no reforço de uma atitude revolucionária e visionária em relação à música, praxis, desde já, publicamente expressa num manifesto incluído num panfleto distribuído com as primeiras edições da Blue Note em que — e em jeito de apelo à originalidade musical e autenticidade de expressão — se lê que o jazz “é expressão e comunicação, uma manifestação musical e social, e a Blue Note Records preocupa-se em identificar os seus impulsos, não os seus adereços sensacionalistas e comerciais.”

A época dourada da Blue Note iniciou-se na década de 50 — altura em que, entre os artistas de jazz, era comum o uso de heroína –, com vários sucessos comerciais dos quais se podem destacar dois míticos álbuns de hard bop: Blue Train (1958) de John Coltrane e Moanin’ (1959) de Art Blakey and The Jazz Messengers, ambos trabalhos não-convencionais, transgressivos, e que desafiaram as fundações da sua própria génese. A década seguinte foi de igual sucesso, contando com vários registos no seu catálogo que ficaram para a história do jazz e que, além do mais, serviram de banda sonora ao movimento dos direitos civis: refira-se, por exemplo, Sidewinder (1964) de Lee Morgan, Maiden Voyage (1965) de Herbie Hancock, Speak No Evil (1966) de Wayne Shorter — este já num registo post bop, combinando elementos de hard bop e harmonização modal –, e até mesmo os trabalhos avant-garde de Ornette Coleman e Cecil Taylor. Foi também durante estas duas décadas que a icónica identidade gráfica — repleta de contrastes, assimetrias geométricas e tipografias a negrito — e sonora da Blue Note se desenvolveram e consolidaram, muito por responsabilidade, respectivamente, do designer Reid Miles (que, insolitamente, não era um fã de jazz) e do engenheiro de som Rudy Van Gelder, dois nomes indissociáveis dos anos de ouro da companhia. Curiosamente, nesta era, a Blue Note era, entre os músicos, famosa pela forma excepcional como os tratava: oferecia-lhes não só liberdade criativa e excelentes condições de gravação, assim como generosas quantidades de álcool — idiossincrasias que, certamente, agradariam até o mais ríspido dos humanos.

No entanto, no final dos anos 60, a editora foi vítima do seu próprio sucesso: problemas financeiros culminaram na sua venda, em 1966, à Liberty Records, da qual fez parte até 1969, ano em que, por sua vez, foi absorvida pela United Artists Recordings. Já os anos 70 não foram particularmente interessantes para os fãs mais conservadores e ortodoxos, visto que esta foi uma década em que o jazz transgrediu o seu domínio mais tradicional e se começou a fundir com outros géneros, incorporando e enriquecendo-se com influências de sonoridades orientais (uma tendência com precedentes na década de 60 e que teve a sua expressão, particularmente, no advento do spiritual jazz), e mesclando-se com o funk, soul e o r&b. Refira-se, neste domínio, o seminal trabalho Black Byrd (1973) de Donald Byrd, o maior bestseller da editora até então e um cânone do jazz fusão. Porém, à luz de uma perspectiva mais contemporânea, estes foram anos, indubitavelmente, valiosíssimos, tendo sido lançados álbuns como o Two-Headed Freap (1972) de Ronnie Foster, que viria a ter um impacto imensurável na cultura hip hop, com o tema “Mystic Brew” a servir de base ao eterno Electric Relaxation (1993) de A Tribe Called Quest, ou até mesmo a temas de Madlib e J. Cole e Kendrick Lamar. Ademais, em 1979, a United Artists Recordings foi comprada pela EMI, afundando a Blue Note num período de dormência, tendo sido o One Night With Blue Note, concerto realizado em 1985 no Town Hall de Nova Iorque, a iniciar o processo de renovação da defunta editora.

Por fim, dos anos 90 até à actualidade, a editora tem apostado numa linha de artistas mais tradicional — nos quais se pode referenciar, e.g., o saxofonista Joe Lovano e o guitarrista John Scofield, que foram caras da editora durante a década de 90, ou Gregory Porter, uma descoberta já da última década que marca o regresso dos crooners -, que se traça paralelamente a uma linha mais de fusão, e até mesmo mainstream, que trouxe uma refrescante e, para muitos, atractiva coolness ao jazz (ironicamente, mais cool que o próprio cool jazz): começando em 1993 com sucessos como Cantoloop (1993) dos Us3; continuado na consagração de artistas como Norah Jones, Greg Osby e Jason Moran; e, por fim, culminando no surgimento de um novo rooster onde se encontram nomes como José James, Kendrick Scott e Robert Glasper. Este último tem, aliás, encabeçado a proa da editora ao longo deste novo milénio, içando bem alto a bandeira do jazz e tornando-o, novamente, relevante para toda uma nova geração — muito por culpa de falar a sua linguagem, i.e., o hip hop –, sendo inevitável mencioná-lo como um dos músicos que abriu caminho para o “novo som” da Blue Note.

Naturalmente, uma editora com a longevidade e catálogo da Blue Note tem seguidores que abrangem um extenso leque de faixas etárias, influências e preferências estéticas, o que propulsiona uma constante necessidade de adaptação a novos públicos e exploração de novas sonoridades. É, então, neste fino balanço entre o que a Blue Note quer que o público ouça e o que o público quer ouvir da Blue Note, que uma nova geração de músicos tem emergido para sustentar, desenvolver e definir aquela que é a banda sonora deste novo mundo. É certo que, por um lado, a editora continua a apostar em edições dos pesos pesados do jazz, uma estratégia que delicia tanto os ouvidos dos melómanos apreciadores de sonoridades mais puristas como, igualmente, os amantes de uma abordagem mais tradicional ao jazz. Neste domínio refira-se, por exemplo, o Valentina de Bill Frisell — guitarrista habitualmente associado ao selo da alemã ECM ou à Nonesuch Records – com lançamento previsto para meados de Agosto; o recentemente editado 8: Kindred Spirits (Live from the Lobero) (2020) do lendário saxofonista e flautista Charles Lloyd; e, por fim, as inúmeras e constantes reedições de álbuns que marcaram a história da editora. Por outro lado, e talvez esta seja a expressão mais apelativa à nova geração de ouvintes, tem também apresentado uma palete de novos artistas e sonoridades que combina a jovialidade e audácia de virtuosos músicos que exploram inovadoras abordagens à linguagem musical do jazz, até às fusões — tão em voga nos últimos anos e que, pensando bem, são uma espécie de reimaginação contemporânea do status quo do jazz nos anos 70 — deste género com outras sonoridades como o pop, hip hop, o (neo-)soul ou o r&b. Afinal, tal como denotado por Don Was — o seu actual presidente –, na Blue Note trata-se de “revolução, mudança, e [de] ser radical.”

Assim, incorrendo em todos os riscos e desvantagens implícitos a uma abordagem lacónica, este artigo propõe-se a sintetizar o actual estado de arte da editora das notas azuis — que, a propósito, cunhou a coluna de crítica e programa de rádio de Rui Miguel Abreu, dedicado às novas tendências do jazz –, visto ser premente rastrear e divulgar as suas mais frescas inclinações sónicas. Não incluído na lista infra apresentada, mas com direito a meritória menção honrosa, é de referir, entre outros, o What Kinda Music (2020) de Tom Misch (recentemente entrevistado para o Rimas e Batidas) e Yussef Dayes, do qual a exclusão prende-se ao facto de ser um projecto único e, provavelmente, irrepetível (que a história me desminta!). Além disso, os melómanos mais atentos aguardarão com ansiosa expectativa o lançamento de Blue Note Re:imagined, uma compilação onde nomes da new wave do jazz britânico como Shabaka Hutchings, Ezra Collective e Nubya Garcia irão apresentar clássicos da editora reinventados. Afinal, só um selo com a história, carisma e dimensão da Blue Note se pode dar ao luxo de viver do seu passado, definir as tendências do presente, e projectar o futuro moldando-o à sua visão.



[Joel Ross]

Falar do novo sangue que circula por entre os meandros da Blue Note implica, necessariamente, falar de Joel Ross, aquele que é uma das maiores promessas em ascensão nos circuitos de jazz nova iorquinos e que, apesar da tenra idade, adquiriu já um estatuto de estrela, muito devido ao seu talento natural e precoce criatividade. Natural de Chicago onde deu os primeiros passos como músico, mudou-se para Nova Iorque para continuar os seus estudos, cidade onde se tem vindo a afirmar como o herdeiro do legado de lendários vibrafonistas lançados pela editora ao longo da sua história, entre os quais: Milt Jackson, pioneiro do bebop e influência central de Ross; Bobby Hutcherson, que aconselhou Ross a “escrever música sobre a [sua] vida e [escrever música] todos os dias.”; até ao contemporâneo Stefon Harris, que foi seu professor aquando da participação de Ross no Brubeck Institute Jazz Quintet na University of the Pacific.

Em 2019, com apenas 23 anos, Ross estreou-se pelo selo Blue Note com KingMaker, um trabalho de longa-duração em que se fez acompanhar pelo seu quinteto Good Vibes e que gerou uma onda de reacções e críticas positivas. Além deste disco, Ross conta já com participações em diversos projectos, entre os quais se podem destacar Universal Beings (2018) do baterista e produtor Makaya McCraven — que, inclusive, inclui um tema intitulado Young Genius, nomeado em honra do vibrafonista –, ou o projecto Being & Becoming (2020) liderado por Peter Evans, trompetista e mestre da improvisação, residente em Lisboa, e que tem colaborações com inúmeros músicos da cena jazz nacional.

Criativo, irreverente e talentoso, Joel Ross é um músico ao qual devemos estar atentos e que, seguramente, voltará a surpreender num futuro próximo.



[James Francies]

Os mais atentos aos talk-shows americanos poderão reconhecer James Francies das suas aparições no The Tonight Show Starring Jimmy Fallon onde, sempre que necessário, substitui James Poyser nas teclas do piano dos The Roots. Isto porque Questlove e Francies conheceram-se depois do último se ter mudado para Nova Iorque, cidade onde, para além de construírem uma forte amizade, têm vindo colaborar em projectos para cinema, teatro musical e televisão.

Originário de Houston, no Texas, Francies, tal como Joel Ross, tem tido uma ascensão meteórica na cena jazz ao comando das binárias teclas do piano. Detentor de ouvido absoluto e de raras capacidades sinestésicas (supostamente, consegue ouvir cores), foi, em criança, um pianista prodígio, tendo começado a aprender o instrumento com 4 anos. Mais tarde estudou na High School for the Performing and Visual Arts, escola que formou nomes como Robert Glasper, Jason Moran, Chris Dave e Kendrick Scott — um passado que não deslumbra Francies que está consciente de que “há uma responsabilidade que vem com isso também.”

Aos 23 anos, havia já colaborado com sonantes nome do jazz como Pat Metheny, Stefon Harris, e Terrace Martin. Ademais, teve também ligações a músicos do universo do hip hop e r&b, como Lauryn Hill, José James, Common, Nas, Chance the Rapper e Kodak Black, experiências que, segundo Francies, foram preciosas lições sobre a “construção de sons, consistência, entrega e capacidade de apoio“.  

Em 2018 lançou o seu álbum de estreia pela Blue Note, Flight — que conta, a propósito, com a participação de Ross no vibrafone — onde exprimiu todo o seu potencial técnico, criativo e miríade de eclécticas influências em 11 brilhantes e entusiasmantes temas. Curiosamente, Flight foi co-produzido por Derrick Hodge — baixista de Robert Glasper Experiment –, outro dos grandes nomes da editora das notas azuis que será referenciado mais detalhadamente neste artigo.

Destacando-se não só pela sua soberba técnica ao comando das teclas, mas também pelas suas capacidades de composição e de líder de banda, James Francies é outros dos nomes que define o novo som da Blue Note e ao qual devemos seguir os passos.



[Ambrose Akinmusire]

Ambrose Akinmusire já não é novo nestas andanças, estando o seu génio musical e sensibilidade arrebatadora assaz demonstradas e confirmadas ao longo dos seus seis álbuns de estúdio (cinco dos quais pela Blue Note). No entanto, tal como confessou à DownBeat magazine do mês de Agosto, isto não impede o trompetista de, inveteradamente, acordar todos os dias às 4h45 da manhã para praticar o seu instrumento — um hábito que nos relembra que a par de um grande génio musical está, amiúde, uma obsessiva ética de trabalho –, quiçá por culpa de um episódio semi-traumático em que Donald Byrd lhe disse “tu soas bem, mas lembra-te sempre de que não vales uma merda [sic] comparado ao Booker Little“.

Apesar do seu extenso currículo, a inclusão de Akinmusire nesta lista é justificada pelo recente lançamento do seu último álbum, on the tender spot of every calloused moment, onde o trompetista e compositor, mais uma vez, volta a surpreender e a inovar. Lançado num momento sensível da sociedade americana, especialmente para a comunidade afro-americana, este é um trabalho que transborda o universo puramente musical em várias vertentes: tem tanto de música como de filosofia, tanto de emoção como de racionalidade, tanto de esperança como de perentoriedade, tanto de improvisação como de composição, tanto de jazz como de blues – tudo expressões do que é ser-se humano e, em particular, negro na sociedade americana. Há, também, espaço para homenagens a lendas como Roscoe Mitchell (membro dos Art Ensemble of Chicago) e ao falecido Roy Hargrove, ou elegias aos que pereceram na luta pelos direitos civis da comunidade afro-americana.

Mais do que um mero álbum de jazz, on the tender spot of every calloused moment é uma tentativa de responder a uma pergunta que foi dirigida por Akinmusire a Archie Shepp – “O que é o blues?” Consequentemente, é impossível que este não seja um registo do significado do blues para o trompetista, o qual é brilhantemente manifestado numa obra repleta de emoção, originalidade, criatividade e novas abordagens sonoras; porém, todavia, a sua singularidade assenta não só nas provocações musicais apresentadas, mas também no profundo manifesto social que este trabalho representa em si mesmo: já percebemos a que soa o blues em 2020, mas será que já percebemos qual é o som deste novo mundo? Pergunta difícil… resta-nos aceitar que Akinmusire, indiscutivelmente, faz parte dele.



[Immanuel Wilkins]

Immanuel Wilkins é mais uma das novas caras da Blue Note que, segundo Jason Moran — o produtor do seu álbum de estreia, Omega –, “mistura tradições de uma forma que apenas a sua geração sabe fazer“. Além disso, como que rendido ao virtuosismo deste novo sangue, Moran acaba também por reconhecer que “o futuro da música pertence a estes músicos, e eu confio nos seus instintos“. Se alguém com as credenciais de Moran profere estas afirmações, sabemos, prontamente, que estamos perante um caso sério.

Originário de Filadélfia, em 2015 Wilkins mudou-se para Nova Iorque para prosseguir os seus estudos, cidade onde viria a conhecer Ambrose Akinmusire que o apresentou à cena jazz da cidade que nunca dorme. Apesar de ter apenas 22 anos, já colaborou com um notável leque de artistas, entre os quais Jason Moran, Solange, Gretchen Parlato, Wynton Marsalis, Aaron Parks e Gerald Clayton — pianista que acabou de lançar Happening: Live At The Village Vanguard, trabalho merecedor de uma atenta audição. Ademais, é também membro do quinteto Good Vibes de Joel Ross, vibrafonista aqui referenciado anteriormente.

Já o seu primeiro trabalho de longa-duração, Omega, tem lançamento previsto para Agosto. Para já, podemo-nos contentar com o single de apresentação, Warriors, um tema que, segundo o saxofonista e compositor, é sobre “amizades, a família, o teu bairro, e a tua comunidade”. Apesar de ser a única faixa ainda disponível, 6 minutos e 56 segundos são suficientes para nos deixar com água na boca e vontade de ouvir mais — que venha de lá esse álbum, por favor!



[Derrick Hodge]

Derrick Hodge é o músico mais velho desta lista. Do alto dos seus 41 anos, é um artista multifacetado, não só reconhecido pelo seu trabalho como músico e produtor (e.g., no Flight de James Francies, já aqui referenciado anteriormente), como também pelas suas incursões na composição de música para cinema onde conta, por exemplo, com um tema incluído no emocionante álbum de Terence Blanchard, A Tale of God’s Will (A Requiem for Katrina), que serviu de banda sonora ao documentário da HBO When the Levees Broke: A Requiem in Four Act, dirigido por Spike Lee e filmado na sequência da devastação física, económica e social provocada pelo furacão Katrina.

Tal como Immanuel Wilkins, Hodge é originário de Filadélfia, metrópole onde iniciou a sua aprendizagem e carreira como músico. Curiosamente, começou por aprender guitarra eléctrica, tendo, mais tarde, transitado para o baixo eléctrico, instrumento com o qual se viria a definir como músico. A sua influência na editora não é de hoje: apesar de ser maioritariamente conhecido por ser baixista em Robert Glasper Experiment, conta já com três álbuns em nome próprio — Live Today (2013), The Second (2016), e o fresquíssimo Color of Noize (2020) — desde que por esta assinou em 2011.

O seu mais recente trabalho, Color of Noize, é um incrível disco que reflecte um melting pot de influências sonoras que vão desde o jazz ao hip hop, passando pelo soul, até às sonoridades orientais, sendo um álbum que merece uma audição cuidada e que está em linha com a filosofia contemporânea da Blue Note. Assim, Color of Noize é, indubitavelmente, um trabalho seminal de Hodge e, portanto, a sua inclusão nesta lista é obrigatória.



[Kandace Springs]

A Blue Note sempre incluiu no seu catálogo maravilhosas vozes femininas: desde as primordiais Jutta Hipp e Dianne Reeves, até à mais contemporânea Norah Jones — que, aliás, inspirou Kandace Springs a aprender piano e a iniciar-se no canto –, várias são as artistas que marcaram indelevelmente este imaginário. No encalço desta história surgiu Springs, artista que representa a nova geração de músicos femininos da editora.

Imensamente talentosa, detentora de uma maravilhosa voz, exímia pianista e com uma especial sensibilidade para criativas reintereptações de clássicos do soul e do jazz, Kandace Springs lançou este ano The Woman Who Raised Me (2020), aquele que é o sucessor de Soul Eyes (2016) e Indigo (2018), todos trabalhos editados pela editora das notas azuis. Em The Woman Who Raised Me, a cantora e pianista de soul-jazz presta tributo a algumas das suas maiores inspirações – e.g., Ella Fitzgerald, Nina Simone, Billie Holiday e Lauryn Hill -, reconhecendo: “tornei-me o que sou hoje abraçando estas mulheres e as suas histórias”.

Kandace Springs é o zénite do universo feminino no presente da Blue Note — uma editora que, infelizmente, ainda é dominado pelo género masculino. Deste modo, é evidente que o mundo precisa de mais Kandace Springs, não só no papel de cantoras, mas também como instrumentistas e líderes de bandas. Esperamos que exemplos como este sustentem as bases para que essa mudança aconteça de forma gradual, mas definitiva, e, preferivelmente, ainda durante a primeira metade deste século.



[GoGo Penguin]

Os GoGo Penguin são a única banda desta lista proveniente dessa incubadora de tendências e novos talentos que são as terras de Sua Majestade. Originários da cinzenta cidade de Manchester, são formados por Chris Illingworth no piano, Rob Turner na bateria e Nick Blacka no (contra-)baixo. Em 2014, foram nomeados para o Mercury prize na categoria de melhor álbum com o seu disco V2.0, o que os colocou nas bocas (ouvidos) do mundo, tendo mesmo acabado por assinar pela Blue Note em 2015, pela qual já editaram três trabalhos de longa-duração: Man Made Object (2016), A Hundrum Star (2018) e, por fim, lançado em Junho deste ano, o homónimo GoGo Penguin. Com uma sonoridade extremamente ecléctica que funde o jazz, a música clássica e a electrónica — notando-se, inclusive, laivos de math/post-rock –, os GoGo Penguin fazem jus à tradição musical do Reino Unido, influenciando-se tanto nos bristolianos Massive Attack e na lenda viva Brian Eno, como na paisagem sónica da ilha britânica do final dos anos 80 e princípio da seguinte década, recheada de jungle, breakbeats e drum and bass.

Donos de uma carreira já notável, reforçam a ideia de fusão, inovação e revolução que a Blue Note tem vindo a cultivar nas últimas décadas, apresentando-se com uma sonoridade refrescante que não deixará ninguém indiferente. Nada mau para um grupo de rapazes que ainda se encontra na casa dos 30!

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