Nuno Catarino & Márcia Lessa: “Este livro pode ser porta de entrada para quem quer descobrir mais músicos”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Mónica Sousa

Márcia Lessa, fotógrafa, e Nuno Catarino, crítico e jornalista, assinam Improvisando – A nova geração do jazz português, livro com chancela do Hot Clube de Portugal que retrata um conjunto de 14 músicos — Ricardo Toscano, João Hasselberg, André Santos, Rita Maria, Desidério Lázaro, Pedro Branco, João Barradas, Gabriel Ferrandini, Sara Serpa, Luís Figueiredo, César Cardoso, Susana Santos Silva, João Mortágua e Pedro Melo Alves — que representam, como o subtítulo indica, uma nova força no panorama jazz nacional.

Em conversa com os autores percebe-se que este é um retrato que está longe de ser completo ou exaustivo e que Improvisando poderá até ser o ponto de partida para uma série de mais retratos que ajudem a fixar os rostos e as ideias de quem faz mover esta música de invenção no nosso país.



Isto é um retrato de um tempo, portanto há-de ter um valor documental daqui a 10, 15, 20 anos. Para pintarem este retrato desta época, como é que depuraram todas as entrevistas que já tinham feito para chegar a este número de pessoas? Esse foi o processo mais complicado?

[Márcia Lessa] Foi muito natural, na verdade. Ao longo dos anos em que estivemos a fazer isto, a coisa ia acontecendo porque havia um deles que lançava um disco em nome próprio e despertava-nos o interesse, não só por lançar um disco mas pelo todo que estava a fazer. 

É que nós pensamos muito nos livros como coisas do presente mas a verdade é que daqui a 30 anos isto há-de estar na estante de alguém e estes nomes que vocês aqui elegeram hão-de ser tidos daqui a 30, 40, 50 anos como aqueles que mereceram figurar num livro naquela época. 

[Nuno Catarino] E alguns provavelmente nessa altura ainda tocam e serão grandes nomes. Provavelmente outros aparecerão. Não sabemos o que é que vai acontecer. Até pode ser que nenhum depois tenha um grande futuro. Esperemos que não [risos]. Esperemos que todos tenham grande sucesso. Mas achámos que neste momento é um retrato. Tentámos que fosse justo. A selecção ao princípio foi um pouco casual e natural, mas depois nós também começámos a pensar um pouco mais…

… “quem é que nos falta aqui”? 

[NC] Sim. Às tantas já tínhamos uma base de músicos que sabíamos que não podiam faltar e depois começámos a pensar numa série de outras pessoas, nomeadamente instrumentistas. Também não podíamos ter só guitarristas ou saxofonistas. Tentámos que fosse bastante abrangente. 

[ML] Mulheres também. 

[NC] Também tentámos que não fossem só homens porque [isso] é um problema. 

[ML] Não é fácil. 

Essa era uma das questões que eu ia colocar. Há 3 em 14, não é? Vocês acham que é representativa, essa proporção?

[ML] Infelizmente é um bocadinho. 

[NC] Sim, aliás, no jazz são muito poucas as mulheres instrumentistas. Conseguimos contá-las pelos dedos, e normalmente são só mulheres cantoras. Há muito aquela coisa de que o músico homem é instrumentista e são poucos os homens cantores, e nas mulheres é o contrário. Nós incluímos uma instrumentista, que é a Susana Santos Silva, e duas cantoras, que há muito mais por onde escolher. E a Susana Santos Silva é uma escolha natural não por ser mulher, mas porque é uma das figuras mais relevantes do jazz nacional e internacional. Mas achamos que é mais ou menos proporcional. Tentámos que não fosse muito desequilibrado, mas tendo em conta que há muitos mais músicos homens, acaba por ser este o resultado. 

Quando nós olhamos para a constantemente descrita como muito vibrante cena musical britânica de jazz deste momento, a quantidade de mulheres instrumentistas é assombrosa e com vários ensembles inclusive a serem liderados por mulheres. Vêem aí algum sinal de pouco desenvolvimento da nossa cena, o facto de não contemplar espaço para mais mulheres?

[ML] Não sei se é atraso. Eu acho que é o ritmo possível para o país que temos. Cada país, como cada pessoa, tem o seu tempo. Se formos ao Hot, vemos muito mais homens a ouvir jazz. Acho que o jazz ainda é uma coisa de gajo, sinceramente. É uma coisa que muitas vezes me perguntam: “como é que tu gostas tanto de jazz?” Sempre me questionaram por ser mulher. Eu não percebo [risos]. É só estúpido, mas é um facto. Eu acho que o jazz continua a ser uma coisa muito masculina. 

[NC] Ainda, mas acho que isto pode evoluir e tem estado a evoluir aos bocadinhos. Acho que comparar com a cena londrina e britânica é um bocado injusto. Eles lá têm as Nérija, a Nubya Garcia, esse pessoal todo. Nós vemos que há poucos discos de mulheres, poucas mulheres instrumentistas, mas depois vamos a ver porquê… se calhar ainda não há tantas mulheres nas escolas. E porque é que não há? Porque ainda há preconceito. Se calhar só agora as novas gerações, que também têm mais a questão da igualdade, vão desconstruir os preconceitos de que as mulheres só podem ser cantoras e de que os homens não podem ser cantores. Se começar a ser incutido nas crianças nesta altura se calhar começam a entrar nas escolas mais mulheres para tocarem mais instrumentos e daqui as uns anos começam a sair formadas. 

É um processo, não é?

[ML] É um processo. Acho que estamos num bom caminho. Na música clássica já vês N mulheres, não só a tocar violino e piano, mas vês cada vez mais no contrabaixo. No jazz também já começas a ver mulheres contrabaixistas. 

Até a questão física do tamanho do instrumento acaba por ditar um bocadinho isso, a escolha dos instrumentos. 

[ML] Exactamente, mas na música clássica é incrível a quantidade de mulheres numa orquestra. E a tocarem instrumentos, supostamente, mais masculinos. 

E outra coisa que me intrigou, e imagino que aconteça por opção consciente, mas só dois dos instrumentistas são retratados com os seus instrumentos. 

[ML] [Risos] Não era o suposto. 

Alguma razão para isso?

[ML] A premissa era não haver instrumentos, mas eles tinham-nos no momento quando fizemos a entrevista. Foi circunstância do momento, mas a premissa era que não houvesse instrumento. Também não somos castradores e quando nos perguntam nós deixamos um bocado à-vontade. E pelo menos no Barradas acho que até correu muito bem. Por acaso estive a falar com ele e o preconceito que [existe] com o acordeão no jazz. Ele sofre muito. Não tocas jazz; tocas acordeão, e às vezes fazem logo uma cruz. 

A presidente do Hot Clube, que assina um dos textos da introdução do livro, tem uma frase curiosa. “O que é que se espera de uma nova geração?”, pergunta ela, e a primeira coisa é “respeito pela tradição”. Isto não deveria ser a última coisa que se esperava de alguém de uma nova geração?

[ML] Tens que perguntar-lhe [risos], o que ela quer dizer com isso. 

[NC] Sim, são palavras dela. Pronto, pelo menos a partir destes retratados acho que a maior parte deles tem um pé na tradição. Se alguns deles não estão ligados à tradição, conhecem-na e também a respeitam. Acho que algo que caracteriza, mesmo os que desenvolvem trabalho mais avant-garde e música mais improvisada, é um profundo conhecimento da tradição, todos passaram por um processo de estudo e acho que a tradição faz parte do percurso. 

Será importante conhecê-la, a tradição, quanto mais não seja para a destruir [risos]. 

[NC] Sim, mas acho que é importante respeitar a tradição, seguir em frente e procurar novos caminhos. 

Já fui vos foi cobrada alguma ausência do livro?

[NC] Sim… 

[ML] Há aqui outro critério que nós não referíamos, mas que nós tivemos cuidado, e mesmo assim já levámos muita porrada. 

Impuseram um limite de idade?…

[ML] Não, a questão geográfica, a origem de cada um deles. 

[NC] Nós temos músicos da Madeira, do Algarve, de Coimbra, da Região Centro. Também temos músicos do Porto. 

Queriam que fosse representativo geograficamente, portanto.

[NC] Sim, tentámos que fosse, dentro dos limites. Mas acho que tendo em conta o número de músicos que tinha que ser, e que era limitado… isto é naturalmente uma coisa incompleta. A selecção pode ser completamente questionada. 

Mas era isso que eu ia dizer. Se tivesse aqui na capa estampado “volume um”, o problema estaria resolvido. 

[ML] Sabe Deus este, quanto mais… 

[NC] De certeza que há outros músicos que ficaram aborrecidos porque vêem que este músico apareceu e que aquele não apareceu, mas não me disseram pessoalmente. Imagino que haja um burburinho. 

[ML] Se calhar até têm razão, mas, lá está, se houver um segundo volume, eu acho que o nosso país tem, mas de longe, margem para fazermos mais 14, principalmente uma geração que agora está nos 20s, malta de todo o país. 

[NC] Acho que mais 14 é pouco. Se fosse 50, ia haver gente que se ia queixar. 

[ML] Sim, mas seria justo retratar mais alguns. 

[NC] Pronto, isto tinha que ser necessariamente curto, tinha que ser um número mais limitado e assumimos que é uma coisa incompleta. 

Para quem é que vocês acham que este livro vai ser importante? Aqui há umas semanas, na apresentação do Rodrigo Amado na Culturgest, eu via uma série de gente muito entusiasmada e a apontar para outros músicos que estavam na plateia. Ou seja, há gente neste país que está nas escolas em busca de modelos. Portanto, vocês acham, por exemplo, que esses estudantes vão pegar neste livro? 

[NC] Não sei, acho que por um lado pode interessar a alguns músicos, a alguns festivais e a algumas salas que não têm dado tanta atenção. E mesmo [para] pessoas que gostem de música, que queiram conhecer e que se calhar conhecem o Toscano, mas não conhecem outros músicos que estão aí. Pode ser uma porta de entrada para algumas pessoas que conhecem alguma coisa mas que querem descobrir mais músicos. 

Eu quase que te perguntava directamente se não vês isto como uma ferramenta de ensino também.

[NC] Isso se calhar é um pouco ambicioso, não sei [risos]. 

Não há lições dentro deste livro? No discurso dos músicos não adivinhas matéria importante para que novas gerações se inspirem?

[ML] Pode ser uma inspiração, sem dúvida. Ainda há uma questão: as entrevistas, antes de serem editadas em livro, foram disponibilizadas no site jazz.pt, portanto elas já foram dadas a conhecer ao mundo. Mas há outra questão, pelo menos para mim, não sei se falo pelo Nuno, mas também tem a ver um bocado com a maneira como eu encaro o meu trabalho: o registo para a memória. 

Como se costuma dizer: “para memória futura”.

[ML] Ficou aqui registado que em 2019, a dada altura, estes 14 músicos estavam a fazer isto. E fica aqui o documento. Quer dizer, na Internet a coisa perde-se. E era o que te dizias: alguém vai ter isto na estante e daqui a alguns anos vai perceber que há não sei quantos anos a cena jazz em Portugal passava por aqui. Eu dou muita atenção à memória, e eu acho que o livro, em formato físico, tem esse papel, esse poder, essa importância. E para estes 14 músicos que dedicam a sua vida à música, acho que é importante para eles figurarem aqui. E voltando um bocadinho atrás, acho que era mesmo fixe fazer mais um volume. 

Vocês estão no domínio das suposições quando falam nisso, mas não é uma ideia discutida com o Hot Clube, por exemplo? Poder dar continuidade a este trabalho de alguma maneira?

[ML] Ainda estamos a digerir um bocadinho este [risos]. 

[NC] Se nós tivermos o financiamento para tal, podemos avançar. E se calhar agora podemos pensar melhor no assunto e na própria selecção dos músicos, fazer um complemento a este primeiro volume. Sendo que é sempre um trabalho incompleto, mesmo se forem mais 14 ou mais 20. Acabam sempre por ficar muitos outros de fora. 

Os melhores trabalhos são esses, aqueles que não têm fim à vista. Uma última pergunta: vocês fizeram este trabalho sobre o jazz nacional, mas ambos, tu como fotógrafa, tu como jornalista/crítico, têm acompanhado artistas internacionais de visita ao nosso país. O que é que vocês acham que é único na nossa cena jazz por comparação àquilo que conhecem das cenas jazz internacionais? 

[ML] Não sei se sou a pessoa indicada para te dar essa resposta, mas a dada altura, quando foi o lançamento no Hot, perguntavam-nos se havia um jazz português. Se hoje em dia se já sentia que o jazz em Portugal tinha um acento português. Isso eu acho que sim. Claro que as pessoas vão-se inspirar no jazz americano, as referências que mais facilmente lhes chegam, mas acho que hoje em dia a música portuguesa deixou de ser… também havia um certo preconceito em ouvir o que é que era nosso, e hoje em dia sinto que a malta tem curiosidade e vai ouvir sem vergonha aquilo que se fazia em Portugal. E acho que de, alguma maneira, os músicos deixam transparecer isso naquilo que tocam e naquilo que escrevem. 

[NC] Desde os anos 80 e 90, houve uma atenção à melodia, e isto se calhar não engloba todos, mas é uma coisa comum a muitos músicos. Há uma certa harmonia portuguesa que já várias pessoas falaram nisso, e o João Paulo Esteves da Silva é um bom exemplo disso. O Toscano tem sido influenciado por isso e outros músicos, por exemplo; a Isabel Rato também usa muito melodias tradicionais portuguesas; e alguns outros músicos que pegam em melodias da tradição e que “jazzificam” ou que criam mesmo coisas originais mas com alguns elementos dessa tradição musical nossa. Muito do jazz português desde os anos 80 e 90, desde o Pinho Vargas. Acho que muitos da nova geração utilizam um pouco disso e claro que há muitas estéticas diversas e há muitos músicos — que vão do Ferrandini à Susana dos Santos Silva, do Pedro Branco à Rita Maria — que fazem coisas muito diversas, mas se calhar alguns deles, a dado momento, [incluem] essa questão da tradição e das melodias na sua própria música. 

[ML] Olha, o André Santos. Ele tem um trabalho interessantíssimo de pesquisa da música tradicional da Madeira, mesmo em termos de cordofone, e traz isso para a cena dele. 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu