Nova Batida’19 – Dia 1: valha-nos a música

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Nova Batida

A experiência do ano passado não nos deixou completamente rendidos e foi preciso uma grande renovação no cartaz para que equacionássemos regressar ao Nova Batida, festival importado de Inglaterra que celebra o seu segundo ano de vida na capital portuguesa. Se em 2018 o evento apenas apresentava uma mão-cheia de trunfos num line-up com dezenas de nomes, a edição de 2019 melhorou bastante essa proporção, algo que captou a atenção dos portugueses, que desta vez se fizeram sentir em maior número, embora o inglês continuasse a ser a língua mais ouvida dentro do recinto.

À chegada notámos algumas mudanças em relação à temporada passada mas não todas necessariamente para melhor. Desta vez até o staff era composto, na sua maioria, por estrangeiros, alguns deles que mal “arranhavam” o português ou, pior, não sabiam sequer dar-nos informações que deveriam ser essenciais para o desempenho da função. Acreditação para a nossa entrada tratada e percebemos logo de seguida que a sala principal do LX Factory tinha mudado para um local bem mais amplo, com espaço suficiente para que a plateia pudesse estar composta e a dançar a seu bel-prazer sem ter de ir contra quem estava à volta.

Foi por lá que iniciámos a nossa jornada ao som de Ross From Friends — e note-se que não perderíamos nada se tivéssemos conseguido iniciá-la mais cedo, já que Onra, KOKOKO! e Nubya Garcia haviam passado pelo mesmo palco horas antes. Felix Clary Weatherall apresentou-se ao comando da mesa de mistura, ladeado pelos amigos John Dunk (à sua direita, munido de um computador e um saxofone) e Jed (à sua esquerda e a envergar uma guitarra eléctrica), os companheiros escolhidos para o formato live do seu espectáculo. Depois de descolar de forma suave durante uns 10 ou 15 minutos, não demorou muito até que a sua actuação atingisse o pico, à boleia do seu sentido rítmico, bastante orientado para a cena clubbing, e das faixas que convenceram o “patrão” Flying Lotus a dar-lhe total confiança editorial na sua Brainfeeder. Foi com a etiqueta do selo de Los Angeles que o jovem produtor londrino carimbou os seus últimos projectos — o EP Aphelion, o primeiro álbum Family Portrait e o mais recente curta-duração Epiphany — que estiveram na ordem do dia para a sua vinda a Lisboa. “Thank God I’m A Lizard” foi uma das suas últimas cartadas para arrancar um forte aplauso do público: apresentado no Nova Batida através de uma versão menos encorpada, deu uma maior margem de manobra para que John Dunk sobressaísse no solo de saxofone.



Tivemos de aguentar 45 minutos até à hora do concerto seguinte, tempo esse marcado por uma maior afluência à sala principal do LX Factory, deixando clara a ideia de que o projecto musical protagonizado por Sam Shepherd era uma das grandes atracções daquela noite. A estufa que se fazia sentir dentro do espaço convidava-nos a visitas à rua de 15 em 15 minutos e o suor era visível na cara de todos aqueles que arriscavam em balançar o corpo ao som das batidas. O serviço de bar mostrava-se ineficiente para dar vazão a tanta gente e no pior dos casos a espera por um refresco em estado líquido chegava a demorar meia hora, que juntando aos preços “para estrangeiros” do menu não nos davam grande vontade de repetir a brincadeira.

Perto das 21 horas, eis que surge um sol no grande painel atrás da mesa reservada para o equipamento dos músicos. Floating Points aparece em cena com o eclipse total do astro e inicia a sua prestação com várias texturas arritmadas e reproduzidas em tempo real. Na projecção que acompanha o seu espectáculo surgem vídeos em fast-forward com o desabrochar de flores e plantas, como que um aviso de que o produtor estava apenas a apalpar terreno e a “despertar-nos” para o que viria a seguir. Ouvem-se as primeiras camadas de “Last Bloom” e o ecrã passa a ser ocupado por um circulo luminoso cujas formas se vão contorcendo ao ritmo do som, também isso um sinal de que o set preparado por Shepherd iria apontar mais para o futuro de que propriamente para o passado. O britânico tem em mãos um novo disco e brindou Lisboa com algum desse material tocado ao vivo — agendado para Outubro, Crush será a sua estreia em nome próprio pela mítica Ninja Tune.

Ainda com Jon Hopkins pela frente, aproveitámos a actuação de DJ Seinfeld para reabastecer as energias e espreitar para ver como estão os palcos sediados no Village Underground, onde mais tarde planeávamos assistir a DJ Marfox, o português repetente nesta segunda edição do Nova Batida em Lisboa. Quando o relógio não marcava ainda as 23 horas era Marie — coordenadora do Anjos70 e metade dos Cumbadélica — quem estava atrás dos decks do espaço indoor, que estava longe da lotação desejada. Constantes quebras da corrente eléctrica e o clima de sauna — não havia ar condicionado ou alguma porta/janela aberta — não nos permitiu aguentar sequer meia hora dentro da sala, deixando de lado a vontade de querer regressar àquele que era o ponto-de-encontro da música electrónica global que o festival tanto promove. Mas não saímos sem antes escutar alguns clássicos de reggaeton e kuduro. Valha-nos a música. Sempre.

Se achávamos que a sala de espectáculos reservada pelo Nova Batida no LX Factory não iria encher mais, enganámos-nos redondamente. No regresso ao palco principal do certame já pouco espaço sobrava para circular e o motivo era óbvio: Jon Hopkins seria o xamã convidado para nos guiar numa terapia rítmica com duas horas de duração. O produtor inglês atravessa ainda um excelente momento, que teve início com a edição de Singularity, o primeiro álbum desde Immunity, de 2013. Infelizmente a sua nova passagem por Portugal não estava reservada para uma interpretação desse aclamado disco mas confiámos cegamente nas suas competências de DJ. Hopkins abriu-nos as portas de um qualquer clube underground da cidade de Londres e criou um ambiente de rave que não deixou ninguém indiferente, mostrando que conhece como ninguém as faixas mais obscuras que giram pelo circuito e que teleguiam qualquer militante das pistas de dança que ainda tentam fugir à proposta sónica mais óbvia. Durante o transe reencontrámos-nos com a dupla Simian Mobile Disco, através de “Face To Face With Spoon”, um dos poucos temas familiares com os quais nos cruzámos entre as escolhas de Hopkins.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira