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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #30: Maisha / Bright Dog Red / Worm Discs

Ilustração: Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.



[Maisha] Open The Gates / Brownswood Recordings

Os Maisha estão de volta com o seu segundo lançamento de 2020, o single (mini-LP?) Open The Gates, que sucede ao resultado do seu encontro com Gary Bartz integrado nas Night Dreamer Direct To Disc Sessions. O novo tema da banda liderada pelo baterista Jake Long, um épico de quase 17 minutos que dá título a este lançamento, inclui os membros habituais Twm Dylan no contrabaixo (ele que assina por aqui um belíssimo e bastante lírico solo), Tim Doyle e Yahael Camara-Onono, que integra também os Ill Considered, na percussão, e ainda Amané Suganami no piano. As ausências da guitarrista Shirley Tetteh e da saxofonista Nubya Garcia são “compensadas” pelo recrutamento de Tamar Osborn, que é saxofonista de Colluctor e que aqui assegura a flauta, do saxofonista Binker Golding (de Binker & Moses) e do trompetista Johnny Woodham (que tem tocado nos ensembles de Alfa Mist ou Tom Misch). Um octeto, portanto, sabiamente gravado por David Holmes (não é esse, é este) que capta todo o brilho de um salto até às estrelas, impulsionado pelo motivo simples, mas hipnótico, sugerido por Twm Dylan. E há vasto espaço para que todos brilhem, com solos que bebem sobretudo no lado mais espiritual e exploratório do jazz aventureiro dos anos 70, com o grupo a ser gravado em Londres, mas a soar como se estivesse há horas a tocar num loft de Nova Iorque, por volta de 1974.

No lado B há uma peça gravada ao vivo, “Osiris”, durante o último concerto que o grupo deu em 2019, em Lille. Aqui é o line up original, com Shirley Tetteh e Nubya Garcia, que se reúne em torno de Jake Long (com a adição extra do organista Al MacSween), numa igualmente longa deriva de quase 16 minutos e meio, de toada afrobeat, mas de coloração tão espiritualmente atmosférica como a do tema que dá título a este lançamento. Nubya Garcia brilha intensamente sobre o subtil e intrincado groove erguido por Long e Dylan, mergulhando no quase silêncio na parte inicial da exposição, antes de puxar o colectivo consigo até um superior plano em que todos se encaixam num motivo melódico algo “exótico” nos seus arremedos de “arabescos”. A parte final, de pressão rítmica mais vincada, abre espaço para a guitarra de Shirley Tetteh se espraiar para outras geografias melódicas, mais “wesmontgomeryanas”, mas igualmente expressivas.

Open The Gates deverá, espera-se por aqui, ser o prenúncio para um novo trabalho. Na entrevista que nos concedeu, Nubya Garcia deixou claro que ainda integra o grupo, e portanto a sua ausência da sessão que rendeu este inédito há-de ser um simples resultado de incompatibilidade de agenda, facto perfeitamente entendível à luz dos seus próprios compromissos na senda de Source. Que venha então novo álbum, logo que possível. A “amostra” deixa as expectativas em ebulição.



[Bright Dog Red] Somethin’ Comes Along / Ropeadope

Com pouco mais de duas décadas de existência, a Ropeadope tem uma história relativamente recente se comparada com casas que são referência da história do jazz, como a Blue Note, Verve ou Impulse. No entanto, o selo que já lançou música de artistas como Snarky Puppy, Antibalas Afrobeat Orchestra, Dirty Dozen Brass Band, The Last Poets, Terrace Martin, Christian McBride, Christian Scott aTunde Adjuah ou Lakecia Benjamin cimentou uma sólida reputação como porto de abrigo para artistas que combinam tradição e inovação. É esse o caso dos Bright Dog Red, grupo comandado pelo baterista Joe Pignato que acaba de apresentar Somethin’ Comes Along, terceiro registo de uma carreira que discograficamente arrancou apenas em 2018, ano em que se apresentaram ao mundo com Means To Ends, registo a que rapidamente sucederam com How’s By You (2019), ambos com selo Ropeadope.

Como nos explicou Joe Pignato numa entrevista que em breve por aqui publicaremos, os Bright Dog Red nasceram como projecto de formação fluída montado para ser uma típica working band, capaz de se encaixar no rico ecossistema de clubes da cidade de Nova Iorque (o grupo vem de Albany, capital do estado, duas horas a norte da Grande Maçã) e com músculo suficiente para pisar também os palcos de festivais mais alternativos. Com uma rígida ética de improvisação, os Bright Dog Red partem sempre do jazz, mas admitem o funk, a electrónica, o hip hop e até alguns “ecos” psicadélicos como marcas da sua distinta identidade, facto que lhes permitiu construir uma sólida reputação ao vivo que sustenta a aposta que a Ropeadope tem feito na sua música. Louis Marks, patrão da editora, não tem dúvidas: “Os Bright Dog Red são, provavelmente, a banda mais singular que adorna as paredes da Ropeadope e isso é um feito digno de nota. Os Bright Dog Red sobem sempre ao palco sem pautas ou alinhamento – eles simplesmente começam a tocar e improvisam, aproveitando sinais uns dos outros e do próprio público. É um som aventureiro e, devido às capacidades e cumplicidade dos músicos, surpreendentemente coeso”.

Neste álbum, que resulta de três sessões de gravação efectuadas na segunda metade do ano de 2019, os Bright Dog Red são, além do baterista e líder Joe Pignato, o contrabaixista Anthony Berman, o guitarrista (e baixista eléctrico) Tyreek Jackson, os saxofonistas Eric Person (sopranino, soprano, alto, flauta e kalimba) e Mike LaBombard (tenor, efeitos), Cody Davies (creditado com “sons” e electrónica) e ainda o MC Matt Coonan.

Escutando Somethin’ Comes Along, sobretudo a primeira parte (trata-se de um duplo álbum com cerca de duas horas de música!!), subtitulada Somethin’, compreende-se que Pignato reclame o período eléctrico de Miles da primeira parte dos anos 70 como uma referência estruturante da sua identidade. De facto, os grooves musculados (mas também algo exploratórios) que a secção rítmica destes Bright Dog Red conjura servem de perfeita base para expedições intensas à estratosfera, com os dois saxofonistas a revelarem-se sólidos improvisadores e o guitarrista a justificar plenamente as piscadelas de olho ao rock mais hendrixiano com um estilo abrasivo e harmonicamente expansivo. As pincelas de electrónica servidas por Cody Davies são igualmente bem proporcionadas e encaixam no som do grupo (escute-se, a título de exemplo, a fantástica “Brothers, Strangers”), tal como o flow de Matt Connan, poeta na verdadeira acepção da palavra, com obra publicada, e amplo palmarés no competitivo circuito da slam poetry. Em “What’s It All Really Worth?” o seu “storytelling” funde-se de forma perfeita no cristalizado som do grupo, num tema que soa solto e estruturado ao mesmo tempo e em que LaBombard nos oferece um longo e curioso solo de sax altamente processado a soar quase como um sintetizador. “Schism of a Cutthroat”, quase a fechar a primeira parte do álbum, é outro ponto alto, um tema que foi gravado em 2019, mas que poderia ter sobrado das sessões de Romantic Warrior dos Return to Forever não fossem as rimas de Matt Connan a ancorar a peça em terrenos mais contemporâneos.

Na segunda parte, subtitulada Somethin’ Else, o tom será mais solto e descontraído, com Matt Coonan a assumir um maior protagonismo, com palavras carregadas de simbolismo que falam de corpos nas cidades, de sonhos, por vezes quase evocando o tom da poesia beat, como em “Soft Hand”, a sua voz imperiosa, por cima de uma esparsa peça em que brilha o tenor. No momento seguinte, “Trouble Come My Way”, a toada é decididamente mais atmosférica, com a guitarra a proporcionar uma pontuação rítmica rugosa, enquanto a electrónica coloca a peça em órbita e os sopros processados pintam motivos abstractos que inspiram Coonan a arriscar o lamento cantado que dá o título à peça.

A segunda parte do álbum é emoldurada com duas longas peças de abertura e fecho, temas que ultrapassam os 10 minutos e que são ilustrativos do imaginativo uso que o grupo faz das suas capacidades de improvisação. “Tuned In” volta a arrancar com Matt Coonan a dar o mote poético a que Cody Davies é o primeiro a responder, convocando depois o lado mais abstracto de Joe Pignato que lentamente ergue um pulsar que atrai os saxofones soprano e tenor e depois os restantes músicos para uma tranquila meditação que deixa claro que os Bright Dog Red não se fazem apenas valer da sua nítida capacidade de construir grooves derivados de um (p)funk mais psicadélico, mas que conseguem igualmente ser melodicamente exploratórios, sem caírem no tradicional formato da balada.

É a invenção que move estes Bright Dog Red, a invenção espontânea e irrepetível, o encontro de cérebros e pulmões, de músculos e mãos e gargantas, de ideias e sonhos, de experiências distintas. Porque há sempre algo que aparece e que nos carrega para outro lado qualquer. A vida, como esta música de resto, é feita de um fluxo constante, com uma força imparável, como a da locomotiva que adorna a capa deste álbum.



[Vários Artistas] New Horizons – A Bristol ‘Jazz’ Sound / Worm Discs

É mais do que natural que a justa atenção conquistada nos últimos anos pela cena jazz de Londres comece a ser repartida por outros polos em que a mesma vibração resultante da juventude de uma nova geração de praticantes se manifeste com idêntica energia criativa. Afinal de contas, são várias as instituições de ensino espalhadas pelo Reino Unido que têm servido de trampolim para a afirmação de novos músicos (Emma-Jean Thackray, por exemplo, estudou no País de Gales).

A nova Worm Discs, operação editorial criada pelos responsáveis pelo Worm Disco Club, promotores sintonizados com a subterrânea cena jazz da cidade que nos deu os Pop Group, Wild Bunch, Massive Attack e Portishead e que será um dos mais fortes viveiros da cena dub britânica, pensou nisso exactamente ao revelar a compilação New Horizons – A Bristol ‘Jazz’ Sound.

Há uma nítida declaração de intenções no título deste álbum antológico que reúne matéria dos Waldo’s Gift (que contribuem com três faixas), Run Logan Run (duas faixas) e Snazzback (também creditados em três faixas) além de uma série de pequenos interlúdios creditados a BaDaBooM!, Lyrebird e Alun Elliott-Williams: os “novos horizontes” referem-se claramente a uma nova paisagem cultural, afirmando dessa forma a distinta carga histórica de Bristol, por um lado, e a sua própria identidade musical, construída ao longo de décadas. A reclamação de um “som jazz” para Bristol faz por isso mesmo pleno sentido. Se as dinâmicas sociais e histórico-culturais de Londres sugerem um alinhamento da cena jazz local com o pulsar específico do hardcore continuum (house > drum n’ bass > garage > dubstep > grime), por um lado, e com os múltiplos sons da diáspora (reggae, claro, mas também soca, cumbia, afrobeat, samba, son, etc), por outro, é igualmente expectável que os músicos de jazz de Bristol tenham bebido abundantemente na história musical da sua cidade. E este New Horizons parece sugerir isso mesmo.

Há três projectos estruturantes no alinhamento: os Waldo’s Gift são um trio formado por James Vine na bateria, Harry Stoneham no baixo e Alun Elliott-Williams na guitarra que no plano rítmico aparenta, de facto, ser informado pelo legado bristoliano (mais drum n’ bass em dois dos momentos, mais hip hop noutro), com o lado harmónico a dever eventualmente algo mais à mais exploratória tradição rock da cidade (que terão nos Pop Group de Mark Stewart um dos seus maiores símbolos). Num dos temas, “I’m Not Buying”, aos Waldo’s Gift junta-se o saxofonista Lyrebird, pleno de fogo nos pulmões, em plena sintonia com a urgência do tema.

Já os Run Logan Run (belíssimo nome) são um colectivo que soma já dois álbuns na discografia pessoal (um deles gravado até por Dan Leavers, aka Danalogue dos The Comet is Coming) e que inclui o baterista Matt Brown e o saxofonista Andrew Neil Hayes que tem um registo feérico próximo do de Shabaka Hutchings a quem o seu fraseado processado e a tonalidade “arabesca” ou “orientalizante” deve alguma coisa (escute-se “Encke Ups”). “A Sea of Apathy and Indifference” é a pérola aqui, tema mais abstracto em que o duo soa expansivo apesar da extrema economia de meios.

Finalmente, há que mencionar os Snazzback, septeto em que militam Chris Langton (bateria), Myke Vince (percussão), Richard Allen (baixo), Dave Sanders (saxofone), Alfie Grive (trompete), Eli Jitsuto (guitarra) e Hal Sutherland (teclados). Em dois dos três momentos que assinam, os Snazzback fazem-se acompanhar de China Bowls, alter-ego da vocalista Lucy Bowles, em passagens mais tranquilas, profundamente melódicas, mas que não abdicam de um recorte algo modernista nos arranjos em que se evoca algum r&b mais progressivo. Já “Flump” é um tema de Snazzback apresentado como um rework dos Ishmael Ensemble, exercício de fusão relaxada e apontada a um pôr do sol que não destoaria num qualquer set de DJ de tons mais “baleáricos”.

Com os interlúdios, mais abstractos e espirituais, completa-se um promissor retrato de uma Bristol que quer vincar a sua própria identidade jazz num povoado presente britânico de múltiplas nuances e abordagens. Aqui, entre o encaixe numa história particular, e a ambição de descoberta de uma direcção própria, estabelece-se um plano de acção que há-de, certamente, dar frutos num futuro próximo. É fazer follow no botão correspondente da página da Worm Discs no Bandcamp para não perder os próximos passos.

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