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Fotografia: Adama Jalloh

Com um novo e fantástico álbum nas ruas, SOURCE, a saxofonista está pronta para assumir o papel de voz de referência para uma nova geração de artistas, de mulheres, num meio que se tem vindo a transformar nos últimos anos.

Nubya Garcia: “Houve muitos momentos em que entrava numa sala para tocar e era a única mulher e a única pessoa negra”

Fotografia: Adama Jalloh

É com uma voz vibrante, alegre, límpida, que Nubya Garcia nos responde do lado de lá do Skype, com a câmara desligada, mas pedindo que a deixemos perceber quem deste lado lhe dirige as perguntas. SOURCE, apontado como o seu álbum de estreia, acaba de ser lançado na histórica Concord Jazz, etiqueta americana que certamente lhe ofereceu uma plataforma mais ampla para a sua música. Os elogios a este trabalho que não têm parado de chegar – e por aqui já nos pronunciámos também – serão um dos sinais de que essa maior visibilidade foi de facto alcançada.

Mas, como é óbvio, esta saxofonista está longe de ser uma desconhecida estreante: o seu registo anterior na Jazz Re:freshed, Nubya’s Five, a sua abundante participação na crucial compilação We Out Here ou o seu activo envolvimento nos colectivos Maisha e Nérija, para lá de uma intensa agenda de concertos pré-pandemia (que aliás a trouxe ao nosso país por mais do que uma ocasião), tornaram o seu nome bastante familiar em círculos cada vez mais alargados, integrando ela uma geração de músicos de jazz britânicos que souberam superar os tradicionais círculos de divulgação desta música procurando novas plataformas e novos públicos. Isso interessa, como é compreensível, aos selos discográficos históricos que têm resguardado o passado, trabalhado o presente e preparado o futuro desta música. Esse é um dos assuntos discutidos com Nubya Garcia que, ao contrário do que que tenta dizer-nos no final desta longa conversa, não é pouco clara ou articulada.

De facto, e pelo contrário, a artista de 29 anos, nascida em Camden Town, Londres, de pai de Trindade e Tobago e de mãe da Guiana, formada na instituição comunitária Tomorrow’s Warriors e na Trinity Laban Conservatoire of Music & Dance, expressa-se com total clareza e autoridade, tem perfeita noção de quem é e para onde vai, reconhece quem veio antes e manifesta desde já interesse em abrir a porta – e mantê-la escancarada – para quem vier depois.



Podemos começar por falar na banda? O Daniel Casimir, o Sam Jones e o Joe Armon-Jones são feras, claro, mas acredito que qualquer músico por esta altura não teria hesitado em aceitar um convite seu para ir para estúdio. Por isso, diga-me, porquê esta banda?

[Risos] Bem, sinceramente porque já tocamos juntos há tantos anos, tanto no meu projecto como em vários outros contextos, com outras pessoas, que os sinto como a minha banda, são músicos com quem tenho sempre imenso prazer em tocar. Não senti mesmo necessidade de ir em busca de outras pessoas para tocarem neste disco, para estar na minha secção rítmica nuclear, porque tínhamos acabado de passar dois anos na estrada a fazer concertos. Nem é preciso pensar muito, realmente: aconteceu o que era suposto acontecer.

Eles são mesmo o que se costuma chamar uma “working band” e já se conhecem todos muito bem… eles entendem as suas ideias, é isso?

Absolutamente. E mesmo que o material que tenhamos gravado não seja exactamente o que andámos a tocar na estrada, essa bagagem de dois anos de experiência fez com que aprendêssemos a escutar-nos uns aos outros, temos os ouvidos muito abertos para o que cada um de nós traz à música.

O que eu disse em relação à banda também se poderia aplicar ao seu produtor: também já tinha trabalhado antes com o kwes. Como correram as sessões?

Na verdade, ele chegou com o processo já muito adiantado: eu escrevi todo o material, gravámos tudo e depois eu e ele produzimos e acrescentámos alguma electrónica e coisas assim. Mas quando ele chegou, o essencial já estava feito, a criação dos temas, a sua estrutura base… O trabalho do kwes foi deixar tudo a soar ainda melhor do que já estava quando gravámos as bases. Eu conheci-o quando ele produziu o projecto Nérija com que eu toco. Foi ele que fez o nosso álbum (N.R.: Blume, lançado na Domino em 2019) e eu gostei muito do trabalho dele, do que ele fez em termos sónicos e texturais e por isso eu quis mesmo combinar a minha escrita, as minhas composições, com esse universo sónico da produção sonora, não necessariamente tê-lo envolvido no momento de criação dos temas, se é que me estou a fazer entender…?

Perfeitamente! Bem, e além dessas sessões conduzidas em Londres, teve também a oportunidade de gravar em Bogotá, na Colômbia. Imagino que tenha sido uma experiência bem diferente…

Sim, foi espantoso. De facto, ainda me parece surreal que tal tenha acontecido, especialmente tendo em conta o contexto actual. Estive em Bogotá em Setembro do ano passado e regressei lá para fazer esta gravação em Dezembro, nos estúdios Mambo Negro. Passámos algumas horas a tocar e o que se ouve no disco é apenas um pedaço do que por lá fizemos. Foi só entrar no estúdio e começar a gravar, nem sequer foi uma daquelas sessões em que se leva alguma coisa preparada, se ensaia e depois se carrega no botão para gravar. Foi tudo muito espontâneo. E depois eu e o kwes pegámos nesse material e construímos o tema mais tarde, apenas através de um processo de corte e costura, de edição…

Como o Teo Macero fazia com o material do Miles…

Exactamente! Nós tínhamos muito mais material do que aquilo que acabou no disco, obviamente, mas aquele foi o resultado final, após escuta atenta posterior. Mas foi uma experiência incrível, a de realizar aquela sessão em Bogotá, e poder colaborar com músicos que eu desconhecia, que eram novos na minha vida, mas com quem eu partilho uma certa linguagem musical. Tem que perdoar a minha falta de palavras, mas a experiência foi mesmo fabulosa, marcou-me mesmo…

Vê-se a regressar e a fazer um álbum inteiro explorando essa tal linguagem musical comum de que me falou agora?

Claro que sim, adoraria, essa é uma possibilidade que está de pé. Logo que nos volte a ser permitido viajar [risos], isso é algo em que quero mesmo pensar. A cultura por lá é tão rica, tão diversa em termos de sons, de história, que sinto mesmo que apenas vislumbrei a ponta do icebergue e que há muito mais por explorar. Adoraria ter a possibilidade de passar mais tempo por lá a aprender as histórias das pessoas, de forma a percebermo-nos mutuamente melhor, para estabelecermos melhores vias de comunicação, atingir outro nível, percebe? Adoraria ter essa possibilidade.

Falemos agora um pouco da entrada da Concord Jazz na equação para este álbum: como é que isso aconteceu, o que é que a fez aceitar a proposta desta editora?

Bem, houve o período de um ano, mais ou menos, em que recebi propostas de várias editoras, algo que foi muito excitante. Mas depois conheci a equipa da Concord, o ano passado penso eu, alguns deles já tinham ido a concertos meus, e basicamente foi isso, senti uma boa energia vinda deles, senti uma certa afinidade com vários outros artistas da editora, que eu admiro. É uma casa muito inspiradora para se estar e sinto que é um privilégio integrar aquele catálogo, contribuir para aquela história. Eles mostraram interesse em ajudar-me a chegar ao próximo nível daquilo que eu imaginava que podia vir a fazer e acredito que esse é o discurso de boa parte das editoras. Mas senti que eles eram o encaixe certo, tendo também uma grande bagagem histórica: muitos músicos que cresci a admirar passaram pela editora, por isso nem hesitei. É um pouco surreal, na verdade, fazer parte disso agora, mas acredito que tomei uma boa decisão.

Eu ia sugerir que tendo a Concord editado no passado música de gente tão diversa e importante como o Bud Shank, Art Blakey, Kenny Burrell, Ray Brown… isso há-de ter também pesado no momento da decisão, não?

Claro, definitivamente. Penso, sendo honesta, que outras editoras que me abordaram também tinham catálogos recheados com obras de músicos que admirei desde sempre e foi até um pouco estonteante ter que lidar com essa possibilidade de vir a figurar num catálogo ao lado de outras lendas. Mas estou segura de ter feito a escolha correcta.



Bem, parece mesmo que alguns selos americanos históricos estão a dirigir as suas atenções para novo talento britânico: a Impulse assegurou os diferentes projectos de Shabaka Hutchings, a Blue Note fez o projecto Blue Note Re:imagined com gente como Ezra Collective, Skinny Pelembe, Emma-Jean Thackray, etc… O que é que isso lhe diz?

O que é que isso me diz?… [Risos] Penso que estamos a viver um momento incrível: sempre se falou no jazz americano, no jazz britânico, jazz disto e daquilo, mas penso que é fantástico perceber que esse tipo de divisões e barreiras estão a ser derrubadas. E estas editoras estão de facto a abrir as portas a mais gente, a darem mais oportunidades que, ao fim e ao cabo, é o que realmente todos queremos e precisamos, certo? Ao fazerem isso, mais gente pode ouvir a música que está a ser feita. Eu sou de Londres e muita gente na América nunca tinha ouvido a minha música, mas porque eu agora estou na Concord ou porque o Shabaka está na Impulse e todos estamos envolvidos nesse álbum da Blue Note isso traduz-se muito simplesmente em mais oportunidades para que as pessoas escutem a nossa música. É um processo muito interessante para ver a acontecer, mais ainda para integrar. E só espero que possamos continuar neste caminho porque estou certa de que isso nos vai permitir abrirmos mais portas para a próxima geração, gente que está a crescer com a nossa música e que daqui a uns anos terá os seus próprios projectos.

Falando de novas gerações e de novas oportunidades: na minha opinião, que sou um mero observador externo, uma das marcas distintivas da cena jazz britânica contemporânea é a sua diversidade e uma das características dessa diversidade assenta no facto de ser uma cena muito povoada por talento feminino. Há mesmo muitas artistas, muitas solistas, mulheres, com um som e uma atitude próprias. Na sua opinião, o que é que contribuiu para que esse espaço tenha sido criado?

Bem, acredito que é o resultado de um conjunto de factores: penso que em primeiro lugar se deve apontar o sistema de ensino e falo mesmo da base, mesmo antes das universidades ou dos grupos educacionais como os Tomorrow’s Warriors. Atravessamos uma fase muito boa em que o apoio governamental existe e começa logo nas escolas primárias, passa pelas escolas secundárias, com programas educacionais de música muito bons, que permitem que as pessoas, todas as pessoas, tenham acesso a instrumentos. E isso remove da equação pelo menos parte do elitismo que normalmente se associa à educação formal de música, já que muita gente poderia não ter acesso económico aos próprios instrumentos que podem ser mesmo muito caros. Eu fiz parte dessa geração, que pode beneficiar desse acesso e dos palcos escolares nas diferentes fases. E há apoios reais que sustentam um ecossistema que permite a existência de muitos grupos ao nível escolar que depois tocam aos fins-de-semana, nas férias, depois das aulas. Isso permite que a música não exista apenas dentro da sala de aula e que se ergam comunidades: os miúdos querem estar com outros miúdos com os mesmos interesses e constroem estas redes. Por isso, a simples existência dessas oportunidades, desses locais onde é possível tocar, mantém os mais novos interessados e ocupados. Depois há o nível seguinte, em que surgem organizações como os Tomorrow’s Warriors, que nos fazem evoluir para o estágio seguinte quando já somos um pouco mais velhos, proporcionando outro tipo de experiências. Eu costumava ir a sessões promovidas por eles com adolescentes quando já estava na universidade e tinha 20 anos, proporcionando outro tipo de experiência e erguendo outro tipo de comunidade em que tudo é grátis, o acesso às coisas é livre de custos. E eles prestam mesmo atenção a essa diversidade, tentam aliás fomentá-la, de forma a enriquecer a cena musical, porque eles são as pessoas que nos anos 80 olharam à volta e perceberam que a cena musical era muito branca, que não havia espaço para mulheres, para emigrantes… E eles perceberam cedo que para mudar as coisas é sempre preciso ir à origem e começar o trabalho logo nas escolas primárias: “ok”, pensaram eles, “precisamos de criar um espaço em que todos os tipos de crianças possam vir e manter o seu interesse em música, qualquer que seja o seu género ou origem étnica”. E a Tomorrow’s Warriors foi mesmo uma das organizações que assumiu essa missão, que percebeu que para mudar algo era necessário trabalhar desde cedo. E o que eles construíram é muito diverso, inclui gente de todo o lado. Depois começaram também a trabalhar fora de Londres, a promoverem sessões noutras partes do Reino Unido e isso também ajudou a fazer a diferença, ajudou muitos miúdos a sentirem que faziam parte de algo maior, ajudou muitas raparigas a sentirem-se parte de uma comunidade em que havia mais raparigas e por isso elas nunca se sentiriam como o elemento estranho. Acredito que isso é parte da razão, mas não sei, não estudei isto a nível sociológico, não tenho outra noção que não seja a da mera observação também. Posso dizer que o facto de eu ter integrado os Tomorrow’s Warriors não foi o que me fez querer fazer música, mas cimentou um sentido de pertença, fez-me perceber que havia mais gente como eu nesta comunidade. Porque houve muitos momentos quando eu estava a crescer em que eu entrava numa sala e era a única mulher, a única pessoa negra. Quando entrei nos Tomorrow’s Warriors não senti nada disso e foi isso que me fez querer voltar. Mas eles são o que são porque investiram 20 anos de trabalho nessa visão, uma visão que ajudou realmente a fazer a diferença.

Sabe, embora isso não aconteça na língua inglesa, em português “saxofone” é uma palavra masculina, algo que contribui para que se tenha a noção de que este é, sobretudo, um instrumento para homens. Estou curioso por isso mesmo por saber o que a fez querer estudar esse instrumento, porque não deve certamente ter sido por ter muitos exemplos de mulheres saxofonistas que a possam ter inspirado…

Nem sei muito bem, isso já aconteceu há tanto tempo. Penso que experimentei tocar outros instrumentos antes, cresci a ver os meus irmãos mais velhos a tocarem numa variedade de bandas e de orquestras. O meu irmão costumava tocar numa big band e isso foi provavelmente a minha primeira introdução aos saxofones e trombones e trompetes… todos os instrumentos que associamos a esse tipo de bandas. E nessas orquestras eu via todos os tipos de pessoas a tocarem instrumentos muito diferentes. Penso que o me levou ao saxofone foi o quão divertido parecia ser. Para mim, enquanto criança, o saxofone tinha um ar “cool”. Os metais são “cool”, por oposição, por exemplo, ao violino, que não me parecia muito “cool”. Percebo que outras pessoas pensem de outra forma, mas é como tudo, cada pessoa tem a sua cor favorita, cada um de nós é atraído para algo pela sua energia, e penso que terá sido isso que sucedeu comigo e com o saxofone. Eu era muito nova, comecei com 10 anos, e penso que terá sido sobretudo essa energia do instrumento que me conquistou mais do que qualquer outra coisa. Deixe-me colocar as coisas nesta perspectiva: nunca senti que fosse algo que eu não fosse capaz de tocar.

Falemos um pouco de Nérija, até porque chamou a Cassie Kinoshi e a Sheila Maurice-Grey para participarem em SOURCE. O grupo deu obviamente nas vistas o ano passado com a edição de Blume. É possível ver algum tipo de manifesto no facto de serem uma banda (quase) exclusivamente feminina num mundo pós #metoo?

Uau… grandes questões [risos]. Bem, eu não posso falar por toda a gente na banda, claro, nem sequer posso falar em nome da banda, mas penso que a forma como operamos é “vamos tocar música” e não há assim uma declaração de intenções tão directa na nossa formação quanto as pessoas tentam ver, até porque temos um elemento masculino… O que nos interessa mesmo é fazer boa música, criar uma boa energia, e transcender tudo o resto. Ok, mas percebo que seja importante realçar o facto de uma banda assim existir, já que é raro, embora, felizmente, já não tão raro como costumava ser. A Terri Lyne Carrington, por exemplo, tem alguns. Também começa a ver colectivos dirigidos por mulheres e tenho a felicidade de já ter visto vários. Acredito que é importante ocupar esse espaço, enquanto mulheres, tanto quanto possível, mas penso que é igualmente importante concentrarmo-nos na ideia de diversidade em vez de termos só uma coisa ou outra, só bandas de mulheres ou só de homens. O que eu sei é que estou sempre ansiosa para fazer música com cada uma das bandas com que estou envolvida, a minha, Nérija, Maisha… Penso que cada uma delas representa uma energia tão diferente e é um prazer, essa é a razão para continuarmos a fazer o que fazemos.

Queria exactamente questioná-la sobre o seu envolvimento com os Maisha, já que não participou neste último disco que fizeram, com o saxofonista Gary Bartz, o que me levou a pensar se tendo o seu próprio disco a solo agora isso poderia significar o abandono desse projecto?

Sim, ainda faço parte do grupo, temos aliás pensado em coisas novas. Quando essa sessão aconteceu eu não participei porque infelizmente estava em digressão e sendo uma gravação “direct to vinyl” em Amesterdão não havia lugar para overdubs posteriores. Fiquei um pouco triste porque o Gary Bartz é um dos meus grandes heróis, mas pronto, estou realmente feliz por ele ser agora uma parte do percurso de Maisha e talvez até nos cruzemos em palco quando voltarmos a poder fazer concertos.

Ainda me passou pela cabeça que talvez pudessem ter decidido que não fazia sentido terem dois tenores na mesma sessão…

Faz sempre sentido [risos].

Voltando um pouco atrás, até à questão educacional, pode dizer-se que dividiu a sua educação mais avançada entre estudos formais, na universidade, e mais, vá lá, informais, no projecto Tomorrow’s Warriors. Certamente terá aprendido coisas diferentes nesses dois contextos…?

Sim, pode dizer-se isso, embora eu deva realçar que a educação proporcionada pela Tomorrow’s Warriors não é propriamente “informal”, até porque muito do trabalho, muitas das sessões em que nos envolviam, a tocar, eram bem similares às que fazíamos no âmbito do programa da Trinity. O que acontecia é que o trabalho dos Warriors era mais focado em tocar, mais prático: se estivéssemos a falar de arranjos no contexto de uma big band, então estaríamos a tocar para percebermos como funcionam essas dinâmicas. Na Trinity as coisas seriam ligeiramente diferentes, com abordagens diferentes, por parte de professores diferentes. E até os alunos eram diferentes. Mas em termos de aprendizagem, bem, basicamente estávamos a aprender a improvisar e a escrever música. Acho que recebi em ambos os casos uma educação igualmente importante, mas com nuances diferentes. Talvez o ensino na Tomorrow’s Warriors não seja tão… académico, mas isso não reduz a qualidade do que por lá se ensina. Na Tomorrow’s Warriors há um foco absoluto, uma disciplina sólida, mas ao mesmo tempo não se perde de vista a alma desta música, a sua liberdade, eles não permitem que nos esqueçamos da razão que nos levou a amar esta música e fazem-nos acreditar que podemos contribuir para essa grande história do jazz. Ambas as abordagens merecem espaço. No caso da universidade, as instalações eram muito boas, tínhamos acesso a masterclasses, com professores convidados vindos dos Estados Unidos, mas a Tonorrow’s Warriors também proporciona coisas assim. Pode dizer-se que são dois lados de uma mesma moeda. Penso que ambos os contextos me deram muito e a Tomorrow’s Warriors permitiu-me encontrar a minha comunidade, o que significa muito para mim. Continua a ser a minha comunidade. Isso e uma incrível educação musical, de gente como o Gary Crosby, foi algo de valor incalculável, eles ultrapassaram tudo. Na verdade, até me ajudaram a entrar na universidade. Foi crucial: as minhas primeiras experiências como arranjadora foram no seio dos projectos da Tomorrow’s Warriors, sob orientação do Peter Edwards.

Para terminar: vivemos tempos muito estranhos, com a pandemia, claro, mas também com toda a agitação que tem marcado a actualidade com os protestos contra a violência policial, contra o racismo sistémico… e o jazz tem sido uma das mais eficazes bandas sonoras para estes tempos agitados. Gostava que me dissesse se vislumbra uma dimensão política na sua música também, mesmo não contendo mensagens directas com palavras? Por exemplo, quando aborda as suas próprias origens culturais neste contexto, numa demonstração de orgulho, pode ver-se aí um gesto que também é político?

Penso que essa é uma leitura possível, claro. Não tenho a certeza que a palavra “político” fosse a primeira que usaria para descrever esse impulso, mas sei que absorvo tudo: o que se passa no mundo, as questões políticas, a história… Há muita dor e trauma que as pessoas precisam de processar e de entender e penso que a música oferece um caminho para atravessarmos esse processo, é um acompanhamento para a nossa vida. É através da música também que melhor podemos compreender as emoções que estão agarradas a este tempo, tal como aconteceu nos anos 60 com toda a música de protesto que traduzia um sentimento colectivo. Escutando essa música continuamos a ser capazes de sentir algo, a dor daqueles tempos. E sim, claro que na minha música eu tento traduzir aquilo que estou a sentir, aquilo por que estou a passar. Claro que eu escrevi o álbum o ano passado, mas os sentimentos a que me liguei para o fazer já existem há muito tempo. “Stand With Each Other” é acerca da arte dos protestos, da arte de apoiar outras pessoas, especialmente mulheres. Foi um tema inspirado numa leitura de uma poetisa americana, Aja Monet, a que eu assisti em Londres. Na parte em que ela estava a responder a perguntas do público, ela disse que as pessoas em diferentes partes da sociedade precisam de tomar consciência do sofrimento dos outros, precisam de se erguer e de apoiar os outros, compreender os seus problemas, a opressão de que são alvo. Para que possamos, todos, sermos mais fortes, não valendo olhar para o lado e dizer “essa não é a minha luta”. Somos mais fortes se protestarmos juntos, foi isso que inspirou esse tema. Portanto, sim, claro que há aqui uma dimensão política, mesmo que mais ninguém a capte. Quando voltarmos aos palcos, poderei falar mais, porque eu gosto de explicar algumas das minhas peças antes de as tocar, não sempre, mas acho que é importante partilhar estas histórias que ajudam a entender o que a música tem dentro. Não sou a pessoa mais articulada, mas para lá da música, das notas, das melodias, dos arranjos, essa é a forma que tenho de comunicar sendo o mais explícita possível. Ou, às vezes, optando por ser tão subtil quanto possível não dizendo nada… Ambos os comportamentos são importantes para os músicos, para os artistas e mentes criativas em geral, essa capacidade de ocupar todos os espaços disponíveis, da palavra ao silêncio.


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