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Ilustração: Riça
Publicado a: 01/09/2020

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #26: Nubya Garcia / Mourning [A] BLKstar / Jyoti

Ilustração: Riça
Publicado a: 01/09/2020

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.



[Nubya Garcia] SOURCE / Concord Jazz

Talvez a experiente Concord Jazz, editora que opera desde meados dos anos 70, sinta que, estrategicamente, só tem a ganhar se dramaticamente realçar que SOURCE é o álbum de estreia da tenorista Nubya Garcia, fazendo assim contrapor a solidez deste registo acabado de lançar a uma óbvia juventude (e Nubya soma pontos interseccionais a essa juventude sendo igualmente mulher, negra e filha de imigrantes – mãe originária da Guiana, pai de Trindade e Tobago). Mas a verdade é que Nubya está já muito longe de ser uma jovem inexperiente que esteja agora a dar os primeiros passos: em nome próprio conta ainda com uma entrada na série 5ive da Jazz Re:freshed registada em 2017 (tecnicamente, o seu primeiro álbum) e com o EP When You Are, lançado no ano seguinte. E para lá dos marcos no seu percurso como líder, há o importante trabalho que realizou como membro integrante dos colectivos Nérija (que lançaram o álbum Blume o ano passado) e Maisha (com quem gravou, em 2018, o álbum There is a Place). Nubya deixou igualmente forte marca na compilação-manifesto We Out Here, trabalho pensado por Gilles Peterson e realizado por Shabaka Hutchings em que se fez ouvir em cinco das nove faixas do alinhamento. Some-se a isso abundante trabalho de sessão desde 2015 para pares como Theon Cross, Oscar Jerome, Joe Armon-Jones, Ezra Collective, Moses Boyd, Sons of Kemet, Makaya McCraven, Yazz Ahmed e Moses Sumney e facilmente se concluirá que SOURCE não é, de facto, o primeiro “rodeo” desta artista.

Nubya, já se sabe, é uma das artistas da cena que conta com um dos epicentros em Londres e que tem conquistado nova atenção e novos públicos para o jazz. Há, de facto, algo de novo que é transversal a essa cena: os jovens músicos que a compõem, como Nubya, contando em boa parte com formação académica e, portanto, conhecimento profundo das dinâmicas históricas do jazz, nunca enjeitaram nem os seus próprios contextos culturais familiares (e a saxofonista não esquece o pulsar das Caraíbas ou o balanço da América do sul no mapa rítmico deste álbum), nem o complexo puzzle musical proporcionado por um presente em que as viagens para a escola são feitas de metro com auscultadores no ouvido que permitem sintonizar toda a variedade oferecida pela modernidade ou pelas noites passadas em clubes em que as diversas mutações do hardcore continuum alimentam os sistemas de som (e há assomos de drum n’ bass no plano rítmico de SOURCE). Ora, o “swing” que o jazz americano destilou durante décadas a partir de uma experiência humana particular que se estendeu das plantações dos estados do sul às celebrações dominicais na Congo Square de Nova Orleães e daí aos clubes de Harlem em Nova Iorque, tem aqui nuances culturais acrescidas (que se traduzem na mais clara evidência de que o jazz muito mais do que conjunto de regras cristalizadas em âmbar é corpo vivo e mutante em constante transformação).

SOURCE traduz, portanto, toda a experiência acumulada por Nubya, tanto a académica como a profissional, e é um retrato tão nítido quanto possível da sua própria perspectiva desta cultura. Para a ajudar a compor esse retrato, Nubya recrutou Sam Jones (bateria), Daniel Casimir (contrabaixo) e Joe Armon-Jones (piano eléctrico), chamando ainda, para momentos específicos do álbum, convidados como a também saxofonista Cassie Kinoshi (sua companheira em Nérija e também membro de KOKOROKO ou SEED Ensemble), o trombonista Richie Seivwright (também de KOKOROKO), a trompetista Sheila Maurice-Grey (que integra os mesmos colectivos que Cassie), as La Perla (que temperam ritmicamente “La Cumbia Me Está Llamando”, tema gravado em Bogotá) ou a vocalista Akenya (que injecta alma funda no tema final do alinhamento, “Boundless Beings”). O produtor Kwes (que já assumiu idênticas responsabilidades em trabalhos de Solange ou Nérija) toma conta da mesa de mistura, oferecendo-nos um álbum em que o estúdio é tornado invisível, com os músicos a soarem o mais naturais possível, sem grandes adições tecnológicas aos diferentes tons (compressão de graves nalguns momentos para o contrabaixo de Casimir, espaço de reverb nas teclas de Armon-Jones, eco na tarola de Jones quando esta se desloca até bem perto da Jamaica que também habita em Brixton).

A líder assume aqui, muito naturalmente, a dianteira, assinando solos carregados de imaginação, embora sem o clamor que, por exemplo, define a “voz” de Shabaka Hutchings. Nubya é mais reflectida, mais interessada em explorar uma maior complexidade harmónica, aproximando-se nesse registo de alguns pares contemporâneos americanos e ecoando também alguns mestres clássicos (Nubya já foi, por exemplo, comparada com Gary Bartz, facto que talvez ajude até a explicar porque se ausentou da sessão que os Maisha registaram recentemente com o veterano músico americano). E ao seu lado, a saxofonista conta com um sólido trio: Sam Jones sabe colorir ritmicamente as derivas geográficas de Nubya, soando igualmente sabedor nos momentos mais “livres” ou quando se lhe pede um padrão mais “roots” (no sentido jamaicano do termo, claro), sendo sempre seguido de perto por um Daniel Casimir que gosta de se expandir e que nunca se queda em figuras repetitivas. Armon-Jones é o verdadeiro braço direito de Nubya, no entanto, um fornecedor de cósmicos mantras harmónicos que servem na perfeição para, quando tem mesmo que ser, empurrar Nubya Garcia até às estrelas, como acontece, por exemplo, com “The Message Continues” ou “The Inner Game”.

Apesar de sermos confrontados com a “fonte”, não podemos reduzir Nubya Garcia a uma agradável surpresa. Pelo contrário: a saxofonista é uma vibrante certeza de futuro, tal como este álbum tão transparentemente confirma. Vamos, certamente, voltar a aplaudi-la em 2021.



[Mourning [A] BLKstar] The Cycle / Don Giovanni Records

O colectivo Mourning [A] BLKstar liderado por RA Washington foi recentemente matéria de capa da revista Wire, facto que, muito naturalmente, lhes valeu justa atenção. Nos últimos anos, o grupo tem agitado as entranhas de Cleveland com um som único que parece nascer da mais espiritual vibração da soul clássica, mas que abraça métodos de produção do hip hop, o espírito libertário e engajado do jazz, e que se alinha, politicamente, com todos aqueles que têm encontrado nas ruas o palco ideal para os seus protestos. Com as vozes de LaToya Kent, James Longs e Kyle Kidd em destaque – todas com a espessura de quem aprendeu a projectar sentimentos a partir do altar da igreja –, o álbum combina beats carregados de fumo, deliberadamente lo-fi, mas com a devida atitude “out there” que atira muitas das passagens aqui alinhadas para os terrenos do mais exploratório afro-futurismo, com metais que parecem resgatados ao lado mais espiritual do jazz militante dos anos 70 (ouça-se “Devil Get Behind Me”) e uma dupla bateria que confere aos beats sintéticos uma urgente dimensão humana, plena de pequenos sobressaltos que parecem evocar a própria vida (“So Young So” é nesse caso um óptimo exemplo). Explica-se nas notas impressas no insert deste The Cycle que esta música é “uma manifestação de autenticidade terrena com uma linhagem astral negra”.  A autenticidade terrena é indiscutível e sente-se nas vozes, no pulsar humano dos instrumentos, nos lamentos feitos ar que percorrem as entranhas dos sopros, como quando Coltrane fez “Alabama”. Já nos sintetizadores (que soam como sobras da Radio Shack, sempre em registo de menor definição (mas maior personalidade!) analógica, como se percebe em “Been Around”) e nas batidas poeirentas, vislumbra-se, de facto, o desejo de liberdade que a projecção no espaço sempre traduziu, pelo menos desde que Sun Ra apontou a Saturno.

Tal como os registos dos Sault ou de Pink Siffu, The Cycle é mais um grito feito arte que é importante que o mundo escute agora.



[Jyoti] Mama, You Can Bet! / SomeOthaShip Connect

Jyoti é o nome que Alice Coltrane deu a Georgia Anne Muldrow (de acordo com a peça que o Bandcamp Daily dedicou a este seu novo trabalho). E Mama, You Can Bet! é o resultado da exploração de uma ideia inicialmente proposta pelo Kennedy Center à produtora, multi-instrumentista e cantora quando a desafiou a remisturar duas faixas de Charles Mingus, “Bemoanable Lady” e “Fables of Faubus”, em 2017. Esses dois temas surgem no alinhamento deste álbum, o terceiro que assina com esta identidade, depois de Ocotea (2010) e Denderah (2013). Muldrow tem (sob diferentes alter-egos) um dilatado output, coleccionado ao longo desta última década e meia, resultado de intenso trabalho que lhe valeu ligações a etiquetas como a Stones Throw, Mello Music Group, Ubiquity ou Brainfeeder e o reconhecimento de pares como Madlib ou Flying Lotus e Ali Shaheed Muhammad dos A Tribe Called Quest.

É, portanto, com considerável bagagem que Jyoti chega a 2020, momento certo para nos dar este cosmicamente fabuloso e funkamente intenso estudo criado enquanto “one woman jazz ensemble”, como ela mesmo se apresenta nas notas de Mama, You Can Bet! No alinhamento deste álbum há apenas um nome para lá do que adorna a capa, o de Lakecia Benjamin, que surge numa das melhores faixas do álbum, “Ra’s Noise (Thukumbado)”. Aí, o scat de Muldrow combina-se com o vigoroso sopro da saxofonista convidada, numa curta viagem definitivamente propulsionada para as estrelas por um baixo possante. Mas o facto de trabalhar em isolamento não retira ao material aqui exposto um sentido de vibração colectiva, sinal, certamente, não apenas das capacidades que Georgia Anne Muldrow possui enquanto multi-instrumentista, mas também do refinamento da sua visão de produtora e, pois claro, da sua poderosa voz, aqui usada com elegante imaginação (a balada “Orgone” é exemplo perfeito, um lamento de negritude orgulhosa em busca de um mundo ideal). Com as cadências herdadas do hip hop como invariáveis pontos de partida para os diferentes temas, Jyoti aposta num rico sincretismo em que cabe tudo: o afrofuturismo despoletado por Sun Ra, a soul cósmica de Stevie Wonder, o funk psicadélico de George Clinton, o hip hop desconjuntado de Dilla e Madlib e, obviamente, o lado mais espiritual e exploratório do jazz, aqui traduzido na hábil combinação de sopros e teclados em permanente mergulho num lago de delícias harmónicas sem fim que por vezes rendem peças cubistas e plenas de vívida imaginação, como se comprova em “Hard Bap Duke”.

Que venha, tão breve quanto possível, por favor, a edição em vinil!

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