NOS Alive’19 – Dia 1: a invasão da armada britânica e o rasgar da quarta parede com Robyn

[TEXTO] Alexandre Ribeiro e Pedro João Santos [FOTOS] Sara Falcão, Arlindo Camacho, Hugo Macedo e José Fernandes / NOS Alive

A sorte é que os lavores para este primeiro dia do NOS Alive se fazem a quatro mãos, que uma só pessoa poderia perecer, não sob a carga de trabalhos, mas perante a subjugação de um ora amigo, ora adversário bradante e implacável — o fogo a que o cartaz nos pareceu poupar, à primeira, é devolvido com filantrópica generosidade pelo sol.

Face a um oponente desta dimensão, às vezes o que há de mais prazeirento revela-se na cobardia. Refugiamo-nos na tenda do Palco Sagres para presenciar a estreia do duo britânico HONNE — lamentavelmente atrasados para, mas não esquecidos de y.azz x b.mywingz, vencedoras do EDP Live Bands que certamente terão submergido esta zona no seu r&b tentativo e evanescente, do qual virão brevemente a dar provas discográficas em maior duração. Em jeito de continuidade sem mácula, pensamos estar perante a apresentação do sophisti-pop-r&b-eletrónico (talvez os rótulos estejam mesmo a expirar) assinado por estes senhores de um lite funk sintético e sensível, propício a uma ligeira ebulição — acelerada pelo fogo do sol. Ebulição é palavra de ordem, e de apresentação coisa pouca tem.

Quase em fins do concerto, desculpando-se da sua demorada paragem por terras lusas, os HONNE brindam o público com um dos primeiros êxitos de boca em boca e playlist em playlist: “Warm on a Cold Night”, cujos últimos refrões são fotocopiados sucessivamente em jeito de chamada e resposta, para deleite dos que por ali pairam. A uma hora que poderia convidar mais casuais do que aficionados puros, os britânicos conseguem a reprodução constante das letras (temperada com gritos q.b.), prolongada em “Day 1”, que gera uma sublime vibração do público que é mais que mero conhecedor — é devoto e esperava-os também. (Também conseguem a reverberação literal nas paredes da tenda, dois segundos de diferido caso cheguem atrasados.) 



Do clube faz-se igreja e de um concerto faz-se liturgia, assim que Samm Henshaw o decidir. Pontualidade no começo e um fundo de nuvens animadas a pontuar um céu tecnicolor, como um raio de sol iminente (lá está ele novamente): a sua invasão de palco é incerimoniosa e pronta — apesar dos seus característicos nervos pré-entrada e da sua relativa novidade em Portugal —; exsude o calor da instrumentação e apoia-se na força motriz da voz a que se somam as centenas de um público sedento.

A sua docilidade encontra corpo na presença comandante do amável Hemshaw, que cedo revela os conteúdos da bagagem: dois EPs identificados como experimentos sonoros, mas estruturados em elementos familiares do gospel e com técnicas orelhudas da pop, e uma mão-cheia de novos singles que culminarão num novo disco — se este é o estado de coisas agora, só se imagina a homilia num tempo vindouro.



No primeiro dia, o foco passou maioritariamente pelas estreias de artistas britânicos em território nacional. Um dos menos conhecidos do grupo, Kojey Radical, actuou no NOS Clubbing e serviu como uma espécie de aquecimento para Jorja Smith. “A seguir vou convosco vê-la”, disse o rapper quando se apercebeu que se aproximava a hora do concerto da sua compatriota.

Se o aquecimento do DJ é necessário em certas ocasiões, aqui funcionou ao contrário: “Me Dê Amor”, de Sango, “Crew”, de GoldLink, “Old Town Road”, de Lil Nas X, “Shade”, de IAMDDB, “Water”, de ScHoolboy Q, e “Sicko Mode”, de Travis Scott, criaram uma energia que dificultou a entrada de Radical e diminuiu o impacto da excelente “Coming Home”, tema que faz parte do alinhamento de No More Normal, disco de Swindle.

Porém, não foi totalmente por falta de esforço da parte do artista que a actuação foi frouxa: o público, em grande parte desconhecedor da sua obra, limitou-se a tentar acompanhar o que ia acontecendo e nem “Water”, música com participação de Mahalia, obteve grande reacção.



Quando chegámos ao Palco Sagres, 10 minutos antes da hora marcada, o espaço já rebentava pelas costuras. Cinco minutos depois, os gritos por Jorja Smith começaram. Quando Amané Suganami (teclas), Femi Koleoso (bateria), Benjamin Totten (guitarra) e Mutale Chashi (baixo) entraram em palco, o burburinho aumentou, atingindo o ponto mais alto no momento em que se vislumbrou a cantora e o seu vistoso vestido verde.

Acompanhada por músicos da fervilhante cena inglesa de jazz — representada aqui por membros de grupos como Ezra Collective, KOKOROKO ou Maisha –, Smith colocou Lost & Found, o seu álbum de estreia, no centro da apresentação e cantou faixas como “Teenage Fantasy”, “February 3rd” ou “Blue Lights”, uma das canções mais bonitas made in Reino Unido dos últimos cinco anos e o momento mais solene do concerto, passando ainda por versões de “Bam Bam”, original de Sister Nancy, e a sua contribuição para “Get It Together”, tema de More Life, projecto do canadiano Drake.

Apesar da recepção calorosa do público, que se fez ouvir em quase todos os momentos, a voz de J-Money foi engolida cada vez que a banda entrou em acção com mais ímpeto, não se percebendo bem se o problema era da própria, do sistema de som ou uma mistura dos dois (esta última parece-nos a mais provável).



Depois de uma pausa para jantar e uma passagem rápida pelo concerto de Emicida (que convidou Mayra Andrade e Papillon para o acompanharem na sua enésima vez em Portugal), voltámos ao Palco Sagres, onde Loyle Carner se preparava para assinar a sua estreia em solo nacional.

Com bastante menos público do que a sua antecessora, mas, mesmo assim, com uma moldura humana interessante, o rapper britânico não se encolheu e mostrou argumentos num local onde a sua música, à partida, não encaixaria na perfeição. Porém, a escrita introspectiva e voz reconfortante de Carner funcionaram surpreendentemente bem, trazendo o sabor mais clássico do rap para a mesa com a ajuda do DJ e MC Rebel Kleff, mas também de um baixista e um teclista.

Completamente à-vontade em cima do palco, deu a volta a imprevistos com a maior das tranquilidades: uma falha técnica levou a um freestyle conciso e assertivo e, a certa altura, um fã subiu a palco porque tinha uma t-shirt vintage de Cantona (igual à que o padrasto do rapper lhe deixou e que, confessou-nos, leva sempre para os seus espectáculos), e acabou (ou acabámos) a cantar um dos cânticos dedicados ao craque francês (e quem sabe se a antiga estrela dos relvados, que agora reside em Lisboa, não os ouviu?)…

De “Angel” e “Damselfly”, temas feitos em colaboração com Tom Misch, a “The Isle of Arran”, “Ottolenghi”, “Ain’t Nothing Changed” ou “No CD”, ainda houve tempo para Jorja Smith se juntar ao MC e tocarem a tranquila e melosa “Loose Ends”. Prestação imaculada de um artista que se estabeleceu recentemente no topo da pirâmide do hip hop inglês.



Quando Loyle Carner termina a sua masterclass em conquistar um festival com boom bap orgânico e consciente, já a temperatura se tornou muito mais permissiva: o frio sabe bem, os membros repousam ou reeditam o frenesim de se dirigirem a novo baile. A estas horas, há quem se prontifique para os The Cure; nós seguimos sem ortodoxia — para a barricada, já depois do êxodo pós-Carner e de uma nova vaga de gente em nervoso miudinho, diversa e exuberante, do que será o espectáculo de Robyn.

Honey foi o longa-duração de 2018 que devolveu a sueca à barricada da pop tangível e acreditada, estatuto que ajudou a edificar ao longo da década de 2000. As suas confecções em Robyn e Body Talk subvertiam a descartabilidade anódina e anónima esperada do formato, firmavam-se rapsódias líricas numa cruzada pela emoção sempre maior, intransponíveis monólitos da electrónica à flor da pele. Pele, tacto, sentido, sensual, descoberta: aproximamo-nos do intento deste disco que lhes sucedeu, um que arranca inconsolável, a verter a mágoa de uma grande perda, e termina em incerto mas irradiante júbilo. Sensualidade no mais puro sentido: o de canalizar o corpo e cada instinto primal seu, sem pressas — deixando-o ser a fúria inconsolável, preparando-o para uma ligação ao íntimo, fazendo-o escutar e movê-lo em concordância com um ritmo que já não é déspota. Partir à descoberta, na discoteca, de quem já se foi.

Essa configuração imediatamente anterior de Robyn, potência possivelmente máxima do poptimismo e voz gritante de coisas privadamente ubíquas, foi latente durante a parte de leão do seu concerto, o seu primeiro em terras lusas exceptuando uma primeira parte para Madonna em 2008. Muita coisa mudou, traumas sobre os quais a sueca tem sido cândida — a morte do colaborador Christian Falk esteve na génese desta reinvenção. Em campo, jogou primariamente uma Robyn liberta e espontânea, numa revolução pessoal; a fazer-nos crer no lugar-comum das mensagens da pop adoptáveis para servirem às nossas histórias, mas a oferecer-nos a substância e o peso de novos arranjos, a dar-nos a mão e o tempo para também nós nos descobrirmos ali, consigo como bússola e comandante.

Um pano desce sobre um cenário elegantemente alvo, já recheado com os membros da banda — por enquanto, permanecerá ali, e percebe-se o porquê em “Send to Robin Immediately”. Esta é uma viagem nebulosa, de batida tardia e pendor dramático, pela urgência da expressão — de qualquer amor e de qualquer corpo. Pontapé de partida, em que há uma tensão efervescente entre a chamada destes versos e a sua origem pessoal; o pano, como uma quarta parede que não é intransponível, não suprime a visibilidade do palco, mas imprime sobre Robyn e companhia um ténue grão. Para que nos lembremos disso, o que torna mais crível a dimensão curativa, proposta pela sua voz compassiva. Na transição para a faixa-título de Honey, adivinhada por um público já trémulo e vibrante — o jugo que cedo se impõe nas filas da frente alastra-se por toda a plateia —, o peso abate-se sobre nós: foi esta faixa, coisa inenarrável e incomprimível, que ensinou à autora o coração do disco que foi assim baptizado. O compasso é também como o de um coração em fervor, um que se aconchega na transmissão da interioridade cá para fora. “Between the Lines” será lascívia pura; “Love Is Free” (de 2015) virá aterrar como o menos adulterado momento club, uma digressão de motes e gemidos pela pista de dança; Robyn e um dançarino, sorrisos nas caras e soltura sexual, coreografam a catarse mais ebuliente, um no fucks given universal.

Se é cliché dizer que um artista trouxe a palco o seu conceito de discoteca, então que acabe aqui de ser extensível a outros: iluminação parcimoniosa e o sabor táctil da noite como mise-en-scène imaginária — a real consiste, para além de instrumentos, numa enorme mão insuflável — num espaço em que nos é permitido caminhar, balançar, pesar, arranhar, saltar. Robyn é da mais elevada performance no mundo, mas a feitura do álbum que ancora este concerto fez-se de trâmites que são inerentes à humanidade emocional — os que retoma aqui, superficialmente para nosso usufruto, mas realmente profundo a um nível subcutâneo. “I’m gonna love you like I’ve never been loved before”, canta, crescentemente artilhada e segura, na mais antiga “Indestructible”, antes do pulsátil sismo da recente “Ever Again”, cuja vibração é uma das terapias mais pujantes na história da música gravada (e ao vivo).

Mas esse é um título pelo qual cada constituinte do repertório de Robyn se bate desde o princípio — e, se não esse, outros aproximáveis. O momento de maior agonia num amor por corresponder? “Be Mine!”, resgatada do LP homónimo de 2007, é o momento em que a nossa quarta parede é dramática e monumentalmente rasgada — eis a universalidade que consagra a sua e a melhor pop. Pouco depois, aterra o momento que ameaça bater o recorde do festival em decibéis, mesmo no palco secundário: “Dancing on My Own”, justamente vindicada e devolvida à sua criadora, é ouvida numa entoação calcada, despojada do resto que está em palco; Robyn agradece sem microfone, como agradecerá no final, já amplificada. Para quem não experienciou o desfecho da canção ao vivo, a energia é como um martelo pneumático, pescoços em convulsão e cabeças em headbang, tudo num segundo.

A sequência resvala para outro dos triunfos dessa era, na empática e cortante forma de “Call Your Girlfriend”, que ameaça dissolver inteiramente o limite da performance na música pop — um parâmetro simplesmente obliterado ao longo daquele que é um dos concertos do ano, senão de todos os tempos. É vigor escancarado e ao volume máximo, generosidade total e crença no poder terapêutico da música — e, como virão recordar o trauma principiante de “Missing U” e o final finalíssimo da espástica, sofrida, imbatível ode que é “With Every Heartbeat”. Robyn não nos mente. Alguns traumas deixam vestígio, mas deixam-nos o legado da arte eterna — e arte à qual nos podemos mover, para que sentido queiramos. Para que descubramos o que é, afinal, a sensualidade.


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