LP / CD / Digital

Nazar

Guerrilla

Hyperdub / 2020

Texto de Vasco Completo

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Em entrevista concedida a André Forte e publicada no Rimas e Batidas, Nazar afirma: “Eu sempre tive orgulho de ser ovimbundo, de ter essa herança e cultura. E esse sempre foi o meu objectivo: eu quis ser um artista bem sucedido sem nunca ter de mudar o meu discurso ou de pôr um filtro, censurar-me. E talvez seja por isso que demorou mais tempo para ter a atenção que tenho agora”. Efectivamente com sucesso, o uso de samples de música tradicional ovimbundo traz logo à tona o intencional apelo à memória colectiva dos 27 anos da Guerra Civil Angolana e das consequências da mesma. O próprio músico, nascido ainda no longo período em que a guerra decorreu, perfez recentemente os mesmos anos que o conflito durou. Neste enquadramento e justaposição de realidade, música e visão pessoal dos factos, as síncopes compassam o negrume das batidas que se poderiam dançar em Guerrila, não fossem elas a narração do mal sofrido por tantas gerações, incluindo a do produtor, como é óbvio.

No mesmo espírito club-based do Reino Unido que habita o dubstep de Kode9, dos regressos a casa de tube de Burial ou das batidas de DJ Rashad, pode considerar-se que Nazar entrou na casa certa: a Hyperdub tem sido a base para pioneiros e desenquadrados, daqueles que aglutinam e justapõem influências e ideias. Tal como Rashad revolucionou e transformou o footwork, também Nazar é um revolucionário transformador a caminho de metamorfosear o kuduro. Tal como Burial incluiu vozes e samples nos seus edifícios sonoros, Nazar também as usou para cimentar a estrutura narrativa da história que conta – conseguindo ainda conjugá-las ritmicamente, tornando-as um instrumento da canção, tal como se percebe em “FIM-92 Stinger”. Noutra conversa com o ReB aquando do lançamento de Enclave, disse mesmo que o “universo conectado das músicas”, a relevância dada à emoção na música de William Bevan e a simplicidade das suas estruturas, foram influências importantes para cimentar as bases da unicidade do seu som. Haveria mesmo outra casa possível para ele?



Com tudo isto em contexto, Guerrilla só podia existir desta forma: compassado por ritmos intensos, bruscos, acutilantes e agressivos, mas também extremamente ponderados. Falar de “rough kuduro” talvez seja redutor para descrever o mundo de Nazar: aí, além desse género, também se ouve house, ambient, techno, noise e breakbeat. Antes dos graves distorcidos surgirem na mistura, sentem-se também a trovejar melodias doces de sintetizadores cortantes. A influência europeia (tanto pelo lado do french touch — o seu gosto pela música dos Justice salta à vista — como pelo mais tardio interesse em Burial) é brilhantemente fundida com a música angolana, principalmente ao contextualizar as suas vozes e melodias tradicionais. Assim, moderniza, por um lado, o kuduro e a tradição ovimbundo, mas também a electrónica europeia com que cresceu. Haja propriedade para fazê-lo.

Não há muitas estreias em formato longa-duração como a de Nazar. Guerrilla é um encorpado registo que explora diferentes ambientes e influências – entre as mais despidas, vulneráveis e emocionais como “Mother”, “Retaliation” e o incrível fecho “End Of Guerrilla”; ou as mais sufocantes, de percussões intensas, sintetizadores rasgados e samples alusivos à guerra, como “Arms Deal”, “Why” ou “Intercept”. No meio, a absorver os dois extremos do disco, habitam faixas como “UN Sanctions”, ou mesmo a mais lenta, mas não menos poderosa, “Bunker”, com a intervenção quasi-spoken word de Shannen SP. “They may never see light” ouve-se pela voz da artista, reflectindo bem o sentimento daqueles que viveram durante esses tenebrosos 27 anos de guerra.

Um jovem Nazar viu a sua infância marcada pelo impacto que a guerra teve no seu seio familiar, e isso sente-se ao longo do relato tão pessoal que ouvimos ao longo do álbum. Guerrilla é mais do que som; é vida e as histórias conturbadas que a compõem. É também por isso que este longa-duração de Nazar é tão especial. E de discos especiais é feito o catálogo da Hyperdub.


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