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Nazar: “A música foi a maneira mais produtiva que encontrei para continuar a importar-me”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

Enclave é o título do primeiro EP de Nazar pela Hyperdub Records. “Konvoy”, um dos temas do curta-duração que sairá no dia 16 de Novembro, fez parte da badalada mix assinada por Kode9 e Burial, a última instalação da série FABRICLIVE.

Entre a Bélgica, Angola e Inglaterra, o produtor angolano afiou as pontas do seu “rough kuduro” e utilizou a sua arte para reagir a um regime político que, segundo o próprio, obriga a juventude a alienar-se do que se está a passar, uma espécie de instrumento de sobrevivência que, no caso de Nazar, serve para construir um conjunto de produções em que trilha os caminhos mais obscuros do género musical que surgiu em Luanda nos anos 80.

Actualmente a residir em Manchester, o jovem de 25 anos conversou com o Rimas e Batidas sobre o início do seu percurso, a realidade política angolana, a relação com Kode9 ou a cena musical portuguesa.

 



[O background musical e o FL Studio instalado no computador do pai]

“Sou auto-didacta, cheguei a ter umas aulas de piano aos 15 anos, em Luanda, para ocupar tempo, mas foi durante três meses. O que foi aprendido também foi esquecido nos três meses a seguir à paragem da minha aprendizagem por falta de interesse. No entanto, descobri o Fruity Loops. No colégio de Luanda, onde eu estudava, muitos estavam na posse da versão pirata. Eu também, mas só depois de perceber como poderia chegar a tais versões. Comecei a fazer beats com a versão demo no computador do meu pai sem ele perceber. Quem diria que um deputado andava por Luanda com o FL Studio instalado no seu laptop. Não podia gravar os projectos, por isso tinha que ser rápido e concludente antes de ele dar conta.”

 

[French touch, Bélgica e kuduro]

“Comecei a produzir beats por causa da conexão entre o DAW e o estilo kuduro. A cultura à volta desta ligação. Sempre quis fazer música, sem especificamente querer ter uma carreira nela, mesmo antes de ter-me mudado para Angola, porque sempre fui amante de música na minha infância — hip hop, indie rock, brit pop, música electrónica, especificamente french touch, etc. -. mas nunca soube como (ou por onde) começar. Angola mostrou-me esta ponte e fiquei impressionado pela facilidade em criar o que se ouvia na rádio. E o kuduro feito lá era muito melhor do que o que se ouvia na diáspora, algo que me levou a achar que o mudo deveria saber disto.

Nesta odisseia, o que eu trouxe da Bélgica foi amor por música electrónica, independente, obscura, e melancólica. Crescer a ouvir ‘Robot Rock‘ dos Daft Punk ou ‘Waters of Nazareth‘ dos Justice, aliás, o meu nome artístico vem dos últimos. Os Justice praticamente que me empurram de vez para começar. E começo por tentar emular o som deles: na altura em que tinha chegado a Luanda há poucos meses e ainda me sentia mais europeu. Os meus primeiros beats eram de French Touch, de kuduro e às vezes uma mistura dos dois. Com o passar do tempo, fui amadurecendo e apercebi-me da absurdidade desta mistura, sem quaisquer conexão cultural entre os dois e parei. Tomei um outro caminho, fui desenvolvendo o meu ‘paladar’ musical. Apenas o aspecto teatral e agressivo ficou, casado com o aspecto festivo e agressivo da batida angolana.”

 

[A Hyperdub]

Depois de várias mudanças entre Angola e Inglaterra, no tempos em que ainda achava que a vida académica fosse para mim, decido voltar para Inglaterra (Londres primeiro, Manchester depois) uma última vez com um plano concreto — dedicar-me exclusivamente a música — sem ter nenhuma outra aspiração — enquanto trabalho sob um salário mínimo. Estava consciente que estava na posse de um som único, e que deveria por isso contactar editoras que valorizassem isso.

Um amigo meu português chamado Afonso Ponto aconselha-me mandar música para o Kode9 porque, alegadamente, era um senhor muito porreiro, e que certamente responderia. Dito e feito, só que não curte completamente a cena. Diplomaticamente, diz-me que a malha é muito ‘louca, frenética, techy’, algo que ele não está a procura de momento. De facto, as demos que mandei eram os meus beats mais ácidos, mas sempre rough kuduro. Era terceiro EP da série NIHIL. Algo que “bateria” bem para Warp Records. E olha, também mandei para eles. Eram os únicos em contacto comigo. E os únicos que tinham o meu interesse no mundo. Mesmo sabendo o quão difícil seria para um gajo de Angola assinar com editoras deste patamar, sempre acreditei que qualquer um, não importa de onde vem, pode criar algo ao mesmo nível dos artistas destas editoras, em termos de originalidade e qualidade, mesmo estando a criar beats num calor diabólico em Luanda sob cortes incessantes de luz, no FL Studio 11.

Mas voltando ao Kode9: ele, achando que devo ter mais coisas interessantes, e influenciado por gente trabalhando na sua label que gostaram do meu som, demonstra-se inclinado a manter o contacto comigo, introduzido-me à relações públicas da editora, radialista, co-curadora das festas experimentais da Hyperdub, Shannen SP. Enviei-lhe músicas novas mensalmente até que finalmente convida-me a tocar numa edição das tais noites mensais chamadas “Ø”. Aparentemente, o meu set consolidou a intuição do Steve (Kode9) de que tinha muito mais para mostrar. E estava certo: nas semanas seguinte, fui mandando as demos mais ‘quentes’ que tivesse — da minha evolução do rough kuduro, o que viria depois do NIHIL 3. Tinha a clara intenção de demonstrar que não faço apenas batidas de kuduro pela ‘drena’ mas que tenho também um universo à volta delas, um mundo que levou-me anos a criar, influenciado por diversos tipos de artes como a fotografia, animação e literatura. Tal como fizeram os Daft Punk, Justice ou mesmo Burial, criar um som reconhecido e próprio sempre foi importante. E assino o contrato para o EP e mais.”

 

[A escolha de “Konvoy” para a mix de Kode9 e Burial]

“Senti-me muito bem, não tão eufórico porque sinceramente já me tinha fartado da música em questão [risos]. Para mim era menos sobre o símbolo de ter um som escolhido pelo Kode9 e Burial. Mas entendi porque que foi escolhido depois de ouvir a mix. Encaixa-se perfeitamente. Interessei-me pelo Burial só em 2013 — sei que é muito tarde — e passei a ser fã do primeiro álbum. Do universo conectado das músicas dele também. A postura dele perante a qualidade sonora de certos aspectos de uma música — o mais importante é a emoção dela. E a simplicidade das estruturas das suas músicas.

Um segundo som meu também tinha sido escolhido e o seu tempo de concepção foi mais recente, logo era mais amado por mim do que a ‘Konvoy’. Mas acabou por ser posto de lado. A mix tinha um número finito de música permitidas, ou limite da duração da coisa toda. É literalmente uma da minhas produções mais pesadas, mas o mundo não está pronto ainda [risos].”

 

[Os jovens angolanos e a política]

“Angola é um país onde tudo pode deixar um jovem stressado se se importar muito com o que está a sua volta. Por isso é que a maioria da juventude desliga-se desta realidade com passatempo não muito produtivo. Sem querer saber da história, da actualidade e do futuro do país. Por causa da falta de seriedade do governo em construir uma nação, um Estado de Direito.

A música foi a maneira mais produtiva que encontrei para continuar a importar-me. E a procurar a verdade. E conectar-me com as verdadeiras raízes da minha etnia. Estar mais próximo do meu pai, que não me viu crescer. Entender a história da minha família.

Há muita coisa para ser dita. A reconciliação ainda não se faz sentir de verdade nas instituições. As histórias da guerra são alteradas e instrumentalizadas para alimentar o mito do regime vanglorioso. Eu, tendo nascido numa família envolvida na oposição angolana, é claro que olhava para os órgãos oficiais de um jeito repugnante. Mas parece que as coisas estão a mudar lentamente com a mudança de presidente.”

 

[As influências e o que anda a ouvir]

“A cena french touch foi a primeira influência, cresci obcecado por Daft Punk e Justice (só até ao primeiro álbum e ao primeiro live, porque que sinceramente não os entendo mais). Alimentando o meu amor por narrativas. E estes últimos também me levavam até às suas suas próprias influências. As suas ramificações levaram-me a outros territórios musicais. Da musica folk a rap, techno industrial, sub-géneros de house.

Nos últimos cinco anos (quando descobri Burial) até ao momento, tenho-me interessado mais pela cena inglesa. Os meus produtores favoritos do início da minha idade adulta estão localizados aqui, na Inglaterra, algo que influenciou a minha vinda definitiva para cá. Actress, Andy Stott, Burial, Aphex Twin, James Blake e Jai Paul são artistas que eu ouço pelo menos uma vez por semana. Na América, Death Grips e JPEGMAFIA, bem como um número elevado de beats de J Dilla, Nujabes, rap do Earl Sweatshirt e Tyler The Creator, r&b do Frank Ocean. E coisas mais catchy mas sempre boas do Playboi Carti. Ouço também grime de Skepta e Novelist e drill de alguns artistas como Unknown T.”

 

[Portugal e Príncipe Discos]

“Estive mais atento à música portuguesa no passado, quando era mais um angolano adolescente passar férias em Portugal. Aliás, Portugal foi o primeiro mercado em que eu estive interessado em lançar a minha música. Só que senti falta de uma plataforma adequada para lançar música da minha natureza. Eu não seguia padrões que dessem motivos suficientes para que editoras investissem em mim. Não era club suficiente ou whatever. Fartei-me e i moved para onde seria valorizado.

Para mim, a cena portuguesa só passou realmente a ser excitante com a chegada da Príncipe. E é por isso que tem um sucesso estrondoso, influenciado pela qualidade dos EPs que tem lançado. DJ Nigga Fox e P. Adrix são os meus favoritos. O Adrix reside na mesma cidade que eu.”

 


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