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Fotografia: marieke bosma

Do Enclave à Guerrilla.

Nazar: “A recompensa é maior quando sigo um caminho mais difícil”

Fotografia: marieke bosma

Há dois anos, o produtor angolano Nazar entrava nos radares de todos os melómanos por via do seu registo de estreia, Enclave. Foi o primeiro fruto de uma relação (que se espera longa) com a editora Hyperdub, casa para nomes icónicos da electrónica, como Burial, DJ Rashad, Space Ape, ou do próprio patrão do selo, Kode9. Mesmo aqui, no Rimas e Batidas, Nazar não deixou de aguçar curiosidades. E como ignorar um artista (mais um!) cujo talento e contexto cultural servem para alimentar a ideia de que o futuro dos sons passa por uma “crioulização”, como nos disse Dino D’Santiago há não muito tempo? Como ignorar um produtor que passa por novas latitudes e combinações inéditas de estilos velhos? Caso dúvidas houvesse, o primeiro longa-duração de Nazar chegou para as dissipar.

O futuro também se revela no passado, e o documento Guerrilla, um exercício de reflexão e exorcização de um dos períodos mais difíceis da história de Angola, um país cujo impacto na diáspora portuguesa e consequente influência nas novas expressões de pista de dança é inegável, permitiu a Nazar engendrar os novos caminhos do kuduro. Não será coincidência que uma editora cujos ímpetos sempre foram de levar para diante a arte de produzir música, e cujos receptores sempre foram sensíveis aos outputs de vanguarda, como o da Príncipe Discos, encarasse neste suposto novato uma possibilidade de expansão dos seus horizontes até África, continente onde ainda só tinha investido por via do gqom de África do Sul.

O kuduro de Nazar diz-se “rough” e quer-se assim mesmo, ainda que este seja um epíteto que não faz jus à produção que se ouve no disco, ampla e bem preenchida. Guerrilla é um passo em frente num género que, em Angola pelo menos, não explora a amplitude de frequências que a expressão permite. “No início, ‘rough kuduro’ partiu de uma necessidade de me diferenciar do estilo. Começou quando estava a partilhar as minhas primeiras músicas no Soundcloud. Outros produtores é que começaram a dizer que o meu som era mais ‘rough’. Era normal, porque eu trazia muito das minhas influências antigas, de electrónica francesa, principalmente Justice, para as produções”, explica Nazar em entrevista, admitindo que “foi uma opção estética, mas acabou por se tornar uma necessidade para passar a [sua] mensagem.”

Neste momento, porventura, a crueza de Nazar alimenta a narrativa, mote principal deste filho da Guerra Civil angolana, um dos maiores flagelos que o país alguma vez sentiu — mwangolé contra mwangolé, durante mais de 30 anos. O conflito abriu uma ferida que não se sente apenas em clivagens sociais, mas que separou famílias, alienou pessoas e marcou o presente da nação de forma indelével. Durante três décadas, a reconstrução do país foi adiada e as suas possibilidades singulares de eminente afirmação cultural tardaram. Filho de Alcides Sakala, antigo diplomata pela UNITA e actual deputado, o produtor sentiu esta ferida de formas diferentes: pela distância, da sua cultura e da sua família, e pela não inclusão devido à associação à UNITA. Um sem número de traumas impossíveis de explicar, mas nem por isso impossíveis de sentir. É isso que ouvimos em Guerrilla.

“Quando cheguei a Angola, fazer música pareceu-me uma resposta natural para o ambiente que encontrei. E fazer música desta forma, parecia-me o melhor espelho do que via, a melhor forma de falar de frustrações e problemas. Do dia-a-dia em Luanda, e do choque cultural que senti quando me mudei da Bélgica para Angola”, conta-nos. Nascido em Bruxelas, longe da terra-mãe, e onde ficou até aos 13 anos, a não-pertença — um sentimento que, não neguemos, os europeus conseguem impor a outros europeus de ascendências mais diversas — marcou a sua infância e ditou a vontade de regressar a um sítio que, na verdade, não conhecia, e cuja estranheza muito o impactou. Cinco anos depois do fim da guerra, a família Sakala reúne-se em Angola, com o consequente choque de não ver as suas simpatias políticas reconhecidas como algo positivo em terras governadas pela família dos Santos e pelo MPLA: “Deparei-me com esse dilema, de não pertencer a lado nenhum. Senti que estava num limbo, e foi isso que me motivou a fazer música.”

A música de Nazar tornou-se documental — ora metafísica, pela carga pessoal de uma história que, apesar de não ser alheia para o povo angolano, marcou a sua infância e adolescência de forma singular, ora quase de carácter histórico, ao ser um acto de conciliação de identidades de um país que é mais do que Luanda, com mais de 30 dialectos, dezenas de etnias e uma riqueza cultural imensurável. “Eu sempre tive orgulho de ser ovimbundo, de ter essa herança e cultura. E esse sempre foi o meu objectivo: eu quis ser um artista bem sucedido sem nunca ter de mudar o meu discurso ou de pôr um filtro, censurar-me. E talvez seja por isso que demorou mais tempo para ter a atenção que tenho agora.”

A cultura ovimbunda, a etnia mais comum de Angola, ouve-se no disco, pela voz dos pais, que em Umbundo contam histórias de um país que vai do Uíge ao deserto do Namibe. Ouve-se Lobito, ouve-se Huambo, ouve-se a prova de que há uma cultura viva que não se pode explicar em língua portuguesa, mas unicamente nesta língua bantu. “O contacto que tive com os meus familiares, um pouco por todo o país, foi essencial para a minha formação. Estou a procurar retomar a ligação à cultura ovimbunda”, revela. “Foi uma mudança para mim, também. Eu orgulhava-me ser africano, mas de ter nascido na Europa, na capital da União Europeia. Não me apercebia de que tinha uma abordagem eurocêntrica. Mas passei desse extremo a amar esta cultura, a gostar de ouvir umbundo, de ser parte de tudo isto”, confessa.

O seu amor, contudo, traduz-se não num saudosismo, mas na insinuação de novas possibilidades sonoras, num exercício claro de problematizar os cânones do kuduro e revitalizá-lo com novas perspectivas. Ainda que a batucada se recrie por outros elementos percussivos, que os ritmos sejam quebrados e naturalmente forçados sobre as pernas, é na produção e nos elementos melódicos que Nazar vai buscar o seu traço “duro” e eleva o género ao estado experimental que ouvimos. Ora por via dos graves e subgraves (ou não fosse ele da Hyperdub), ou pelos sintetizadores excessivamente brilhantes com que pinta as melodias, fruto do rol de influências que a supramencionada europeização lhe incutiu por vias “do death metal, do hip hop, ou da electrónica francesa mais dark.”

O foco de Nazar, elemento clínico no desenrolar da sua carreira, permitiu-lhe assimilar nas suas produções o que parecia faltar no som de Angola sem se quedar em imitações do que as pistas de dança já esperam destas batidas. O imprevisível acontece em Guerrilla, um pouco como aconteceu no seu percurso — tentando, sem sucesso, chegar à Warp, e seguindo em busca da actual editora por conselho de amigos. Depois do primeiro contacto, surgiu a oportunidade de tocar na noite 0 [Zero], com curadoria de Kode9 e de Shannen SP, em b2b com esta última: “não foi o que esperava. O material que tinha disponível era obsoleto e eu não estava habituado, mas serviu para fazer um set old school approach. Foi óptimo, porque eu sei que não teria uma noite pior do que aquela tão cedo. Para aprender a controlar ansiedade e stress, foi o melhor que tive.”

Da segunda vez, a história já foi outra: “Eu vi isso como uma oportunidade. Foi engraçado, porque foi a segunda vez que toquei na vida. Mal cheguei a Manchester, fiz algo que não tive oportunidade de fazer em Angola, que foi agarrar no mixer e começar a preparar-me. Foi nessa altura que eu percebi que não é qualquer pessoa pode tocar com o Kode9, num contexto destes. O set que fiz foi 100% de malhas minhas, só coisas fodidas. A missão ali era impressionar o Kode9. E acho que ficou impressionado, porque o que mostrei ali era muito melhor do que as demos que lhe mandei. Foi assim que começou.”

Estas foram as suas primeiras incursões num club “a sério, com um bom soundsystem”. Não foi só o que lá deixou, suor, sangue e energia musical como só de Angola poderia vir, que marcou o seu percurso, mas também o que retirou da experiência. “A primeira vez que ouvi footwork ao vivo foi na noite 0. Eu não compreendia a popularidade do género, mas naquela noite teve um impacto tão grande em mim… depois dessa noite fiz logo a ‘Arms Deal’. Foi graças a essas experiências que eu percebi como é que se faz música, como é que se usam os subgraves. Em Angola, por causa dos batuques, temos um bom kick, mas não olhamos para os subgraves. Aquela noite mudou muito a minha forma de encarar música.”

As influências da sua editora também não tardam a fazer-se ouvir em Guerrilla, ainda mais do que no EP de estreia que lançou pela label britânica, Enclave. As comparações pecarão sempre por redutoras, mas é impossível não sentir que o caminho aberto por Burial na produção, de assimilar em cada faixa elementos plásticos, retalhados ao milissegundo e particularmente evidentes no homónimo do britânico, também é trilhado por Nazar. Em “Diverted” ouve-se os sons metalizados e seco do mecanismo de uma arma a marcar ritmo. Mas há mais: “Arms Deal” vai, de facto, buscar a ambivalência rítmica do footwork, esticando-se em andamentos diferentes e desdobrando-se em batidas do kuduro ao tarraxo sobre a mesma progressão harmónica, com um jogo de pés elástico, típico dos produtores de Chicago; e “UN Sanctions” usa as vozes como elemento melódico, que participa das possibilidades rítmicas do som.

Guerrilla nunca é óbvio na forma como se desenrola, e ultrapassa em muito o kuduro, que aqui serve de expressão rítmica para uma electrónica intrincada, complexa, rica em texturas. E o caminho de Nazar não se fica aqui: “Eu já estou a ponderar novas direcções. Eu gosto sempre de me desafiar musicalmente, nunca gostei de direcções fáceis, e eu sei que a recompensa é maior quando sigo um caminho mais difícil.”

Por agora, o produtor angolano está nas bocas do mundo, à espera que a pandemia se resolva para regressar à carga: “Estou a trabalhar no live set. Aqui, a narrativa é sempre mais importante do que as pessoas poderem dançar. Isso vai acontecer, claro, mas quero mais criar imagens na mente das pessoas, criar ambientes e moods diferentes. Este live set, que tinha passagem marcada para Portugal e consequentemente adiada pela pandemia, envolvia o artista visual Rob Heppell, colaborador de Gaika e realizador do vídeo da faixa “Bunker”, retirada deste disco e onde se pode ouvir Shannen SP. “Trabalhámos muito com arquivos de imagem da Guerral Civil, a partir dos quais o Rob fez modelos 3D para usar nas projecções do set”. Paralelamente, na calha tem outro set mais híbrido, desenhado para “elevar um bocado a produção de um DJ set” com elementos live, e com o factor “dança” mais preponderante na equação. “Os sons que eu vou buscar ao álbum são esses mesmo, mais mexidos, e depois tenho um arsenal de tracks afinadas para o dancefloor e que preenchem os meus sets,” explica.

No futuro, além de um regresso aos pratos, às pistas e ao mixer, tem a vontade de retribuir à nação que lhe deu a cultura em que mais se inspira: “Vou ficar 100% satisfeito quando voltar a Angola e puder dar estrutura para se fazer novas sonoridades. Eu sei que há putos a produzir coisas incríveis em Angola, mas sem estrutura. Eu fui um desses putos, sem uma produtora que me ajudasse a produzir, comunicar e expor o meu trabalho. Quero poder criar isso”. Se uma pessoa sozinha revela tantas possibilidades escondidas, uma estrutura que o permite em maior escala é uma ideia bela demais. Por enquanto, ficamos no aguardo — pelo regresso aos pratos, às pistas de dança, e pelos frutos que este ovimbundo se prepara para colher.


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