“Mistério, sombras, agressividade e peso de drums”: Il-Brutto estreia-se pela RAIA

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Daniel Gomes

Il-Brutto lançou ontem Hella Joints Vol. I – Instrumental Series. A beat tape de estreia pela RAIA recupera alguns dos instrumentais que o produtor do Porto criou para MCs emergentes dos EUA.

Foi no final de 2018 que por cá demos conta de um novo exemplo na exportação de beats para o mercado norte-americano. Pruven, LoDeck, o rapper e dono da Dead Orchard Records, Carmine Moth, ou o newcomer de Brooklyn Boxguts têm estado entre os seus clientes mais habituais, com este último a dividir mesmo um álbum na íntegra, Devils in the Details, com o português em Julho passado.

No seu catálogo pessoal já constavam perto de uma dezena de beat tapes mas os planos de Il-Brutto alteraram-se de modo a elevar a fasquia na forma como se apresenta ao público. Em cena entrou a RAIA, a editora fundada em 2019 pelos ORTEUM, que convidou o jovem João Pedro Almeida para se juntar aos seus quadros e trabalhar em novos projectos. Hella Joints Vol. I é, por isso, uma breve carta de apresentação por parte do produtor que, num futuro a curto prazo, iremos ver creditado nos lançamentos por parte de MCs da RAIA. Garantido para 2020 está já o seu EP de estreia, que terá NERVE ou Tilt entre os convidados e é uma das obras nacionais mais aguardadas pelo ReB.

Em conversa com o ReB, Il-Brutto fez um balanço do último, abordou a estética deste Hella Joints Vol. I e deixou algumas pistas sobre o futuro.



Falámos contigo pela primeira vez já no final de 2018. Entretanto o teu catálogo de produções aumentou e juntaste-te à RAIA. Que balanço fazes destes últimos meses?

No início de 2019 fui convidado para trabalhar com MCs portugueses que admiro e isso deixou-me bastante focado e motivado. Passei o ano todo a produzir para alargar o meu catálogo e considero que foi um ano que serviu para definir planos para além desse projecto, o que me fez assumir uma postura séria enquanto produtor e artista. Depois disto lancei ainda em Julho de 2019 um álbum com o Boxguts, nos EUA.

Ainda com um historial curto no que toca a colaborações com MCs portugueses, este Hella Joints já dá para termos uma ideia da quantidade de produto que tens vindo a exportar além-fronteiras. O que te fez eliminar da tua montra digital as tuas beat tapes anteriores para começar um novo portefólio com esta compilação de beats já usados?

Com o catálogo a ficar gigante percebi rapidamente que as beat tapes não seriam o melhor formato para expor o meu trabalho, visto que a certo ponto tinha material suficiente para dropar duas ou três beat tapes por mês e facilmente perderiam o impacto. Isto fez me ganhar ainda mais perfeccionismo com os meus trabalhos, o que me levou a assumir as beat tapes como algo mais amador que usei para uma demonstração da minha fase inicial enquanto produtor. Achei que esta seria uma boa oportunidade para lançar uma compilação oficial com alguns dos meus beats favoritos já usados, e começar a construir o meu nome a partir daí, num formato com maior visibilidade e mais profissional.

Nestes cerca de 30 minutos de música, há uma grande coerência na sonoridade dos instrumentais, sempre envoltos de um tom misterioso e sombrio e alicerçados sobre drums bastante aprimorados. Como defines o registo de batidas que tens desenhado ultimamente?

Um ano fechado a produzir dá para muita coisa, penso que evolui bastante, e o nível de consistência é o que mais me satisfaz com a minha produção actualmente. O material que tenho para apresentar após esta compilação está muito mais polido em todos os sentidos. A temática mantém-se a mesma: mistério, sombras, agressividade e peso de drums.

Lanças agora o Hella Joints mas sei que já tens um EP de estreia em mãos, que te levará novamente ao catálogo da RAIA. O que nos podes adiantar sobre esse trabalho?

O meu EP apresenta já esta nova fase da minha produção e posso confirmar, para já, as participações do NERVE e do Tilt.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira