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Nome de Código: Il-Brutto

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

A exportação musical portuguesa vai de vento em popa. Blastah Beatz tem créditos somados em temas de alguns dos mais sonantes nomes do rap norte-americano e Holly pode muito bem ser o produtor português mais internacional de sempre, mesmo que se encontre ainda numa fase prematura da sua carreira. Recentemente, o ReB abordou os casos de Mz Boom Bap e Bruno Matos, mas não nos podemos esquecer de outros tantos como Prodlem, Foreign Heat, 11 LIT3S…

João Pedro Almeida tem apenas 19 anos, assina como Il-Brutto e também já está com um pé no mercado norte-americano à conta de Carmine Moth, rapper e dono da Dead Orchard Records, de Phoenix, Arizona, a quem enviou vários dos seus beats, que acabaram por resultar em mais uma parceria transatlântica. O MC Boxguts também se juntou à festa e Vol. 1 Produced by Il Brutto chegou ao Bandcamp na passada sexta-feira.

Por cá, RAF TAG foi quem aliou o vocabulário escurecido às batidas necrófagas do beatmaker, que até então se tinha focado no formato beat tape. Com várias edições pela Mad Tapes, o rapper ganhou algum mediatismo na cena portuguesa quando, em 2009, foi convidado pelo primo Bob Da Rage Sense a participar na mixtape Incendiários, que teve o anfitrião Sir Scratch.

Il-Brutto estudou música e audiovisuais nas Caldas da Rainha, mas, neste momento, reside no Porto, onde frequenta a licenciatura em Música, Vertente de Jazz, na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo. Os planos para o hip hop já estão traçados: “Gostava de produzir um álbum de instrumentais em nome próprio com uma narrativa bastante sólida, mas talvez esse plano seja para longo prazo. A curto prazo é trabalhar em mais colaborações, tanto com pessoal de cá como com pessoal da Dead Orchard também. Tenho alguns projectos confirmados e outros a serem falados.”

 



[O início]

“Comecei a produzir há cerca de dois anos. Estudo música desde os 10 anos e lembro-me de começar a ouvir hip hop ainda mais novo com os jogos do Tony Hawk Underground. No secundário tinha vários amigos na escola que rimavam e/ou produziam e falávamos regularmente sobre hip hop e sobre os sons que eles iam fazendo — mostravam beats deles, álbuns que curtiam, etc. Após algum tempo, essas conversas despertaram o interesse em produzir e decidi experimentar e ver no que dava. Sempre produzi no computador — primeiro no Logic e, de há um ano para cá, passei para o Ableton Live. A tocar com as teclas do computador ou a cortar directamente as WAVs, coisa que se mantém até hoje.”

 

[A grande montra digital]

“Na altura meti algumas coisas [na Internet]. Depois, passado uns meses, apaguei tudo da net porque não estava a sentir. Comecei então a produzir vários beats por dia sem os partilhar. Só em Maio deste ano é que decidi começar a agrupar os beats em beat tapes e lançá-los desse modo, sempre na tentativa de cada beat tape ter algum conceito/sonoridade característico. A primeira beat tape é a única que ainda contém beats feitos antes da fase em que tirei tudo da net.”

 

[Quatro meses, seis beat tapes]

“A primeira é mais uma compilação, por essa razão é a que gosto menos. Depois dessa comecei a agarrar conceitos ou ambientes. No caso da segunda (The Great Escape) tentei ir buscar uma sonoridade mais industrial, beats mais barulhentos no geral, drums e breaks mais agressivos (inclusive algumas drums tocadas por mim, mas chopadas no produto final). Estava inspirado nas cenas do Shadow, El-P, Muggs, por aí. Na terceira (Disruptive) tentei criar uma certa narrativa para uma personagem delinquente. Fui à procura de uma sonoridade mais dark e misteriosa, misturada ainda com uma certa agressividade. A quarta beat tape (Last Stop) é provavelmente a minha favorita, consegui meter os beats a soar um bocadinho melhor (porque a minha mistura sempre foi horrível e também nunca investi em material de produção). Não sinto que tenha um conceito tão vincado, mas acaba por ser no segmento da anterior, mas um pouco mais melódico. Na quinta beat tape não foquei-me tanto na sonoridade mas mais no ambiente dark, menos polido e mais misterioso. O conceito acho que era à volta de um stalker qualquer que vi num filme. A última beat tape (Gambling) acaba por seguir o mesmo conceito.”

 



[A colaboração com RAF TAG]

“Um amigo meu apresentou-me ao RAF no ano passado, nas Caldas da Rainha. As nossas gerações são completamente diferentes — estou mais próximo da idade do puto dele do que da idade dele. [risos] Eu não conhecia nada do trabalho dele. Fui ouvir o U IMORTAL e gostei bastante, achei um álbum muito sólido e que a voz dele encaixava bem em alguns beats meus. E foi durante cerca de um ano que, nas Caldas da Rainha, eu, esse meu amigo e o RAF estivemos várias vezes juntos. Eu de vez em quando mostrava umas cenas minhas, outras vezes ele mostrava umas barras, começaram a aparecer umas ideias fixes. Muita conversa sobre hip hop, até que este ano decidimos fazer algo juntos.”

 

[Dead Orchard Records]

“O meu amigo RAF TAG mostrou-me um álbum dessa editora intitulado vineyardghosts. E eu fiquei mesmo agarrado à vibe desse álbum pela sonoridade dark, pelos samples, e, especialmente logo na primeira música, gostei das vozes dos dois MCs. Mandei mensagem para lá a pedir o contacto de um dos MCs, porque gostava de fazer qualquer coisa com ele. Coincidência que o dono da editora era esse mesmo MC. Mostrei-lhe os meus beats, ele curtiu, convidou-me a entrar para a editora e combinámos começar a trabalhar num álbum para ele e o Boxguts rimarem.”

 


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