Mike El Nite: “Os rappers também são entertainers e às vezes é preciso uma piada para as pessoas perceberem”

[FOTOS] Filipe Feio

 

Encontramos Miguel Caixeiro (aka Mike El Nite) ao pé de casa. Vem a descer a rua acompanhado do amigo André, a quem chama “o fantasminha” – a propósito do nome artístico, Ghost Wavvves. Traziam na mão uma garrafa de vinho branco, fresquinha, para seguirem, após a nossa conversa, para o Musicbox, no Cais do Sodré, onde ia tocar Shlohmo. “E assim já vamos um bocado carregados”, sorri Ghost.

Mike El Nite não é tão espevitado. Aparentemente é mais ponderado. Convido os dois a sentarmo-nos num café dali do bairro a beber uma daquelas imperiais de fim de tarde numa Primavera quente, mas ventosa. Amavelmente recusam, para não fazerem misturas com o vinho. Ficamos então à conversa, entre cigarros de enrolar, numas improváveis escadas que dão para umas varandas na fronteira entre Carnide e Telheiras. “Zona T”, como lhe chama Mike. “Ali é a Escola Secundária de Carnide”, aponta para a direita. “E ali, depois do cruzamento, já é Telheiras. A ‘Zona T’ refere-se ao sítio onde costumo parar, onde conheço mais gente.”

Foi por aqui que tudo começou para Mike El Nite, a segunda vida de Miguel Caixeiro no hip hop. Esta um pouco mais a sério – a primeira acabou em meados de 2006-2007 com uma desilusão com o mundo do rap. Até que Mike conheceu o colectivo Odd Future e voltou a ganhar inspiração para compor e produzir. El Nite fez rebentar “Mambo n.1”, do primeiro EP-bomba Rusga Para Concerto Em G Menor.

Agora que editou o novo EP, Vaporetto Titano, vamos conhecer melhor Mike El Nite: a história de vida, as referências passadas e presentes, a ASTROrecords e até uma possível faceta de humorista. “Mike El Nite, zona T finest”.

 

Cresceste nesta zona e foi aqui que começaste a fazer também os primeiros sons?

Já fazia as primeiras experiências antes de vir para cá. Só quando vim para aqui é que comecei a trabalhar mais na cena a sério. Foi no 10º ano, quando gravei a minha primeira música, na casa do Agir, aqui nesta rua, produzida no [programa] E-Jay. Até teve um hypezinho aqui nesta zona. Só depois quando fui para a ETIC é que conheci o Nofake, que é de Santo António dos Cavaleiros e comecei a ir gravar a casa dele. Mas o processo criativo sempre veio aqui da zona, do circuito escola-casa e das coisas que vivia aqui.

Como nasceu o interesse pela música?

[Ghostwavves mete-se na conversa e diz ‘A ouvir Quinzinho de Portugal’, que é pai de Miguel Caixeiro]

Mike El Nite – (risos) Antes de ouvir rap ouvia Rage Against The Machine, Limp Bizkit, Offspring… com Limp Bizkit e Rage comecei a ser introduzido à forma de cantar mais rap. Acabei por conhecer Eminem e Mind Da Gap, na altura. Fui aí que comecei a interessar-me mais pelo rap.

E cresceste a solo?

Muito, mesmo. Sempre aconteceu cruzar-me com pessoas com quem trabalhava, mas o meu espírito de necessidade de o fazer sempre foi a solo. Sempre quis fazer por mim. Mas isso levou-me a outras pessoas com o mesmo espírito e a partir daí saíram experiências fixes.

Uma coisa é ouvir música, mas outra é querer começar a fazer canções. Como nasceu essa vontade?

Sim. Sempre me safei bem a português e sempre gostei de escrever. E percebi que o rap era uma cena fixe para me expressar porque eu não sabia tocar nada. Ainda hoje não sei. Mas era uma boa maneira de fazer música, só com palavras e ritmo. Isso estava muito associado à minha cena de crítica social. Os meus pais sempre me deram para ouvir muita música de intervenção.

O que é que te davam a ouvir?

Sérgio Godinho, José Mário Branco, Zeca Afonso… todos esses nomes. O meu pai pertencia à Brigada Victor Jara. Tenho uma forte influência da música de intervenção e de certas mentalidades de esquerda. Isso sempre esteve muito presente lá em casa.

E consequentemente na tua música?

Já foi mais. Quando comecei tinha o sentimento de revolta do sistema e de tudo o que me rodeava. Foi isso que me deu o primeiro drive para me expressar, porque sentia que as pessoas não pensavam como eu e eu queria mostrar-lhes como era.

Quando somos putos temos tendência a pensar mais globalmente.

Temos uma tendência maior para pensar em revolucionar o mundo, em querer deixar marca na sociedade. Ainda hoje penso assim, mas na altura era vivido de uma forma muito mais fervorosa. Hoje já falo de outras coisas.

“Caixeiro sem dinheiro para fazer isto”, dizes em “F.E.N.A”. E lembro-me, também, do tema “Mel & Cólicas”, onde fazes uma crítica social mais explícita.

Ya, ya. Gosto de ter isso presente nos meus trabalhos. Nesse tema falo das minhas próprias dificuldades, porque às vezes é bué frustrante não ter dinheiro para fazer o que queremos ou não nos darem dinheiro por aquilo que fazes e sabes que fazes bem. Mas isso é assim em qualquer profissão! É muito latente que há muitas injustiças no mundo na minha cabeça, mas não quero dizer isso com um discurso cansativo, prefiro dizer de uma maneira que deixe as pessoas a pensar, mas consigam estar a curtir o som.



Identificas-te com o discurso revolucionário de alguns MC, como o Valete, por exemplo?

O Valete tem um discurso que não deixa dúvidas. Eu gosto de ironizar um pouco mais as coisas. Às vezes preciso dizer uma piada para as pessoas perceberem…

O crescimento fez com que deixasses de abordar as temáticas de uma forma tão global?

É sempre pessoal, porque sou eu a expressar-me. Se eu disser que o mundo é injusto e o sistema está todo marado as pessoas podem concordar. Mas se contar uma experiência pessoal as pessoas vão relacionar-se muito mais. Há logo uma troca imediata de ideias entre artista e ouvinte. Essa ideia cresceu a ouvir muito rap e, sobretudo, com a influência de Eminem, que conta os dramas pessoais de forma muito pormenorizada, que leva-nos para as histórias dele! Há uma frase no filme do Ray Charles que diz: “As pessoas querem é ouvir boas histórias”, mais do que ideologias.

Foi isso que já fizeste nestes dois primeiros EP: contar histórias?

A nível lírico, de mensagens dos sons, andam muito à volta da minha vida pessoal, de eu querer afirmar-me, e até fazer algum malabarismo técnico com rimas, para mostrar o potencial. Uso referências que fazem parte da minha vida. É o texto poético, fazer arte com texto.

Achas que também tens em ti um lado humorístico? Pela forma como passas as tuas mensagens, pela forma como te apresentas em palco, pelas capas dos teus trabalhos…

Sim, acho que os rappers também são entertainers. E as pessoas não gostam só de rimas que as façam sentir mal, mas que também as façam rir e que provoquem sentimentos. O Rui Unas é que disse que o trabalho dele é quase como um rapper, porque também tem o lado da punchline, da piada, tem que cativar o público seja com piada, frase chocante, trocadilho. A fórmula é parecida.

Como funciona o teu processo de trabalho? Gostas de te manter isolado ou trabalhas naquela espécie de “cooperativa” – já que és um gajo de esquerda – a ASTROrecords?

Não sou um gajo de esquerda. Tenho é várias ideologias de esquerda. Quanto ao trabalho, depende bué: às vezes são canções feitas sozinho em casa, que nascem comigo a obcecar com um tema. Acho que os momentos em que estou sozinho são mais criativos, porque estou só comigo. Tenho mais espaço para ir buscar mais coisas à cabeça, mas também é fixe saber partilhar essas cenas com outras pessoas. O “Mel & Cólicas”, por exemplo, foi escrito com o Nofake no mesmo dia. Juntámo-nos, fomos à ASTROrecords, escrevemos, tínhamos o beat e fizemos tudo ali. Também é um método muito fixe porque as temáticas vão sendo exploradas no momento.

E também fazes a produção.

Sim, nestes dois EP a maior parte das produções são minhas.

Também em casa?

Sim, porque o estúdio da Astro também é um home studio. Eu gosto de chegar lá com o trabalho já feito. Gosto de produzir com outras pessoas, mas só com mais uma. Se for só uma, já começa a haver muita distracção. Agora não tenho produzido tanto – faço mais produção executiva.


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Quando comecei tinha o sentimento de revolta do sistema e de tudo o que me rodeava. Foi isso que me deu o primeiro drive para me expressar.


Uma coisa que se faz notar muito na tua produção são as memórias de infância: referências a videojogos, banda-desenhada e as televendas – neste último Vaporetto Titano!

Está na moda! (risos) Sempre adorei BD, jogos de computador. Sempre joguei bué e ainda jogo. Esse lado catalogado como infantil para mim é lúdico. Tirei o curso de desenho animado e gosto muito disso tudo. É sempre fixe irmos buscar referências de infância e adolescência porque é quando as coisas estão mais vivas, até a nível emocional.

Normalmente, quando começamos a puxar pelas memórias, são umas a vir atrás das outras…

Sim, e até te vais buscar coisas das quais não te lembravas…

Se te lembras do “Agora Escolha” e da Vera Roquette, vem à memória o “Bocas”, o “MacGyver” ou “O Justiceiro”.

Precisamente. Eu via o Michael Knight na TVI em brasileiro, com o “Kitxi, vem mi buscá”. E o meu tio chamava-me Michael Knight. Foi daí, claro, que veio o meu nome – tinha um outro, mas mudei – e não vou revelar quem era (risos).Este nome tem a referência do justiceiro, de eu também ter essa mentalidade, de eu ser Miguel…

Já estiveste no rap e já deixaste o rap. Por que decidiste voltar?

Estive uns quatro anos sem escrever nada. Houve uma altura em que fazia rap e uma série de coisas na minha vida fizeram com que eu deixasse de me identificar com aquilo que o rap representava na altura. O rap que saía não me dizia grande coisa – em 2006 ou 2007. Estava a sair rap muito mau, tudo à volta do “bling”… na altura interessei-me por outros tipos de música que, por A+B, também iam ter ao rap. Foi quando começaram a aparecer as primeiras coisas de Crookers, que tinham remixes com funk e rap, muito fixes. Quando ouvi as primeiras malhas de dubstep, também me remetia logo para hip hop. O drum ‘n’ bass também tinha músicas com MC. Mas o que me fez voltar a ter interesse no hip hop foram os Odd Future e, sobretudo, o Tyler, The Creator. Ouvi-o a rimar e disse: “Isto é que é! Um gajo sem complexos sobre o que rimar, sobre o que escrever.” Isso é único. É tudo aquilo que a cultura hip hop representa e que está bué distorcida hoje em dia.

Essas influências mais electrónicas, incluindo o dubstep, não são declaradas na tua música, mas o teu hip hop não deixa de puxar para o dancefloor.

Claro, tem muitas influências. Queria puxar sonoridades novas, também aprendi a gostar da cultura do dancefloor. Queria fazer uma espécie de fusão entre os dois sem ser demasiado drum ‘n’ bass com rap ou hip hop com batidas. Sem ser óbvio. Consegues estar a ouvir uma letra enquanto estás a bouncing to it.

O teu primeiro trabalho foi a mixtape Trocadalhos do Carilho. Seguiu-se o EP Rusga Para Concerto em G Menor e agora um novo EP – Vaporetto Titano. Por que não fazer um disco?

Já o Rui Miguel Abreu me tinha perguntado algo do género… eu estou agora a começar um álbum, mas tinha estas músicas para lançar e achava que não davam um disco. Quando acabei o primeiro EP algumas destas já estavam feitas. Como quero fazer um disco com uma linha condutora, tudo à volta da mesma cena, e decidi lançar mais um EP. É um formato legítimo e tem a linguagem da música electrónica, com os artistas que lançam EP com duas músicas de quatro em quatro meses.

Mas estás já a gravar ou só ainda a pensar no disco?

Está tudo em fase criativa. Ainda não comecei a gravar. Está tudo a ser criado. Já tenho algumas ideias, nada muito concreto, sobre o que quero falar, tenho instrumentais, começos de letras. Agora, quando começar a ser um processo mais contínuo, é que as coisas vão começar a surgir todas.

Sentes que as tuas ideias estão a ganhar outra dimensão, a sair do bairro e a dar passos maiores no teu processo criativo?

Sinto em mim uma ambição de experimentar coisas diferentes. Mas as temáticas a abordar são as mesmas, porque é que se passa na minha cabeça no dia-a-dia. A nível musical sinto é vontade de experimentar outras coisas.



Ficaste surpreendido com o sucesso do “Mambo Nº1”? Percebeste logo a bomba que tinhas ali?

Fiquei surpreendido, claro. Foi a primeira vez que fiz uma coisa na minha vida que me pôs fora do anonimato. Vou na rua e as pessoas dão-me os parabéns e isso é novo para mim. No fundo, trabalho a pensar que isso pode acontecer, mas nunca se está realmente à espera. Tive bué pessoal a gostar, mas também bué pessoal a odiar!

O que é que te dizem os haters?

[Ri-se] Faz tudo parte! “Hipster de merda”; “vocês estão a matar o rap”. Mas também me dizem que é “uma lufada de ar fresco”. É bom sinal e acabou por mudar-me a vida a nível de experiência social.

Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.