Tyler, The Kid

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Não há dúvidas, para o melhor e para o pior, Tyler, The Creator mudou o jogo do rap. Quando o colectivo Odd Future começou a dar nas vistas nos alvores da presente década, Tyler contava apenas 19 anos, mas já era uma tremenda força criativa. Foi, nomeadamente, dos primeiros a perceber que as dinâmicas de criação, edição e de gestão de carreiras se tinham alterado profundamente com a chegada da internet. A sua juventude, mas também a sagacidade do seu intelecto, permitiram-lhe entender desde logo que este era um mundo diferente que comunicava de forma diferente. Tyler começou por estabelecer o seu colectivo Odd Future no Tumblr e usou as redes sociais como trampolim para conseguir um dos mais importantes capitais do presente – visibilidade.

Claro que a sustentar tudo isso existe a música. Mas é preciso entender que o rap é apenas um dos aspectos do que Tyler faz. E Tyler faz muita coisa: ele é street smart, entendeu a cultura skate como poucos, usou-a para forçar uma imagem diferente, transformou isso numa marca, criou roupas, programas de televisão. Criou, enfim, um personagem. Tyler, o criador. Talvez uma tradução mais apurada seja até Tyler, o criativo.



Entretanto, esgotadas as três sessões com o seu psico-terapeuta, o Dr TC, que oferece a moldura conceptual para os três primeiros álbuns, Tyler chega a Cherry Bomb, o seu álbum pop (?). Para trás ficam canções repletas de temas abjectos, como a violação, e uma suposta homofobia que na verdade nunca fez sentido – ele é, afinal de contas, um dos mais firmes apoiantes de Frank Ocean. O que Tyler entendeu desde logo é que no oceano da internet não vale a pena esbracejar. O importante mesmo é chocar. E chocar é uma estratégia tão válida como apaixonar, seduzir ou inspirar. Escolham qualquer outro verbo mais inofensivo se quiserem, cada um usa as estratégias que entender, mas Tyler gosta mesmo é de chocar.

Em Cherry Bomb, Tyler parece também apostado em sublinhar a sua veia de produtor, afinal de contas ele tem sido uma força constante em praticamente todos os trabalhos do colectivo Odd Future. Talvez ele tenha percebido que há companheiros mais fortes do que ele mesmo no que à arte das rimas diz respeito – ouça-se o que Earl Sweatshirt faz em I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside, por exemplo – e tenha decidido afirmar a sua condição de produtor. Tyler declarou paixão por Stevie Wonder, convidou Leon Ware e até gravou cordas no estúdio de um famoso compositor de Hollywood, o que aliás gerou um tweet de incrível humor, algo como “pensei em Rick Ross para o tema “2Seater” mas acabei antes por escrever e gravar uma secção de cordas no estúdio de Hans Zimmer”. O jazz parece ser afinal de contas uma ambição natural para esta nova geração de Los Angeles – além de Tyler podem igualmente apontar-se os exemplos de Kendrick Lamar ou Flying Lotus. Inspirado em Pharrell, que aliás surge no álbum, como também surgem Lil Wayne ou Kanye West, inspirado no rock dos Stooges, que certamente ouviu enquanto skatava nas ruas de LA, Tyler criou um disco dinâmico, variado e divertido que o posiciona, uma vez mais, na linha dianteira desta cultura. E a fasquia continua a elevar-se: há quanto tempo o hip hop não tinha um ano como este 2015? E ainda mal vamos a meio…

*Ensaio originalmente publicado na edição 46 da revista Parq.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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