Mike El Nite no Estúdio Time Out: Tambores, rebuçados para a tosse e aplausos

[TEXTO] Miguel Santos [FOTOS] André Pêga 

Depois de ver um período da sua vida transformado em banda desenhada, chegou a vez da apresentação ao vivo: Mike El Nite passou pelo Estúdio Time Out para mostrar o seu novo trabalho, Inter-Missão. Fez-se acompanhar da sua “família” da Think Music e também de amigos da Monster Jinx. Foi uma noite cheia de música em que o foco principal não foi esquecido mas Miguel Caixeiro também deu espaço a outros para entreterem um público que foi aumentando até à hora da sua entrada.

A noite começou com LVIN (que anteriormente assinava como Ventura) num set composto por música com ginga para os poucos grupos de três, quatro amigos que víamos espalhados pelo recinto de cimento, cujo chão reflectia o pacato espectáculo de luzes de vermelhos e azuis. Mais atrás viam-se mesas com rebuçados Dr. Bayard, alguns dos copos já meio cheios no início do concerto, surripiados por madrugadores sonoros.

 



Depois de LVIN, Maria continuou a festa com um set mais dançável e não tão acelerado, a desvendar a noite de maneira mais tranquila. Mas foi benji price quem subiu definitivamente a temperatura — e com a ajuda de Oseias… Atacou com o trap, primeiro passando pelo internacional mas sem esquecer a nata do que se faz por cá — houve espaço para músicas de Pika, Yuri NR5 ou Blueface. No final do seu set ribombante, chamou o novato e talentoso xtinto para cuspir “Quentin Miller”, tema possante que o mostra como um letrista nato. Foi um momento rápido que precedeu uma pequena intermissão antes de… Inter-Missão.

“Carmen” abriu o concerto de Mike El Nite, com Rita Vian a cantar fado com postura, de olhos fechados e rodeada de burburinho. Antes de vermos Caixeiro, ouvimos os seus suspiros de auto-tune, entrando pouco depois em palco, mostrando-se a um público que terminou a música a entoar Amália de forma entusiasmada. “Muito obrigado a toda gente que está aqui aqui presente. Antes de irmos para a frente, vamos para trás”, disse Nite na sua voz grave e imperial antes de “F.E.N.A. II” nos remeter para o EP Vaporetto Titano e a um músico que infelizmente nos deixou cedo de mais: “Razat, rest in peace, obrigado pela tua arte”.

 



Foi a apresentação de um novo trabalho, mas Caixeiro não esqueceu outras etapas do passado que o cimentaram como um talento à parte na música portuguesa. “Santa Maria” foi um dos momentos altos do início do concerto e “Monkey” também recebeu um caloroso apoio do público depois de uma “farpa” de Nite: “Afinal também há trap consciente”. “Se tás feliz e contente bate palmas” foi algo que o público absorveu e assentiu fervorosamente. “Oliude” e “2p” completaram a fase O Justiceiro do espectáculo, mas houve tempo para temas soltos como “Funeral”, com uma aparição de NERVE (“Tiago, o Nervoso, in the building!”). Depois do tema, o Sacana Nervoso despediu-se com um rápido “Muito obrigado, juventude, até mais logo”, mas ficou claro que a cripta não se ia abrir mais hoje.

Infelizmente, as vozes de Nite e dos seus convidados soaram abafadas pelos instrumentais ensurdecedores e isso notou-se claramente em “Caixa Negra”. J-K cuspiu com pujança o seu verso e o hook de Nite foi bem recebido pelo público mas o equilíbrio entre a voz e a batida deixou a desejar. Ainda assim isso não afectou o bom humor de Caixeiro: “Foi a segunda vez que cantei esta música e na primeira nem sequer estava acabada por isso considerem-se blessed”. Depois de “S.Q.N.” deixar o público a dançar energeticamente, Nite reportou as baixas do concerto, entre elas ProfJam, e por isso Caixeiro optou por cuspir “Mambo Nº 1” em modo stream of consciousness, acompanhado pelo competentíssimo Diogo Sousa, o baterista ideal para recriar os instrumentais trap. Uma maneira diferente (e bem-conseguida) de abordar o tema que o fez explodir no meio musical.

 



Nos momentos finais do concerto, “L.Y.B.Y.” ainda injectou energia agressiva no público mas “Dr. Bayard” foi o grande estrondo final. Apesar de Sippinpurpp não ter estado presente, o seu verso foi o mais entoado na música, e felizmente Fínix MG trouxe energia para os dois quando cuspiu as suas barras: meteu toda a gente a saltar enquanto rebuçados eram disparados do palco. Inspirado pelo belo esforço de um dos seus parceiros da Think Music, Nite entrou em “T.U.G.A.” a todo o vapor, proporcionando um momento de moche no centro do espaço e acabando com um crowdsurf intenso de curta duração.

“Capacete” foi precedido de um agradecimento melódico com auto-tune e foi sem dúvida um dos melhores momentos e definitivamente o mais introspectivo do concerto. O público respeitou — viam-se alguns isqueiros no ar durante a música — e Nite fez um excelente trabalho a mostrar o seu lado mais confessional. “Muito obrigado, meus putos, sejam felizes”, disse o rapper antes se juntarem três músicos (Gabriel Silva no baixo, Gil Amado na guitarra e Gui Salgueiro nas teclas) e “Arco-Íris” soar como a consagração de vivências que é, a fechar o concerto com muito optimismo. Foi uma estreia doce, barulhenta e pessoal, o ponto de partida para um novo ano de Mike El Nite que certamente será ainda mais explosivo que o anterior. No final, só resta recorrer ao Dr. Bayard para acalmar a garganta dorida e recarregar energias até ao próximo apogeu de Caixeiro.

 


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